Share, , Google Plus, Pinterest,

Print

Posted in:

Blade Runner 2049

de Denis Villeneuve

perfeito

Denis Villeneuve substituiu Ridley Scott na cadeira de realizador e, em Blade Runner 2049, propõe um reencontro com Rick Deckard, a personagem interpretada por Harrison Ford que pode ser a chave para um mistério do passado investigado pelo agente K., a nova personagem central encarnada por Ryan Gosling.

 

Deixem-me desde já lidar com o elefante no meio da sala. Vai ser impossível falar de Blade Runner 2049 ignorando tratar-se de uma sequela com trinta e cinco anos de atraso do clássico cozinhado a lume brando — lembrem-se que foi um fracasso a todos os níveis à data de estreia — Blade Runner: Perigo Iminente, de Ridley Scott. Qual o papel de uma sequela? E qual a sua razão para existir, além de todas as motivações comerciais? Deverá uma sequela expandir o universo do filme original ou reinventá-lo? Deverá reconhecer os acontecimentos do filme que lhe deu origem ou desenvolver novas histórias, criando narrativas diferentes com novas personagens? E, nos casos em que se desenterra uma obra dezenas de anos depois, servirá apenas um desígnio nostálgico? Obviamente que as respostas a estas perguntas vão depender do gosto pessoal de cada um e, mais importante ainda, da qualidade do produto final.

Veja-se o caso de Aliens: O Recontro Final, também ele uma continuação de outro clássico de ficção-científica de Scott, em que o seu maior trunfo foi precisamente a expansão do universo definido no filme anterior numa variante explosiva que aumentava a escala e acelerava a acção. A qualidade do filme e o forte cunho autoral de James Cameron mitigaram o peso potencialmente castrador de esta ser uma sequela de Alien: O Oitavo Passageiro. Depois de ver Blade Runner 2049, esta é, na verdade, a discussão mais desinteressante que se pode ter a propósito do extraordinário filme de Denis Villeneuve. O realizador canadiano (tal como Cameron — coincidência?) conseguiu o impossível: ofereceu-nos uma continuação que, apesar de desnecessária, respira uma vida própria e expande os temas e o universo do filme original sem se perder em fúteis referências nostálgicas, não deixando de o espelhar subtilmente. Assim, será mesmo impossível ignorar o facto que se trata de uma sequela, porém será com extrema facilidade que não o levaremos a peito.

O visionário universo da Los Angeles futurista, anteriormente perfeitamente cristalizado na consciência colectiva, é aqui genialmente expandido e actualizado. Villeneuve opta, desde o primeiro momento, por ecoar a narrativa e a estética do filme original e, ao longo das suas duas horas e três quartos de duração, muitos serão os momentos visuais e sonoros evocativos da memória daquele, sem nunca se limitarem a uma função nostálgica e de referência gratuita. Aliás, este é um universo ainda mais sujo e menos convidativo do que aquele que conhecíamos. E, se o âmbito da narrativa é mais épico e ambicioso que o anterior, a vivência das personagens parece ser ainda mais insular, mais isolada. Ryan Gosling é o agente K., um blade runner sintético que, ao completar uma das suas missões, descobre um segredo literalmente enterrado. Ao tentar desvendar o mistério por detrás desse segredo, K. chama a atenção de Niander Wallace, o empresário responsável pelo fabrico dos escravos sintéticos, que encarrega Luv de garantir que o agente é bem sucedido, na esperança de colher os proveitos para si. Entretanto, a sua investigação pode estar ligada com o seu próprio passado e com o passado do agente Rick Deckard, o regressado Harrison Ford. Se esta sinopse é algo vaga, é porque é muito difícil falar dos desenvolvimentos da narrativa sem estragar a experiência para quem ainda não viu o filme. Além disso, Villeneuve impõe um ritmo ponderado e metódico, muito ao seu estilo, que transforma Blade Runner 2049 numa vibrante experiência sensorial onde a narrativa não é chamada para a boca de cena.

