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Baby Driver – Alta Velocidade

de Edgar Wright

muito bom

Baby Driver – Alta Velocidade é o novo filme do contagiante Edgar Wright onde Ansel Elgort é Baby, um jovem com especial talento para a condução e com um gosto particular por música que se vê envolvido com perigosos criminosos que podem colocar em perigo o seu romance com Debora, interpretada por Lily James.

 

Ao fim de mais de dez anos de envolvimento, Edgar Wright afastou-se do projecto da Marvel Homem-Formiga em plena fase de pré-produção. Segundo palavras do próprio, «estava interessado em fazer um filme da Marvel, mas a Marvel não estava interessada em fazer um filme do Edgar Wright». Ficou a sensação que a máquina de produção responsável pelos sucessos de super-heróis não soube tirar proveito do jovem e visionário autor britânico que contém no seu currículo uma série de respeitáveis títulos de desenfreada originalidade visual e estética com um fervoroso e dedicado núcleo de fãs. Se Scott Pilgrim Contra o Mundo, o seu primeiro filme produzido nos EUA — e o primeiro sem a colaboração de Simon Pegg — não foi o sucesso que merecia ter sido, a chamada Trilogia do Cornetto — constituída por Shaun of the Dead, Hot Fuzz – Esquadrão de Província e At World’s End — goza de um merecido e considerável culto entre os cinéfilos mais devotos que reconheceram sentimento e emoção nas suas desconstruções de género. Wright virou-se, então, para uma ideia que não o largava desde 1994 e anunciou Baby Driver como o seu filme seguinte. Para o elenco assegurou duas jovens estrelas em ascensão, Ansel Elgort no papel titular e Lily James como o seu interesse romântico, e um conjunto respeitável de actores a encarnar personagens complementares, incluindo Kevin Spacey, Jon Hamm e Jamie Foxx.

Baby é um jovem com especial talento para a condução. Quando era criança, perdeu os pais num acidente de automóvel que o deixou com um caso severo de acufeno — nota aos senhores tradutores: esta condição tem designação em português, pelo que não faz sentido colocarem a palavra original tinnitus na legendagem. Para anular o efeito do zumbido constante nos ouvidos, Baby ouve música ininterruptamente, desaparecendo num mundo só seu onde a realidade é colorida pela contínua banda sonora que extravasa dos seus fones. Além de ter diferentes leitores de música com variadas listas de reprodução em função do seu estado de espírito no momento, também grava conversas do dia-a-dia que remistura em músicas caseiras usando equipamentos de áudio vintage. Doc, o cérebro brilhante responsável por inúmeros assaltos, obriga o jovem a trabalhar depois de roubar um dos seus automóveis e, no rescaldo de mais um plano bem-sucedido, informa Baby que o próximo trabalho saldará a dívida entre os dois por completo. Entretanto, Baby conhece Debora, uma empregada do restaurante que frequenta, e os dois acabam por se apaixonar.

A génese da ideia de Edgar Wright ocorreu em 1994 quando ouviu a música Bellbottoms, pelos Jon Spencer Blues Explosion. Wright deixou-se envolver pelo ritmo e imaginou um cenário onde essa música pudesse servir de banda sonora. A quem isto nunca tenha acontecido que atire a primeira pedra! A minha história pessoal análoga envolve uma lavagem de carros automática com uma duração perfeitamente sincronizada com a música Maps, dos Yeah Yeah Yeahs — também envolve viaturas, se bem que um pouco mais lentas e sujas. Apesar de ter utilizado esta mesma premissa no videoclip que realizou em 2003 para a música Blue Song dos Mint Royale, Wright nunca sacudiu o conceito e, inspirando-se também em O Professional, um filme realizado por Walter Hill em 1978, desenvolveu o que se viria a tornar Baby Driver.

Os quinze minutos de abertura são bombásticos, com duas sequências que servem como cartão de visita para as intenções da película. Na primeira, Baby conduz um veículo de fuga na sequência de um assalto ao som de, precisamente, Bellbottoms. Não se trata apenas de florear a acção com a música. Todos os momentos da cena são orquestrados na sua concepção — e conseguidos através de um minucioso trabalho de edição — para acompanharem todas as batidas, pausas e particularidades da música. Tudo isto desembocando numa perseguição filmada e coreografada de forma primorosa. Sim, um dos créditos no genérico é a de coreógrafo — que, já agora, se chama Ryan Heffington. Inevitável, portanto, comparar Baby Driver a um musical, mas com automóveis. A segunda cena — e ainda só estamos no genérico — repete a dinâmica da primeira, desta vez com Baby a andar a pé ao som de Harlem Shuffle de Bob & Earl. É certo que a sua condição auditiva é apenas um pretexto para este dispositivo quase conceptual, mas a verdade é que desenha uma personagem original que se deixa imergir na sua música como uma forma de ditar o seu próprio ritmo ao mundo, como se as suas listas de canções lhe proporcionassem uma percepção aprimorada da realidade.

