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9 Dedos

de F.J. Ossang

muito bom

“É preciso uma autoridade! Algo que mande no Tempo, senão o tempo estende-se! Nós é que temos de nos impor a ele!” comenta Ferrante (Pascal Greggory) num estado visivelmente alterado quer pelos revezes de uma viagem que adensa a paranóia, quer pelo álcool que consumiu em excesso. Se este gangster anseia por algo que controle o tempo, já F. J. Ossang demonstra ser exímio nesta tarefa. Hábil a transmitir a rapidez e a intensidade com que os personagens sentem tudo o que ocorre no primeiro acto de “9 Doigts” (9 Dedos), o realizador é igualmente competente a explanar a lentidão com que as figuras que percorrem o enredo vivem os episódios do segundo e terceiro acto. Essa sensação de tempo está indubitavelmente associada ao espaço. Note-se como no segundo e terceiro acto a presença prolongada de uma parte considerável dos personagens no interior de um barco contribui para exponenciar todo um ambiente de imobilidade e incerteza. Fora do veículo marítimo, em particular, no primeiro acto, tudo decorre com mais ritmo, seja pelas perseguições e fugas, ou pelo contacto de Magloire (Paul Hamy), o protagonista, com o gang liderado por Kurtz (Damien Bonnard). Mais do que tomar a iniciativa dos acontecimentos, Magloire depara-se com uma série de eventos que mexem com o seu quotidiano sem rumo, sobretudo a partir do momento em que encontra um indivíduo prestes a falecer.

O moribundo entrega vinte mil dólares ao protagonista e logo o avisa para fugir. Com mais dinheiro no bolso, Magloire começa a correr desenfreadamente, enquanto é perseguido por um grupo de criminosos. São trechos pontuados por alguma tensão e uma utilização sublime do contraste entre luz e sombras ao serviço do enredo, ou não estivéssemos diante de uma obra marcada por uma série de ingredientes associados aos filmes noir. Não faltam as sombras salientes e vincadas, dignas herdeiras do expressionismo e capazes de adensarem a inquietação e a sensação de malaise, os personagens de moral ambígua, a insegurança no espaço citadino, os ângulos de câmara que acentuam a inquietação, o fumo dos cigarros que exacerba a fugacidade e a transitoriedade da vida. Diga-se que a influência dos noir é notória em diversas situações que parecem surgir como referências a outras fitas, sejam estas menções propositadas ou casuais. Observe-se o aquário que cedo traz “The Lady From Shanghai” à memória, ou uma fuga à “The Third Man”, ou uma ameaça atómica que muito tem de “Kiss Me Deadly”. Temos ainda um assalto e um grupo de criminosos que faz recordar ao de leve alguns noir franceses, tais como “Rififi”, ou diversas fitas de Jean-Pierre Melville. No entanto, pese a miríade de referências que já foram inseridas no texto, “9 Doigts” é filme com vida própria. E que vida estranha e inebriante tem esta obra.

Magloire cedo é inserido no interior do gang. Primeiro é feito refém e testemunha. Depois passa a colaborador e a ser presença activa no interior do mesmo ao praticamente substituir o elemento que lhe deu o dinheiro. Entre corpos decepados, assaltos que não correm como o esperado, as especificidades do grupo criminoso, o primeiro acto de “9 Doigts” é dinâmico e marcado por uma série de figuras que nos intrigam. Note-se o caso de Kurtz, um indivíduo implacável para com as traições, ou de Drella (Lisa Hartmann), a irmã de Delgado, o elemento que entregou o dinheiro ao protagonista, uma espécie de femme fatale que cedo inicia uma estranha ligação com este último. O grupo é composto ainda por Warner Oland (Lionel Tua), Springer (Alexis Manenti), Gerda (Elvire) e Ferrante, com o primeiro e o último a terem alguns momentos de relevo no interior do enredo, sobretudo no segundo e terceiro acto. O rumo da narrativa muda a partir da ocasião em que estes elementos entram no interior do Sri Ahmed Volkenson 5, um navio cargueiro que supostamente transporta polónio. Diga-se que o destino destes elementos ou a rota que fazem é o que menos importa. Sabemos que param em Nowhereland, uma ilha misteriosa, mas o interesse de F.J. Ossang é deixar-nos perante a incerteza e a paranóia que começa a percorrer a mente destas figuras, algo expresso a partir dos diálogos muito particulares que os criminosos trocam entre si.

Existe espaço para fatalismo, existencialismo, humor negro, tensão, dúvidas, poesia, referências literárias, planos de pendor terrorista e pessimismo no interior do navio, com “9 Doigts” a colocar-nos diante do modo muito próprio como os personagens lidam com a passagem do tempo. Facilmente sentimo-nos transportados para o interior desta espécie de aventura marítima com um ambiente semelhante a um pesadelo, onde a entrada do grupo liderado por um estranho médico (Gaspard Ulliel) adensa ainda mais a incerteza. Gaspard Ulliel tem uma presença diminuta, mas relevante no interior do filme, com a sua chegada a potenciar a instabilidade e a mexer com as hierarquias previamente estabelecidas. Diga-se que boa parte dos personagens de “9 Doigts” estão longe de contar com uma densidade psicológica assinalável ou de serem desenvolvidos na justa medida, embora quase todos tenham um ou outro momento onde sobressaem. Note-se o diálogo regado a álcool de Warner Oland com o protagonista, ou os efeitos que uma estranha doença provoca em Springer. Outra figura que tem alguns trechos de destaque é o capitão do cargueiro (Diogo Dória), um indivíduo peculiar e enigmático, que partilha o carisma e expressividade do seu intérprete. O elemento que mais sobressai é Magloire, com Paul Hamy a transmitir a capacidade de sobrevivência do seu personagem, bem como a sua personalidade discreta e o quanto começa a ser envolvido pelo meio que o rodeia.

Quem é Magloire? F.J. Ossang nem sempre responde a esta questão. No caso, as dúvidas sobre o personagem e o seu passado acentuam o mistério em volta da sua figura e contribuem para atribuir credibilidade ao modo como este rapidamente se integra no interior da pandilha de criminosos. A certa altura do filme encontramos este indivíduo a escrever, enquanto o tecto do navio parece descer cada vez mais e enclausurá-lo no interior do seu quarto. É um exemplo paradigmático da intensidade com que este foi envolvido para o interior dos acontecimentos e a inquietação e o receio que percorrem a sua mente, bem como uma demonstração do cuidado colocado pelo design de produção e pelo trabalho de Simon Roca na cinematografia. A banda sonora também tem espaço para sobressair, sobretudo no primeiro acto, quando o grupo de gangsters procura capturar o protagonista e a intensidade dos acontecimentos pede música a preceito. Os planos destes elementos são grandiosos e superam as suas capacidades, algo que se acentua com o avançar do enredo. O título do filme remete para o verdadeiro líder do grupo. Quem lidera estes gangsters? Em determinado ponto esta é uma dúvida que se coloca. O que não se coloca em causa é quem lidera “9 Doigts”, com F.J. Ossang a controlar o enredo e os seus ritmos com precisão, enquanto nos deixa diante de uma fita que tanto nos transporta para o interior de um noir inebriante como para um pesadelo fantasmagórico de características muito particulares.

Review overview

Summary

Não se coloca em causa quem lidera “9 Doigts”, com F.J. Ossang a controlar o enredo e os seus ritmos com precisão, enquanto nos deixa diante de uma fita que tanto nos transporta para o interior de um noir inebriante como para um pesadelo fantasmagórico de características muito particulares.

Ratings in depth

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
3.5 10 muito bom

Comentários

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