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Café Society

de Woody Allen

muito bom

Woody Allen parece ter definitivamente regressado a terras americanas depois de uma série de empreitadas pela Europa que durante uma década ocuparam a maior parte da sua filmografia. E a boa notícia é que Café Society é ao mesmo tempo um Allen típico e uma tentativa de saída da sua zona de conforto.

A acção da sua mais recente narrativa situa-se na década de 1930 e alterna entre o brilho e o glamour de Hollywood e os tons mais cinzentos de Nova Iorque. Bobby (Jesse Eisenberg) é o jovem que parte de Nova Iorque para Los Angeles na esperança de que o seu tio Phil (Steve Carell), um poderoso agente, lhe consiga um emprego no mundo do espectáculo. Sem conhecer ninguém em L.A., Bobby depressa se deixa encantar por Vonnie (Kristen Stewart), a jovial secretária de Phil, que apesar de se encontrar numa relação, vai-se também deixando encantar pelo recém-chegado. Entretanto, Bobby continua a receber notícias da sua família em Nova Iorque, nomeadamente do seu temperamental e violento irmão Ben (Corey Stoll), que mantém ligações ao crime organizado.

Julgando pelos trailers e diversos materiais promocionais, Café Society parece à primeira vista apenas uma doce história sobre a era dourada de Hollywood, mas aos poucos vamos percebendo que se trata de algo mais, com Woody Allen, também surgindo aqui como narrador (um dos elementos mais fracos do filme, que podia viver bem sem o dispositivo da narração algo preguiçoso), a imprimir uma melancolia triste aos acontecimentos, deixando espaço para a comédia, é certo, mas também para as grandes questões existenciais que dominam grande parte da sua carreira. Já sabemos, desde A Rosa Púrpura do Cairo (1985), que a relação do realizador com a era dourada do cinema americano deixa sempre um sabor amargo na boca do espectador. Café Society é, antes de qualquer outra coisa, uma clara, clássica e trágica história de amor, ao mesmo tempo que consegue ser também profundamente divertido, especialmente nas cenas iniciais onde joga muito bem com o desconforto de Bobby, que se sente como um peixe-fora-de-água em Los Angeles – a cena que Eisenberg partilha com Anna Camp, no papel de uma prostituta na primeira noite de trabalho, é das mais hilariantes de Allen em anos! Muito desse mérito vai também para Jesse Eisenberg, que aqui atinge o equilíbrio perfeito entre a sua habitual persona diante das câmaras e uma fragilidade que nem sempre expõe. Arriscamos mesmo dizer que, mais do que A Rede Social (2010), esta é a sua grande interpretação em cinema até ao momento, pois nem sempre lhe permite esconder-se por baixo das suas recorrentes máscaras de frieza.

Além de Eisenberg, o restante elenco cumpre perfeitamente perante as exigências do guião que alterna frequentemente entre a comédia e o drama e, quando parece próximo de perder o rumo, rapidamente nos assegura de que sabe perfeitamente até onde quer ir. Todos os elementos que compõem a família de Bobby assumem uma vertente cómica bastante feliz, ao passo que Kristen Stewart e Steve Carell conferem nuances muito humanas a figuras que poderiam facilmente cair, especialmente no caso de Carell, na unidimensionalidade que já traiu algumas personagens recentes de Allen (como a de Rachel McAdams em Meia-Noite em Paris, por exemplo). E que dizer da presença de Blake Lively que, nas poucas cenas em que surge, ilumina o ecrã com o brilho das estrelas clássicas?

Por falar em brilho, é impossível escrever sobre Café Society sem referir o trabalho de iluminação do lendário director de fotografia italiano Vittorio Storaro, que não só convenceu Allen a filmar em digital pela primeira vez na sua carreira, como parece ter-lhe dado, por consequência, uma certa liberdade para explorar alguns recursos pouco habituais na sua filmografia, nomeadamente ao nível do uso de lentes mais abertas e ângulos de câmara alternativos. Apesar de em certos momentos Storaro parecer chamar demasiado a atenção para o seu sempre impecável trabalho de luz e sombras, a verdade é que este essa evocação do estilo mais vistoso da Hollywood clássica resulta numa frescura visual que parecia faltar ao realizador em tempos mais recentes. Faz-nos alguma confusão a frieza com que tem sido recebido desde a sua estreia no Festival de Cannes, pois por aqui consideramos este um dos belos filmes da carreira do seu prolífico autor.

Resumo da crítica

Summary

Alternando entre a sua Nova Iorque do coração e a eterna inimiga Los Angeles, Woody Allen oferece-nos um dos melhores filmes dos últimos anos, tão inspirado na comédia como mergulhado numa profunda melancolia.

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