Denis Villeneuve conta com um triunvirato de excepcional qualidade técnica responsável, em larga medida, pelo sucesso do projecto. Roger Deakins, o genial director de fotografia britânico que já foi nomeado para os Óscares treze vezes sem nunca ter ganho, é o responsável pela captura das deslumbrantes imagens que, logo ao primeiro contacto, deixam antever um futuro estatuto icónico, sejam as cenas de chuva e neve em Los Angeles, o nevoeiro da plantação agrícola na abertura, o laranja doentio de uma Las Vegas assolada por radioactividade ou o chiaroscuro flutuante dos interiores da sede da empresa de Wallace. Outro vértice deste triângulo é o desenhador de produção Dennis Gassner. Desde os interiores minimalistas de Wallace até ao rigor da tecnologia do apartamento barato de K., passando pelo visual novamente coberto de néon e reclamos publicitários de Los Angeles, não só o seu trabalho empresta verosimilhança a um mundo construído de raiz, como o faz num contexto lógico do que conhecíamos anteriormente. Finalmente, a banda sonora a quatro mãos de Benjamin Wallfisch e Hans Zimmer. Apesar de bombástica a espaços, é subtil e discreta quando assim é necessário, herdando as características electrónicas da música composta por Vangelis, sem nos forçar temas orelhudos ou miméticos daquela, insinuando-se e dando-se a descobrir lentamente, em perfeita sintonia com o ritmo do filme. A única excepção é a recuperação de um tema marcante e reconhecível num momento chave da recta final da película.

Hampton Fancher voltou a dividir a assinatura do argumento, desta vez com Michael Green, embora aparentemente num processo mais colaborativo do que aconteceu no primeiro filme em que foi afastado contra a sua vontade. Se na herança da história original de Philip K. Dick as principais preocupações temáticas eram a condição humana, o confronto com o que nos torna humanos e o encarar da nossa própria mortalidade, desta vez Fancher e Green colocam em primeiro plano a perspectiva da experiência sintética. Ao olharem mais para o futuro, de certa forma apontaram um holofote à nossa vivência actual, à nossa relação com as máquinas e inteligências (artificiais ou não) que nos rodeiam, bem como às possibilidades de relacionamento que se avizinham no nosso horizonte. Joi, a companheira virtual de K. interpretada por Ana de Armas, é a expressão maior desta reflexão. Para trás ficou o jogo do gato e do rato e o mistério neo-noir de quem seria, ou não, um replicante. Em 2049, as máquinas são facilmente identificáveis e, sem grande surpresa, alvo da intolerância dos humanos. Mas o que será que distingue um replicante de um ser humano? Será um conceito abstracto como a alma? Por certo que as memórias podem ser fabricadas, mas qual a diferença entre estas e as reais?

A vivência de K. — um replicante — e Joi — para todos os efeitos um holograma — traduz na prática o ideal do sonho americano da década de cinquenta. A sua relação assenta em reações emocionais e, quando Joi ganha mobilidade, a sua capacidade de deslumbramento com algo tão singelo e mundano como a chuva é comparável ao deslumbramento de K. com os flocos de neve que caem na sua mão. Num mundo em ruínas, parecem ser as novas formas de vida as únicas a encontrarem o sublime nas ações da natureza. E não será esta capacidade de deslumbramento equivalente a testemunhar um milagre, a despertar um sentimento de transcendência? Robin Wright, no papel da Tenente Joshi, a superior de K., apesar de humana, tem um ar mais rígido e artificial que qualquer replicante e, perante a possibilidade de uma nova ordem mundial, teme pelo futuro da sua existência. Quando diz a K que andamos todos à procura de algo real e se insinua sexualmente, ele ignora-a. Para ele, Joi é real e os dois virão a consumir a sua relação através de um avatar físico. Num mundo hostil, é Joi quem (por concepção, configuração ou opção) lhe diz o que ele precisa ouvir e o faz sentir especial. Como um rapaz de verdade. Nestes aspectos, tematicamente, Blade Runner 2049 está mais próximo de A.I. Inteligência Artificial, de Steven Spielbeg, e de Uma História de Amor, de Spike Jonze, do que do filme do qual é uma continuação.

