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Bohemian Rhapsody

de Bryan Singer

mediano

Prometendo-nos um olhar profundo sobre uma das mais coloridas personagens do rock internacional, Bohemian Rhapsody torna-se simplesmente uma checklist de momentos icónicos para fazer os fãs de Queen cantar nas salas de cinema.

 

Uma chamada biopic (filme assente na biografia de uma pessoa real) tem sempre à partida um desafio: cingir-se a factos conhecidos, como que uma visita guiada por momentos que conhecemos e que queremos ver na tela, ou tentar ser algo mais, como um estudo de personalidade, retrato de época ou contexto que transcenda aquilo que é sobejamente conhecido.

Quando a biopic se dedica a uma pessoa mediática, como foi Freddie Mercury (vocalista da banda Queen, desaparecido em 1991, vítima de complicações advindas da SIDA), a tentação de tornar a obra uma checklist de momentos icónicos é ainda maior. E quando o filme conta na cadeira de produção com o antigo empresário da banda, Jim Beach, e tem como produtores executivos os colegas de Freddie, Brian May e Roger Taylor, podemo-nos perguntar se o que estamos na ver não é uma espécie de biografia oficial sancionada pelos que sobreviveram a Freddie e continuam a precisar de promover o nome da banda. A certeza de que Bohemian Rhapsody se trata de um projecto de produtores, onde a voz artística do realizador pouco conta, confirma-se na salganhada que foi a passagem da batuta a meio do filme de Bryan Singer a Dexter Fletcher, que até tinha estado na calha para realizar o filme, antes de a tarefa passar a Singer, numa altura em que Sasha Baron Cohen era a escolha para o papel do protagonista.

Bohemian Rhapsody centra-se em duas coisas, a colorida personalidade de Freddie Mercury (recriada quase dolorosamente por Rami Malek, num excelente trabalho de cópia de maneirismos) e a participação dos Queen no Live Aid. Diga-se aliás que, com a recriação em palco da mítica actuação no citado concerto de beneficência de 1985, de que vemos quatro temas na íntegra, sentimos que todo o filme foi quase um pretexto para se chegar a essa tarefa hercúlea de reproduzir em filme uma das actuações ao vivo mais famosas da música rock. Tanto assim é que, em meios técnicos, recursos estéticos e decisões de filmagem e montagem, estes cerca de 16 minutos são um filme dentro do filme, onde os produtores “gastaram as fichas quase todas”, e que faz parecer todo o resto maçudo e arrastado.

Sendo certo que, tecnicamente, Bohemian Rhapsody tem tudo para deixar os produtores felizes (as colagens entre actores e músicos que retratam são exemplares, bem como o tratamento da música, e a já citada – e não é demais dizê-lo – espectacular sequência do Live Aid), sente-se, no entanto, que ficamos sempre aquém daquilo que o filme nos poderia dar. A biografia da banda é limpinha (onde estão as infames festas e comportamentos dos anos 70?), todos os músicos se comportam como cavalheiros, não se descreve qualquer relação entre banda e panorama musical da época, em exceptuando um ou outro momento, a carreira dos Queen parece caída do céu, de pico em pico, sem nenhuma tentativa de explicação do que os moveu criativamente, ou o que suaram para lá chegar.

E esta superficialidade quanto à banda verifica-se também sobre a personalidade de Freddie. Assim que o filme o projecta para o estrelato, ele diz-nos que está só, e que a descoberta da sua homossexualidade o afastou daquela (que ainda assim) foi a mulher da sua vida, Mary Austin (Lucy Boynton). Diz-nos, porque nada no filme no-lo faria sentir, como tudo o resto que de desenvolvimento de personagem tem pouco (Freddie limita-se a dizer-nos que se sente só durante todo o filme), pois os autores parecem não saber que, mais importante que dizer-nos, é mostrar-nos e fazer-nos sentir. Isto é transversal a outros aspectos. Por exemplo, os outros três músicos passam pelo filme como uma entidade chamada “os outros três músicos” sem nada que os distinga, e nenhuma profundidade que faça deles pessoas de carne e osso.

De resto, Bohemian Rhapsody altera a cronologia de muitos factos, glorifica a banda e empresário, vilipendia quem em torno dela gira, e mostra Freddie como um menino perdido que nunca cresceu. É muito maniqueísmo quando se pedia uma análise mais profunda e sincera. Mas, afinal, o que interessa aos produtores é apenas contar a versão que dará mais alegria aos fãs. E não tenhamos dúvidas, é apenas serviço de fãs o que Bohemian Rhapsody pretende fazer.

Nada de errado nisso, claro. Como entretenimento funciona, e fará muitos querer cantar nas salas de cinema. Mas se Freddie o visse, talvez se sentisse ainda mais só

Review overview

Summary

Com Brian May e Roger Taylor como produtores executivos, Bohemian Rhapsody torna-se uma espécie de biografia oficial (não necessariamente correcta) dos Queen, onde mais importante que desenvolver personagens ou mostrar-nos o que fazia a máquina funcionar, o filme prefere conduzir-nos por alguns momentos icónicos, que farão os fãs querer cantar nas salas de cinema.

Ratings in depth

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
2.5 10 mediano

Comentários

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