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[Retrospectiva IndieLisboa 2016] Baden Baden

de Rachel Lang

muito bom

IndieLisboa 2016 – 23 e 24 Abril, Filme de Destaque – Competição Internacional

“Qual é a tua profissão?” – pergunta Gregoire, contemplando a casa de banho semi-destruída. Ana, sem o olhar, encolhe os ombros, baixa a cabeça e suspira, como quem diz “quem sabe?”. Reconhecendo a indiferença dela nele mesmo, Gregoire segue-a, encolhendo os ombros também.

Depois de uma agradável passagem pela 66º edição do Berlinale este ano, a “continuação” de Ana (Salomé Richard) e da sua história vem desta vez na forma de longa-metragem, anunciando a estreia da jovem escritora-realizadora Rachel Lang no formato, que voltou ao IndieLisboa (o segundo trabalho da realizadora, Les navets blancs empênchent de dormir, marcou presença na edição prévia de 2011) para nos acarinhar com o fim (ou será o início?) da rapariga de 26 anos sem rumo, cujo coming-of-age gradualmente se proclama na desmistificação da programação definida dentro dos rituais sociais comuns que o adolescente passa quando faz a transição para a idade adulta.

Iluminado por um humor seco inteligente e reflectivo da condição humana, Baden Baden vê Ana a voltar à sua terra natal de Estrasburgo no Porsche Panamera pertencente à produção cinematográfica belga onde tinha “interpretado” o papel de uma atrasada assistente que decide voltar a casa após ser repreendida pelo realizador e o seu trabalho ter sido dado por concluído. Daí vem visitar a avó (interpretada pela fabulosa Claude Gensac), que recentemente partiu a sua anca, na casa da qual acaba por se desafiar a substituir a banheira da mesma por um polibã com as suas próprias mãos. Pelo caminho, a relação com um velho amor refloresce – Boris (Olivier Chantreau), um artista de instalação de vídeo que ela claramente devia de ter deixado intocável na sua memória -, faz uma nova amizade com um faz-tudo (ou será faz-nada?), Gregoire (Lazare Gousseau); e tenta descobrir que parte dela ficou naquele cenário situado à margem do rio Reno agora emprisionado pelo seu avariado mecanismo causa-efeito que invoca o tédio e caos que reside bem dentro de si.

É engraçado como os primeiros minutos do filme são passados com Ana dentro de um carro. Nervosa, começamos por vê-la a soltar suspiros exasperados ao longo do caminho até chegar ao seu destino onde deixa uma mulher, uma actriz, que se encontrava durante todo aquele tempo no banco de trás. O realizador do filme belga que está em produção e na qual ela é uma runner prossegue a gritar-lhe pelo seu atraso de 45 minutos. Ela ouve, ouve, pede desculpa e ouve. Segundos depois de volta ao carro, foca-se em engrenhar a marcha-atrás e sair dali sem ele ter oportunidade de ver a lágrima que lhe escorre pela cara abaixo incontrolavelmente. É caso para dizer que são cinco minutos perfeitamente inaugurais. Neles temos não só apresentada a premissa, mas a informação de que esta surge já repartida nos seus três actos, actos que passaríamos a ver serem desenrolados segundos depois. Mas atenção, não é uma tomada de previsibilidade que assombra o filme – afinal, o que parece simplista, autêntico tem a tendência de ser e imprevisível se tornar – mas o seu carisma, uma sofisticação infusa na honestidade da sua trajectória.