O elenco é de excepção. Ryan Gosling foi uma escolha acertada para o papel principal pois o seu ritmo muito próprio presta-se a um desempenho um tudo nada artificial. Ana de Armas é eficiente como um produto de software que desenvolve a sua relação com o cliente, nunca traindo a realidade dos seus sentimentos. Robin Wright tem um papel ingrato. As maioria das suas cenas servem propósitos de exposição temática, constituindo, a par de das cenas de Niander Wallace, os momentos menos conseguidos do argumento. A mais valia, neste último caso, é a canastrice de Jared Leto encaixar que nem uma luva na pomposidade e pretensiosidade da sua autocentrada personagem. Mas as interpretações maiores de Blade Runner 2049 são Sylvia Hoeks, como Luv, e… Harrison Ford. Luv é uma personagem incontornável e inesquecível. É o braço-direito de Niander, implacável e mortífera, com uma postura rígida e pouco natural, transparecendo, no entanto, uma qualidade algo prosaica e, mais relevante, uma luta interna entre a sua programação artificial e um vestígio de humanidade quando, a espaços, não evita escapar uma lágrima solitária apesar da sua frieza exterior. Uma revelação!

A primeira boa notícia do regresso de Rick Deckard é a manutenção do mistério em relação à sua verdadeira natureza, decisão acertada e que merece aplausos. Quando o seu caminho se cruza inexoravelmente com o de K. em Las Vegas, não é por acaso. Nesta cidade artificial e decadente, as glórias do passado subsistem em formato holográfico numa representação física da temática enraizada na narrativa, incluindo a interpretação de Frank Sinatra de One For My Baby (And One For The Road), de onde K. adopta o nome de Joe, pelo qual passa a responder. Ford, ao contrário do registo monocromático de 1982, oferece uma interpretação recheada de emoções e subtileza e carrega Deckard com o peso da sua experiência e maturidade. Não só Joe desenterra memórias dolorosas do seu passado — mais uma vez o poder da memória —, como perante um simulacro do objecto do seu amor renega o poder da sua falsa verosimilhança. É uma interpretação poderosa, quase discreta, que, não só faz a ponte com o passado, como eleva Blade Runner 2049 a novos patamares de excelência.

Termino por endereçar outra questão que não deve ser evitada. É verdade que há elementos narrativos que ficam em aberto e que sugerem a possibilidade de outros filmes neste universo. Não só o final espelha a conclusão do original — na versão definitiva do seu realizador — como há a sugestão de conflitos futuros não resolvidos. Mas não nos enganemos: estamos muito longe da moda actual de criação de universos cinematográficos. Blade Runner 2049 não será revolucionário nem tão influente como Blade Runner: Perigo Iminente, mas porque haveria de o ser? Olhando para o filme pelos seus próprios méritos, Denis Villeneuve orquestrou uma obra contracorrente da linguagem contemporânea, com um ritmo e sensibilidade muito particulares e, à semelhança do que tem vindo a fazer sistematicamente, ofereceu-nos uma sublime experiência visual e sonora que, embora careça de alguma subtileza, envolve-nos tematicamente, arrebata-nos pela sua gravidade e deslumbra-nos pela audácia da sua ambição. Excepcional!

 

Resumo da crítica

Summary

Denis Villeneuve conseguiu o impossível e ofereceu-nos uma continuação que respira uma vida própria e expande os temas e o universo de Blade Runner: Perigo Iminente sem se perder em fúteis referências nostálgicas, não deixando de o espelhar subtilmente. Excepcional!

Classificação

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
5 10 perfeito

Comentários

Share, , Google Plus, Pinterest,