Wright, convoca também uma nostalgia romântica por tempos que já não voltam. Se a sua estética é inequivocamente da nossa era, e um reflexo da energia e apropriação da cultura de mixagem, a sua sensibilidade oferece a Baby um gosto pelo analógico. Baby sonha a preto e branco, numa fantasia pincelada pela Americana dos anos cinquenta. Se tem inúmeros iPods — e um dos primeiros modelos do leitor é central ao caráter emocional da personagem invocando a memória da desaparecida mãe —, também ouve música em vinil e remistura conversas que grava em pequenos gravadores de voz, compilando-as em antiquadas cassetes de fita. O desfasamento entre a personagem e o ambiente que a rodeia torna-se assim um dos temas centrais da narrativa. Baby aparenta ser apenas um bom rapaz que cuida do seu pai adoptivo surdo-mudo com carinho, no entanto é um profissional de competência a toda a prova na sua actividade criminosa. Quando conhece Debora, coincidindo com o que julga ser a luz ao fundo do túnel para a sua obrigação perante Doc, Baby pensa ter a oportunidade de se escapar à violência que o rodeia. Mas, ao ser puxado para mais um trabalho com os perigosos Bats, Buddy e Darling, as coisas não correm como esperado.

Baby Driver é uma fantasia, o clássico «rapaz conhece rapariga», desta vez ambientado num contexto do submundo criminoso. Verosimilhança não é aqui uma preocupação. O problema é que o argumento de Wright está tão enfeitiçado com a sua personagem central, bem como com o seu arco narrativo, que tudo o que o rodeia parece apenas existir para definir o rumo da sua história. Debora não chega a ser uma personagem: é meramente o reflexo da derradeira fantasia masculina, alinhando sem reservas nos planos de Baby. Bats, apesar da excelente interpretação de Jamie Foxx, apenas existe para ser um volátil e ameaçador obstáculo no caminho da personagem principal, despoletando a sequência de acontecimentos que o colocam em perigo. No final, sem querer revelar demasiado, o vilão acaba por ser tão surpreendente como o aliado que ajuda o casal apaixonado. Entretanto, o filme nunca conseguiu voltar a elevar-se ao nível das sequências iniciais e a alegria contagiante destas cenas é repetida com menor frequência, por vezes em frívolas cenas de violência onde Wright, de forma inesperada, empresta o seu estilo a tiroteios insensíveis que vitimam pessoas inocentes. Mesmo os dilemas morais de Baby parecem ficar esquecidos numa reta final que, não só perde a oportunidade de reproduzir a experiência da perseguição automóvel inicial — apesar de uma emocionante perseguição a pé — como trai, em função das necessidades narrativas, a lógica por trás das motivações das personagens desenhadas até então.

Wright não só é aberto em relação às suas influências como oferece cameos a Walter Hill e Jon Spencer. A colorida banda sonora está sempre presente. Numa eclética variedade de estilos e eras musicais, podem-se encontrar, além das referidas, músicas de Beck, The Damned, Barry White, Queen, T.Rex, The Commodores, The Beach Boys, Sky Ferreira ou mesmo Danger Mouse, em colaboração com Run the Jewels e Big Boi, entre muitos outros. Apesar de algumas opções narrativas e do tom desapropriado de certas cenas, é impossível resistir ao charme do cinema de Edgar Wright. Baby Driver – Alta Velocidade não será o seu melhor filme, mas é um projecto pessoal que possivelmente tinha de tirar do sistema. Além disso, já é um sucesso de bilheteira e o seu filme mais rentável de sempre, o que tem uma série de implicações positivas: por um lado, pode dar a conhecer o nome de Edgar Wright, bem como a sua filmografia, a mais pessoas; por outro, pode ser que lhe abra as portas a um futuro projecto que, seja ele qual for, me encontrará ansioso à sua espera.

Resumo da crítica

Summary

Uma fantasia assente no casamento perfeito entre perseguição automóvel, edição e banda sonora, Baby Driver – Alta Velocidade tem um arranque impressionante, mas não aguenta a pedalada até ao final. Ainda assim, recomenda-se pela adrenalina contagiante dos seus melhores momentos e pela banda sonora.

Classificação

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
3.5 10 muito bom

Comentários

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