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A Hora da Saída

de Sébastien Marnier

muito bom

Os raios de sol que perpassam pelos cenários e pelos corpos dos personagens de “L’heure de la sortie” (A Hora da Saída) são captados com enorme precisão pela fotografia de Romain Carcanade, bem como a presença das nuvens acinzentadas que cobrem o território e adensam o mistério e a sensação de intranquilidade em relação aos acontecimentos que rodeiam o enredo. Esse nervosismo é colocado em evidência desde os trechos iniciais da fita, em particular, quando observamos um professor de francês a atirar-se da janela de uma sala de aula, tendo em vista a cometer suicídio. O substituto é Pierre (Laurent Lafitte), um docente aparentemente descontraído, que se encontra a terminar uma tese sobre Kafka e se depara com uma turma do nono ano composta por alunos intelectualmente precoces. Destes estudantes destaca-se um sexteto que conta com planos muito particulares e parece carregar na alma o peso dos males do Mundo, com o grupo a captar rapidamente a atenção do protagonista e do espectador.

Existe quase sempre uma certa dose de mistério em redor dos adolescentes que permeiam o enredo de “L’heure de la sortie”, com o realizador Sébastien Marnier a adensar essa incerteza ao criar toda uma atmosfera opressora e de alguma tensão em redor das dinâmicas entre o professor e os alunos. Essa opressão é sublinhada quer pelos acontecimentos, quer pela banda sonora de Zombie Zombie (marcada por sintetizadores e uma enorme disponibilidade para exponenciar o nervosismo) e o aproveitamento dos cenários. Note-se a sala de aula, pontuada por dimensões diminutas que propiciam um sentimento de clausura, uma sensação que é constantemente reforçada através de uma série de planos compostos com aprumo. O grupo que sobressai é liderado por Apolline (Luàna Bajrami) e Dimitri (Victor Bonnel), os delegados de turma, uma dupla de expressões sérias, preocupada com o ambiente, desiludida com os adultos e dotada de um enorme pessimismo em relação ao futuro. Os jovens intérpretes não poderiam estar melhor e a maturidade e o fatalismo que atribuem às suas personagens facilmente provocam impacto e inquietude.

Através deste sexteto e da mescla de obsessão e curiosidade que Pierre desenvolve pelos mesmos, “L’heure de la sortie” aborda algumas das inquietações destes jovens, explora os seus estranhos hábitos, demonstra as dificuldades que têm em lidar com os outros alunos (quer por culpa própria ou alheia) e desperta a nossa atenção no que diz respeito ao plano que estão a desenvolver. Laurent Laffite surge muitas das vezes como o nosso duplo. A sua revolta em relação a casos de bullying é semelhante à nossa, tal como a sua curiosidade em relação aos seis adolescentes. O intérprete convence a transmitir a perplexidade que por vezes contamina a sua personagem, bem como o nervosismo crescente que germina no interior do seu ser. O elenco conta ainda com a presença de nomes como Emmanuelle Bercot, Gringe e Pascal Greggory, um trio capaz de captar a nossa atenção no pouco tempo que tem de cena. A primeira como uma professora de música bastante directa, dotada de um feitio e uma energia muito próprios. O segundo como um indivíduo de personalidade aberta, que desperta a atenção e o interesse de Pierre. Já o terceiro dá vida a um director de temperamento reservado, um elemento que presta mais atenção aos resultados do que aos comportamentos dos alunos e permite a “L’heure de la sortie” esgueirar-se ao de leve por um dos problemas do sistema de ensino.

Mais do que explorar os defeitos e as virtudes do sistema de ensino (ainda que se envolva pelos mesmos), o argumento de Élise Griffon e Sébastien Marnie, inspirado no livro homónimo de Christophe Dufossé, tem como foco central as questões ambientais. É uma chamada de alerta que é inserida na narrativa com um misto de sobriedade e excesso, seja através das atitudes de algumas personagens ou de vídeos amadores que estas criam, com a realidade a entranhar-se pela ficção e a trazer consigo o choque. Diga-se que a central nuclear situada nas imediações do colégio privado onde Pierre lecciona surge como uma presença simultaneamente imponente e assustadora, quase de mau agouro, que teima em dominar a nossa atenção e reforçar as preocupações dos protagonistas. Estes são inteligentes, preocupados, informados, mas contam com um pessimismo e um fatalismo demasiado perigosos, ainda que uma parte considerável daqueles que os rodeiam e a realidade tendam a contribuir para esses sentimentos pouco luzidios.

Se a atmosfera opressora, a eficácia na abordagem dos assuntos relacionados com o ambiente e o elenco merecem alguns dos nossos elogios, o mesmo não se aplica a certas linhas que são escritas com a mesma facilidade com que são ignoradas. Note-se como a janela do antissemitismo é fechada à velocidade com que é aberta, ou a pouca densidade (e personalidade) atribuída a diversos integrantes do sexteto. No entanto, são pequenas derrapagens que pouco ou nada afectam o caminho seguro que Sébastien Marnier efectua pelo interior da sua segunda longa-metragem. O cineasta deixa-nos perante uma fita pontuada por uma atmosfera inquietante, misteriosa e pungente, que sabe aquilo que pretende transmitir, tendo três aliados de peso em Laurent Laffite, Luàna Bajrami e Victor Bonnel.

Review overview

Summary

Uma fita pontuada por uma atmosfera inquietante, misteriosa e pungente, que sabe aquilo que pretende transmitir, tendo três aliados de peso em Laurent Laffite, Luàna Bajrami e Victor Bonnel.

Ratings in depth

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
3.7 10 muito bom

Comentários