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[24º Caminhos do Cinema Português] Carga

muito bom

Apontem nas vossas agendas ou cadernos o nome de Bruno Gascon. A sua primeira longa-metragem tem uma força e uma intensidade que afastam a indiferença. Por vezes utiliza uma ou outra coincidência escusada para potenciar a carga dramática de algumas situações ou tentar surpreender, ou descura o desenvolvimento de um ou outro personagem, mas os feitos positivos ultrapassam quase sempre os desacertos. “Carga” é um filme-denúncia duro, onde a felicidade raramente é sentida, a redenção é improvável de ser alcançada e a desesperança percorre os seus poros. Não é motivo para menos. Bruno Gascon envolve-se pelo mundo obscuro do tráfico humano, quase sempre de forma crua, sem ter receio de chocar o espectador ou de expor a violência que percorre este negócio ilegal, imoral e desumano. A espaços parece caminhar para um certo sensacionalismo, mas rapidamente percebemos que a intenção é outra. É explanar a violência que os olhos querem fingir que não observam, é deixar os gritos de desespero ecoarem quando os nossos ouvidos pretendem escapar aos seus sons, ao mesmo tempo em que procura alertar a sociedade e deixar-nos diante de um enredo onde o destino teima em entrelaçar a vida de Viktoriya (Michalina Olszanska) e António (Vítor Norte).

Viktoriya é uma imigrante clandestina que viaja em direcção a Portugal em conjunto com outros elementos oriundos de um país do Leste. Estes procuram melhores condições de vida, embora preparem-se para encontrar um pesadelo. A transportá-los rumo ao tormento encontra-se António, um camionista na casa dos sessenta anos que trabalha a contragosto para Viktor (Dmitry Bogomolov), um traficante do Leste. Se Viktoriya foge do seu país devido a estar desempregada e ter perdido a sua avó, já o camionista aceita este emprego para escapar aos efeitos da crise em Portugal e sustentar a esposa (Rita Blanco) e a neta (Beatriz Pires). Com uma barba saliente e cabelos brancos que teimam em expor os efeitos da passagem do tempo, António exibe no seu rosto e nos seus gestos claros sinais de arrependimento, ressentimento e desprezo pelo seu empregador, algo exposto de forma sublime por Vítor Norte. O carisma e o enorme talento do actor surgem ao de cima em diversos momentos do filme. Note-se quando o transportador confronta Viktor verbalmente, ou expõe as suas tormentas e a repulsa que sente por si próprio num monólogo poderosíssimo. Quando não fala, o seu olhar e o seu rosto tratam de expor aquilo que sente e deixar-nos diante de mais uma demonstração da perícia do intérprete, com Vítor Norte a contribuir e muito para que percebamos as atitudes do seu personagem.

António é alguém que tem a consciência de que está a fazer algo errado, embora continue a transportar imigrantes ilegais para a rede de Viktor. Ainda que não fuja ao arquétipo do mafioso do Leste frio, letal e violento, Dmitry Bogomolov consegue que o personagem não resvale para a caricatura, para além de imprimir um cunho temível ao traficante. A morte e o medo são algumas das principais armas de Viktor, seja junto dos cúmplices ou das vítimas. Uma dessas vítimas é Viktoriya, transportada e presa para o interior de um espaço aparentemente isolado, um cenário que revela todo o cuidado colocado no design de produção. Com um conjunto de divisórias semelhantes a celas, paredes marcadas pela humidade, uma decoração que acentua a frieza, este espaço é palco de uma série de atrocidades. Algumas ocorrem no campo. Outras fora do campo. Quase todas são sentidas. Note-se quando encontramos uma jovem a ser levada para um destino cruel, ou somos colocados diante de uma violação que desperta repulsa e revolta. Bruno Gascon consegue que a cena em questão provoque um enorme mal-estar junto do espectador e realçar a brutalidade que envolve os actos de violência sexual sobre as mulheres. Os gritos de desespero, dor e revolta ecoam na nossa mente, tal como a agressividade dos gestos. Não conseguimos deixar de ficar temporariamente perturbados, seja por aquilo que observamos e ouvimos no campo ou fora dele, com “Carga” a não ter pejo em confrontar-nos com aquilo que não queremos ver ou sentir.