A jovem Lang, de mãos dadas com a recente tradição episódica da comédia-drama norte-americana e sensibilidade europeia, está à procura de relacionar-se com a brutalidade dos seus sentimentos, da universalidade da voz que grita a identificação da imperfeição do ser. Mas a sua Ana, transmitida com o magnetismo infindável da sua musa  Salomé Richard, não vive em negação como seria de esperar. Ela sabe que não sabe, e a desorientação dela surge da sua incapacidade em alterar a segunda instância, focar aí a sua ambição e instigar nela essa mesma dificuldade em associar-se com algo concreto e específico que poderá providenciar os frutos do futuro. Ela sabe que precisa da demolição antes da reconstrução, mesmo que não tenha existido uma construção para começar. Começa então a medicar-se e a encher a sua vida com o desafio de dar o polibã perfeito à sua avó onde ela sozinha poderia tomar banho. A acompanhar a viagem, e construída desta névoa de pequenos pormenores na vida de uma jovem adulta, está a comédia física que Lang incita na sua personagem a fim de libertar a opressão da incerteza e dor causados em grande parte por esta nunca se recusar a falar, a pensar, a sentir tudo aquilo que quer no momento em que o quer. Ela pensa que se conhece e tem, por isso, orgulho nessa procrastinação existencial e mais tarde emocional, onde o caos e a ordem vivem em comunhão, e onde ela desconhece a verdadeira estrutura de uma assim-chamada vida em que a sua inutilidade não é recorrente. Aí, nesse limbo, é estabelecido o debate que Lang quer iniciar. Um debate complementado pela cinematografia de Fiona Braillon, através da organização arquitectural do alinhamento dos seus enquadramentos com as superfícies naturalistas dos vários prédios e arredores. Aliás, se reflectida, a textura visual só por si fala-nos dessa encarnação de Ana na construção do polibã para a avó incapacitada, que vai do sistema de canalização à estética inerente do chuveiro escolhido, replicando a mesma paralisação que ocorre quando se entra em contacto com as várias contradições do status quo que permanecem dormentes e incapazes de se moverem, embora vivas. “Pois,– parece-nos dizer Lang – não será o resultado, mas o factor de mudança que nasce do processo de levar um projecto até ao fim.”

Em conclusão, Baden Baden é um pequeno drama, um indie despretensioso que ainda agora, vários dias após a sua estreia, me acompanha nas longas caminhadas pelas ruas agrestes da cidade lisboeta. Personalizado pela explosão que é a colecção de faixas indie-maravilha que acompanha a memorabilidade do filme, – começa com The Rapture e vai de La Femme a Pa’Bravo passando por Django Django e Adam Green -, a mera proposta do conflito interno que o filme elabora no núcleo da competição internacional do festival exalta confiança na magra premissa que, à primeira vista, aparenta ter sido redigida para acompanhar a textura anti-catártica do formato mais curto que já sabemos que Lang domina. Não obstante, e visto que Baden Baden não é tanto sobre o que se retira dele, mas a maneira como estabelece a vivência dos pedaços de empatia que todos nós ainda ou já partilhamos, é difícil negar a sua influência no espectador. Enquanto fala da vida e da morte, da realidade de Estrasburgo e do mundo à volta, da banheira e do polibã, das más escolhas e das acertadas mas não correspondidas, de um momento no tempo e um momento eterno, nunca perde controlo do seu minimalismo e talvez até atinja um certo ‘je ne sais quoi’ Desplechiano. Por isto e mais, o cinema espera galardoar a talentosa Rachel Lang enquanto eu espero pelo seu próximo trabalho (a realizadora já possuí um Leopardo de Prata, recebido na 64º edição do Festival de Locarno em 2011, pela sua primeira curta-metragem Pour toi je ferai bataille), porque ao contrário do seu alter-ego no ecrã, ela parece saber exactamente qual é a sua profissão. E nós também.

Resumo da crítica

Summary

Ainda que prematuro, Baden Baden marca o prefácio inevitável de uma conversa que Rachel Lang quer iniciar. O seu empenho e inspiração são humanos, e por isso contraditórios e nunca livres de argumentações. E a linhagem do caos e da ordem apresentados vivem em harmonia, na mesma batida em que Ana se pergunta o que significa realmente viver.

Classificação

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
3.5 10 muito bom

Comentários

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