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BlacKkKlansman – O Infiltrado

de Spike Lee

muito bom

De volta aos temas que o caracterizam, Spike Lee traz-nos a improvável história de um recruta negro do Ku Klux Klan, numa crítica bem actual à sociedade do seu país.

 

O reputado e muito premiado realizador Spike Lee está de volta, depois de alguns projectos falhados, com mais um filme dedicado àquilo que tem sido recorrente na sua carreira, uma análise da América por vezes escondida debaixo do tapete, mas onde as desigualdades sociais e tensões raciais são demasiado gritantes. Com uma propensão documentarista e um humor velado, com posições directas, que por vezes lhe valem ataques cerrados de partes da sociedade norte-americana, Spike Lee tem construído uma carreira onde o intervencionismo (e militantismo) político e social é nota dominante.

E, mesmo que agora mais polido, esse é o mote de BlacKkKlansman – O Infiltrado, um filme feito a partir de um livro homónimo que narra as memórias de Ron Stallworth, e que ganhou o Grande Prémio de Cannes, bem como a Menção Honrosa do Júri Ecuménico do mesmo festival, e o Prémio do Público do Festival de Locarno.

Tão improvável que parece saído das mais delirantes farsas dos irmãos Coen, o filme mostra como o primeiro agente negro da polícia de Colorado Springs (CSPD), o próprio Ron Stallworth (John David Washington, filho de Denzel Washington, que fora Malcolm X no filme homónimo de Lee em 1992), começa a trabalhar infiltrado no acompanhamento de movimentos contestatários de estudantes negros, e tem como ideia contactar o Ku Klux Klan local fazendo-se passar por potencial interessado. Dada a óbvia contradição, a CSPD utiliza o agente branco Flip Zimmermann (Adam Driver) para os contactos em pessoa, enquanto Ron vai estendendo a sua rede ao telefone.

Há sempre um tom leve em BlacKkKlansman – O Infiltrado, num decidido contraste para não tornar num melodrama algo já de si triste e trágico (o racismo ainda tão actual). A história passa-se na década de 1970, mas é nítida (e conseguida) a intenção de Lee de nos mostrar a cada passo de que nada do que vemos está desactualizado.

Claro que, em qualquer filme com uma agenda política, podemos sempre questionar o quanto o lado propagandístico (por mais que simpatizemos com ele) deve ser determinante. Spike Lee não tem dúvidas, e para ele os racistas são todos patéticos e estúpidos – mesmo que o militantismo negro, no papel da estudante Patrice Dumas (Laura Harrier) possa parecer demasiado frio –, e todo o enredo concorre para um aplauso final (na tela e na sala de cinema) quando tudo é exposto, e os «maus» (dentro e fora do Klan) percebem como foram enganados.

Filmado com amor, e espelho das paixões e ódios de Lee – veja-se a homenagem à blaxploitation dos anos 70, e a forte reprimenda a O Nascimento de Uma Nação (The Birth of a Nation, 1915) de D. W. Griffith – por entre discursos inflamados (patéticos do lado racista, comoventes do lado dos direitos humanos – com um veteraníssimo Harry Belafonte a dar muito coração à história), esse lado mais anedótico, e final de conto de fadas, podem parecer forçados e desnecessários. Mas antes que o pensemos, Spike Lee fecha o filme com imagens actuais, da era-Trump, onde percebemos de vez que é sobre os nossos dias e não sobre os anos 70 que o filme incide – sátira actual, e não documento histórico.

Nesse sentido BlacKkKlansman – O Infiltrado mostra-se como uma antítese da mensagem do recente Sniper Americano (American Sniper, 2014) de Clint Eastwood, o qual termina também recorrendo a imagens de televisão actuais, mas no elogio descarado da América branca, belicista e imperialista.

Review overview

Summary

Filme apaixonado de Spike Lee com uma história real, mas que parece saída da imaginação dos Coen, BlacKkKlansman é, mais que um documento histórico, uma sátira bem actual, a mostrar um realizador no regresso à boa forma.

Ratings in depth

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
3.5 10 muito bom

Comentários

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