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Ana, Meu Amor

de Cãlin Peter Netzer

muito bom

Quando consultamos o Priberam, o substantivo feminino “memória” aparece descrito como: faculdade pela qual o espírito conserva ideias ou imagens, ou as readquire sem grande esforço. Não é mentira. Muitas das vezes um simples cheiro, ou peça de roupa, ou local, pode dissipar as brumas que envolvem uma ou mais memórias. Estas contam quase sempre com enormes doses de subjectividade, ou os acontecimentos não surgissem filtrados pelo nosso ponto de vista. Por vezes deixamos o lado positivo de algum episódio sobressair sobre o negativo, ou pura e simplesmente efectuamos o inverso, ou em algumas ocasiões nem recordamos com precisão aquilo que vivenciámos. No entanto, qual a razão para essa memória específica (re)aparecer? “Essa coisa de livre associação parece muito complicada”, diz Toma (Mircea Postelnicu) para o seu psicanalista (Adrian Titieni), enquanto recorda alguns episódios que marcaram a sua relação conturbada com Ana (Diana Cavallioti) e diversos sonhos que podem contar com algum significado especial. Estas recordações pautam a estrutura narrativa de “Ana, mon amour”, com o enredo a deambular entre o presente o passado, seja pelos momentos relevantes de uma codependência quase tóxica do protagonista com a personagem do título ou pelas suas sessões no psicanalista, enquanto ficamos a conhecer os dois membros do casal e as especificidades da sua relação.

O primeiro contacto que temos com Ana e Toma tem lugar quando estes se encontram a dialogar sobre assuntos como a filosofia de Friedrich Nietzsche, as políticas de Adolf Hitler, ou os sonoros barulhos de cariz sexual da vizinha do segundo (oriundos do fora de campo). Ambos são estudantes de literatura, cultos e parecem contar com alguma afinidade. A atmosfera amena do encontro e do diálogo é interrompida por um ataque de pânico da protagonista. Esta padece de depressão e de uma insegurança notória. Mais tarde sabemos que a doença começou a manifestar-se quando a estudante universitária tinha dezassete anos de idade, nomeadamente, após saber que o padrasto não era o seu pai biológico. Também Toma tem uma relação conturbada com o progenitor, embora mantenha alguma proximidade da mãe, com estas dinâmicas a remeterem para situações problemáticas do passado desta família. Diga-se que as dinâmicas familiares, as especificidades da relação de um casal e a depressão surgem como temáticas em foco ao longo do filme, com o argumento a incutir diversas camadas a este constante vaivém de memórias de Toma e a explorar com precisão as mudanças dos dois protagonistas ao longo do tempo.

Alguns episódios são expostos de forma cronológica. Outros aparecem consoante as recordações de Toma, sejam estas completas ou incompletas, ordenadas ou desordenadas. A estrutura narrativa respeita o modo como o protagonista liberta as suas ideias ou sonhos, enquanto transforma o casal numa espécie de puzzle cujas peças despertam a nossa reflexão, seja quando estão juntas ou dispersas. Como lidar com alguém com depressão? Toma procura ajudar a amada e protegê-la, embora não pareça preparado para lhe dar espaço ou deixá-la emancipar-se, mesmo quando esta dá sinais visíveis de melhoras. Mircea Postelnicu espelha a afeição que o seu Toma sente por Ana, as obsessões que este indivíduo cria e o quanto a relação mexe com o seu âmago. O seu físico acompanha o seu desgaste mental, algo notório na sua perda de cabelo e no seu semblante, com o o trabalho de caracterização e o actor a contribuírem para expor o quanto Toma se deixou consumir ao longo do tempo. Será que este ama a personagem do título ou é o seu instinto protector a falar mais alto? Como lidar com alguém que parece em auto-destruição? “Ana, mon amour” envolve-se a fundo pelos meandros de uma depressão e de como esta afecta não só quem padece da doença, mas também aqueles que a rodeiam, uma situação notória quando observamos os dois protagonistas.

