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Abominável

de Jill Culton e Todd Wilderman

muito bom

A candura e a leveza surgem como dois traços dominantes de “Abominable” (Abominável). Temas como o luto, as relações familiares, a amizade, a defesa dos animais e da natureza são abordados com um misto de sensibilidade e inocência ao longo desta obra de animação realizada por Jill Culton em colaboração com Todd Wilderman. A dupla não brilha, mas também não compromete. Sabe utilizar os lugares-comuns e abraçar a simplicidade, tal como consegue dominar os ritmos da comédia e atribuir dimensão humana a uma série de figuras que povoam esta fita recheada de elementos de road movie. Não falta um périplo em direcção aos Himalaias, humor, aventura, algum drama e diversos episódios que contribuem para unir alguns dos personagens e fazer com que estes amadureçam. Essa viagem resulta do encontro entre Yi e Everest. A primeira é uma adolescente solitária e independente, que perdeu recentemente o pai e colecciona uma miríade de trabalhos pontuais para reunir dinheiro tendo em vista a realizar um périplo perpectivado pelo progenitor. Yi pouco fala com a mãe e a avó, com quem vive, uma situação que preocupa as duas mulheres, sobretudo esta última, uma senhora com uma enorme predisposição para expor a sua opinião. O segundo é um Yeti, também conhecido como Abominável Homem das Neves, uma criatura que no início do filme consegue fugir do laboratório de Burnish, um milionário cínico e avarento que pretende provar que o personagem do título existe.

O que fazer quando se encontra uma criatura simultaneamente estranha e adorável? Yi forma uma ligação forte com a mesma, enquanto tenta escondê-la dos seus perseguidores. Entre os elementos que procuram capturar o Yeti estão o já mencionado Burnish, bem como uma equipa de resgate pouco perspicaz e a Dr. Zara, uma zoóloga. Esta procura proteger a integridade do Abominável Homem das Neves, embora esconda alguns planos que são facilmente perceptíveis. Diga-se que uma parte considerável das reviravoltas que ocorrem em “Abominable” são mais fáceis de adivinhar do que o vencedor de um possível duelo entre a Juventus e o Cova da Piedade, com o argumento a primar pela previsibilidade e pelo recurso a certos facilitismos que permitem resolver facilmente alguns problemas. Mas, regressemos à protagonista. É fulcral para o filme funcionar, com a sua independência e coragem a serem realçadas em diversos pontos, tal como a dor que ainda perpassa pela sua mente e a dificuldade que tem em comunicar com a família. Esta decide ajudar o “abominável” a regressar para junto dos familiares, no Evereste, tendo a companhia de Peng e Jin. O primeiro é um jovem baixinho, enérgico, anafado e bem-intencionado, que adora jogar basquetebol e aprecia a companhia de Yi, a sua vizinha. O segundo é o primo de Peng, um adolescente vaidoso, que vive para as redes sociais e é puxado para o interior de uma aventura que promete sujar os seus bebés, nomeadamente, os seus ténis novos.

As dinâmicas do quarteto são pontuadas por algum bom humor e uma amizade que se fortalece com o avançar desta viagem marcada por alguns perigos e descobertas. No centro da aventura está a procura de transportar o Abominável Homem das Neves para casa, uma criatura expressiva, dotada de uma ingenuidade desarmante e de uma vulnerabilidade que contrasta com a sua dimensão considerável. É um dos trunfos desta obra, um monstro que não precisa de falar para transmitir sentimento, que facilmente encanta e conta com um lado quase místico que o engrandece. Já a dimensão dos antagonistas pouco ou nada é aprofundada, ainda que Burnish conte com uma camada adicionada à última da hora que praticamente salva a “honra do convento”. Por sua vez, as características do trio que acompanha o Yeti são desenvolvidas com concisão e precisão. Note-se o modo como a protagonista começa a ultrapassar a dor, com o violino que a acompanha a permitir que esta se expresse e exponha os sentimentos, ou a forma eficaz como Jin é utilizado para satirizar a febre das redes sociais e a superficialidade.

Todos protagonizamos uma série de episódios ao longo da vida que mais cedo ou mais tarde acabam por se perder nas brumas da memória. Até podem ter sido agradáveis ou desagradáveis, mas a sua relevância desvanece-se aos poucos no interior da nossa mente. “Abominable” não é daqueles filmes que prometem perdurar na nossa memória ou surgir “na ponta da língua” quando alguém pede uma recomendação de uma obra de animação. No entanto, é capaz de exibir uma série de qualidades aquando da sua duração que fazem com que a sua visualização seja deveras agradável. Tem alguns problemas, é certo. A incapacidade de atribuir alguma variedade ao guarda-roupa dos personagens é um desses tropeços, para além de outros já mencionados. Porém, estes estão longe de superar as suas virtudes. E, entre estas, encontram-se certamente uma assinalável sensibilidade e uma capacidade de fazer com que gostemos de participar nesta aventura ao lado de Everest, Yi, Peng e Jin. Se alguns dos cenários por onde os personagens viajam são marcados pela neve e o frio, já “Abominable” é um filme que aquece o coração e desperta os sentimentos mais ternos.

Review overview

Summary

Ratings in depth

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
3.4 10 muito bom

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