Este é também um filme que sabe deixar algum espaço para os intérpretes comporem figuras dignas de atenção. Vítor Norte e Dmitry Bogomolov já foram mencionados, mas esta é uma película onde as actrizes sobressaem mais alto, sobretudo Michalina Olszanska e Rita Blanco. Comecemos pelo fim. Rita Blanco insere uma personalidade acolhedora, sensível e extremamente humana à sua Luísa, a esposa de António, uma mulher extremamente religiosa que ama o marido e a neta. A actriz tanto consegue partir-nos o coração como enchê-lo de esperança na humanidade, tendo uma participação relativamente curta mas extremamente marcante. Já Michalina Olszanska tem um papel duplo. Inicialmente frágil e temerosa como Viktoriya, a intérprete consegue expressar o quanto a dor que infligem na sua personagem começa a endurecê-la e a deixá-la desesperançada, ainda que nunca largue alguma da sua delicadeza. A actriz dá ainda vida a Alanna, uma figura próxima de Viktor. Aparentemente segura, Alanna mantém uma estranha relação de confiança com o traficante, tendo um papel de relevo no interior da organização e uma capacidade notória de chamar as atenções para a sua pessoa.

Outra mulher que colabora com o criminoso é Sveta (Ana Cristina de Oliveira), uma figura algo trágica, corroída pela maldade com que lida diariamente. Esta tenta preparar as novas recrutas para a prostituição e para aceitarem a realidade cruel que foi imposta pelo destino, embora a própria esteja longe de parecer ter qualquer vontade de estar no interior da organização. Quem também tem algum destaque neste grupo é Mário (Miguel Borges) e Ian (Duarte Grilo), ainda que sejam personagens pouco densos. O primeiro tem de vigiar as mulheres que se encontram presas no interior do lugar onde Viktor encarcera as suas vítimas, com Miguel Borges a conseguir expressar algumas das dúvidas que começam a assolar o seu personagem. Já Duarte Grilo expõe o lado letal do seu personagem. Temos ainda a presença de Sara Sampaio numa participação que tanto tem de breve como de concisa a expor o desespero que rodeia a mente de algumas mulheres que são colocadas diante da obrigação de se verem desprovidas de direitos e de dignidade. No seio do espaço onde estes elementos circulam assistimos à chegada de imigrantes, a mortes violentas, traições, violações e jogos de poder. Se o Inferno existe, certamente não andará muito longe da realidade que estes imigrantes encontram em solo luso.

A cinematografia de Jp Caldeano realça as tonalidades frias deste espaço, bem como a fugaz presença de alguns raios de Sol que iluminam brevemente os quartos mas estão longe de trazerem calor. É certo que trazem algumas réstias de esperança, mas será que é possível esta resistir a tamanhos crimes e actos desumanos? “Carga” responde a esta pergunta com um “nim” ao tentar desafiar tudo e todos a terem uma actividade mais activa contra o tráfico humano. As boas intenções não fazem com que um filme seja automaticamente recomendável. “Carga” junta a isso algumas doses de competência. A cinematografia é eficiente, tal como o argumento. Por sua vez, a banda sonora é extremamente eficaz a reforçar o desespero, a tensão ou a esperança que marcam alguns episódios. As interpretações meritórias de elementos como Vítor Norte, Michalina Olszanska e Rita Blanco já foram mencionadas, um pouco à imagem da capacidade de Bruno Gascon prender a nossa atenção para o interior deste enredo pontuado por alguns momentos intensos. António e Viktoriya estão regularmente em destaque nesses trechos. O destino une-os, separa-os e volta a uni-los. As suas histórias separam-se durante uma parte considerável do filme, ainda que os episódios que protagonizam sejam regularmente ligados e associados graças a um ágil trabalho de montagem. Ou seja, existe aqui muito mais para elogiar do que as boas intenções. Regressemos ao início. Bruno Gascon é um nome para apontar no caderno e não esquecer de revisitar quando lançar o seu próximo trabalho.

Review overview

Summary

Apontem nas vossas agendas ou cadernos o nome de Bruno Gascon. A sua primeira longa-metragem tem uma força e uma intensidade que afastam a indiferença.

Ratings in depth

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
3.5 10 muito bom

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