Ana pretende vencer a doença, mas o duelo é duro, cruel e desesperantemente difícil de levar de vencida. Existe uma enorme sensibilidade quer na abordagem desta temática, quer no modo como Diana Cavallioti explana a fragilidade emocional desta mulher. A actriz escolhe muitas das vezes o caminho mais sóbrio para expor as dificuldades que a sua personagem sente para controlar a sua faceta destrutiva e os ataques de pânico. Diga-se que também convence em outra fase do enredo, quando o realizador Cãlin Peter Netzer expõe a necessidade que a protagonista tem de se emancipar. Esta busca apoio na religião e na psicanálise, enquanto procura a força interior para vencer uma doença que mexe com a sua mente e o seu corpo. O personagem interpretado por Mircea Postelnicu por vezes parece estar no controlo da relação e ser um apoio importante, mas, aos poucos, percebemos que este nem sempre consegue conviver com a evolução da mulher com quem escolheu viver. O que une Ana e Toma? Até pode existir amor, mas acima de tudo ambos evidenciam a necessidade de estarem um com o outro. Toma sente a necessidade de apoiar Ana. Esta aparenta precisar da ajuda do namorado. A dinâmica parece simples, mas conta com enormes doses de complexidade no seu interior, sobretudo a partir do momento em que algo começa a mudar no seio destes elementos e da sua ligação.

Como é que a relação se poderá manter quando Ana superar alguns dos seus problemas? É uma questão que nos remete para os diálogos de Toma com o psicanalista, com Cãlin Peter Netzer a desnudar os seus personagens principais, seja a nível físico ou emocional. Note-se quando a nudez dos protagonistas é exposta em dois pontos específicos do enredo, com os gestos e os sons a poderem rimar, embora exista toda um contexto distinto a rodear esses trechos. Em um trecho, os receios e o desejo andam lado a lado. No outro, a desilusão, a destruição e a fragilidade assumem o protagonismo. A cinematografia adensa essa proximidade física e emocional que existe entre os protagonistas, bem como entre estes o espectador, com os planos mais fechados ou aproximados a reforçarem essa situação. Por sua vez, a câmara encontra-se muitas das vezes em movimento, pronta a observar e a sublinhar as emoções. Observe-se um encontro de Ana e Toma com um casal amigo, com a argumentação de um elemento a contribuir para o efervescer dos sentimentos, algo adensado pelo trabalho de câmara e de montagem. 

Cãlin Peter Netzer não julga os seus personagens, bem pelo contrário, enquanto nos deixa diante de alguns fragmentos da relação de Ana e Toma e do quanto um influenciou a vida do outro. No poster do filme podemos encontrar o braço de Toma a segurar o braço da companheira. Será que está a querer tirá-la do abismo ou a tentar que ela não lhe fuja? Será um gesto de afecto ou de possessão? Quem é que agarra quem nesta relação? São perguntas que recebem diferentes respostas ao longo de “Ana, mon amour”, com o argumento a envolver-se pelas especificidades da ligação dos protagonistas, uma relação onde os traumas, a dependência e a depressão assumem uma preponderância ao ponto de se imiscuírem no interior daquilo que unia o casal, embora também tenham contribuído precisamente para a formação desse vínculo. Entre traumas do passado que teimam em fazer-se sentir no presente, depressões difíceis de vencer, amores que se confundem pelas areias da dependência e uma relação exposta através de memórias que se soltam das brumas, “Ana, mon amour” deambula pelas recordações e os sonhos de um indivíduo para nos colocar perante diversos episódios que este viveu ao lado da personagem do título desta longa-metragem dotada de enorme sensibilidade.

Review overview

Summary

Entre traumas do passado que teimam em fazer-se sentir no presente, depressões difíceis de vencer, amores que se confundem pelas areias da dependência e uma relação exposta através de memórias que se soltam das brumas, "Ana, mon amour" deambula pelas recordações e os sonhos de um indivíduo para nos colocar perante diversos episódios que este viveu ao lado da personagem do título desta longa-metragem dotada de enorme sensibilidade.

Ratings in depth

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
4 10 muito bom

Comentários

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