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A Aparição

de Xavier Giannoli

muito bom

E sem que ninguém estivesse à espera, surge um filme que lida com as convicções religiosas do mundo moderno com uma abordagem peculiar. A Aparição, o mais recente filme de Xavier Giannoli, é uma história sobre fé, dentro e fora das características de um suposto milagre, com contornos de thriller sem nunca se deixar dominar por esse género, preferindo mais um sentido dramático espiritual que pouco se vê nestes tempos em que falar das crenças na ficção já não é o pão nosso de cada dia.

Jacques é um jornalista com nome que é encarregue de executar uma missão diferente: fazer parte de uma comissão que tem o objectivo de provar a veracidade de uma aparição. É por causa disso que conhecerá Anna, a jovem muito devota que é o alvo desta investigação canónica por ter sido ela a, supostamente, presenciar o milagre. Como todos os casos que se assemelham (e o de Fátima é referido de raspão no filme, quando se fala nos milagres certificados pela igreja como autênticos), milhares de fiéis são atraídos por esta revelação, o que torna Anna numa espécie de novo Cristo. Dentro da comissão há membros do clero que se dividem no tema que investigam a fundo – e Jacques irá perceber, tal como o espetador, que há mais aqui do que uma simples resposta de sim ou não a todo o problema, bem enredado em situações que vão para lá de se encontrar a verdade dos factos.

A Aparição é um filme de uma transcendental ambiguidade, em que o interesse de Giannoli não está tanto no que esconde a empreitada por trás do milagre, mas na crença e nas suas contradições e no que, por mais que acreditemos ou não no Além, essa crença tem de belo e emocionante. O realizador sabe que filma uma história que não poderá agradar a muitos por não dar tantas respostas como “devia”, suscitando antes muitas outras perguntas, e a viagem por este filme depende mesmo do seu espetador e da sua disposição para olhar para o que é a fé em todas as suas dimensões. Tal como em todas as religiões, o que pode ser sagrado para uns pode ser uma anedota para outros – tudo depende da perspectiva e da capacidade de nos colocarmos na visão do Outro. Desse modo, esta aventura pelos meandros dos dogmas e o que faz (e não faz) parte da igreja pode acabar por ser recompensadora, na sua longa duração (pouco mais de duas horas e vinte minutos).

Vincent Lindon, um dos atores mais interessantes do cinema francês das últimas décadas, que entra em filmes em que acha que pode “fazer o bem e fazer política” (palavras da recente entrevista ao Público), é o protagonista deste drama, uma espécie de detetive que, ao mesmo tempo que estranha e tenta compreender todo o mistério que investiga, reflete sobre a sua própria condição, as más memórias, e o significado de tudo isto para a sua existência. O ator, que o é sem querer recorrer a uma grande expressividade, não deixa por isso de nos emocionar quando é preciso, com aqueles olhos tristes de quem se sente perdido no meio de toda a causa das coisas, que nos dizem tudo o que precisamos de saber sobre a sua personagem e sua consequente evolução psicológica.

De qualquer maneira, este pequeno cinéfilo sentiu que se encaixava no rumo que A Aparição nos quer levar, ficando satisfeito por sair da sala e ser uma experiência em que ficou dias e dias a matutar, sem concretizar um texto que lhe fizesse realmente justiça. Porque o cinema também tem esta capacidade de nos “abanar”, caso sintamos o toque para o que nos é mostrado. Daí que não se pode dizer que a narrativa deveria ser isto ou aquilo, com mais uma surpresa aqui ou ali, ou o que seja – a investigação do jornalista não é tanto uma jornada em busca da verdade como uma reflexão poderosíssima sobre o que nós, humanos, somos nestes tempos conturbados e tristemente surpreendentes a cada esquina, em que temas como fé, destruição, alienação, medo e desespero estão na ordem do dia. Como sempre estiveram e estarão. E que melhor rosto do que o de Vincent Lindon para representar tudo o que nos assombra e redime?

Review overview

Summary

A Aparição é um filme sobre a fé e as suas circunstâncias, apostando num rumo verdadeiramente singular.

Ratings in depth

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
4 10 muito bom

Comentários