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[24º Caminhos do Cinema Português] Bostofrio, où le ciel rejoint la terre

de Paulo Carneiro

muito bom

A pequena aldeia de Bostofrio que é apresentada em “Bostofrio, où le ciel rejoint la terre” surge como um espaço onde as dualidades ou as dicotomias se reúnem: o céu e a terra; o passado e o presente; a aspereza e a delicadeza. O território e as suas gentes aparecem em destaque ao longo deste documentário, enquanto acompanhamos Paulo Carneiro em busca de informações sobre o avô. Para efectuar essa tarefa intrincada, o cineasta decidiu entrevistar os locais, aqueles que conviveram com o familiar, ao mesmo tempo em que se torna protagonista da obra. É este quem questiona as gentes da terra, que se embrenha pelo território e as suas particularidades, enquanto nos transporta para um “outro” Portugal, um espaço de ontem e hoje, simultaneamente próximo e isolado de tudo e todos, que mexe com a maneira de ser daqueles que o habitam. Muito é captado através de planos de longa duração, que transmitem as cadências próprias de cada momento e se envolvem pelas singularidades dos espaços onde decorrem as entrevistas. Note-se as especificidades da casa de Maria, uma senhora de idade avançada que expõe alguma informação sobre o avô de Paulo Carneiro, ou a festa popular que o realizador interrompe para perguntar se alguém que está ali conhece o seu familiar.

Essa interrupção do evento tem algo de corajoso e comovente no seu interior, um pouco à imagem desta investigação efectuada pelo cineasta. Domingos Espada não perfilhou o progenitor de Paulo Carneiro. A relação que o primeiro mantinha com o filho e Profetina, a avó do realizador, encontra-se envolta por um nevoeiro de parca informação e imensas dúvidas. Uns dizem que não se falavam. Outros que apenas contactavam em privado. O que é certo é que passavam por dificuldades e que na época a lei não actuava de forma ágil em relação aos pais que não queriam reconhecer os filhos. Ao longo do documentário ficamos a conhecer um pouco de Domingos Espada e de Profetina a partir das recordações difusas de diversas pessoas, com “Bostofrio, où le ciel rejoint la terre” a usar a história oral como um meio de chegar a um passado que não consta nas fontes escritas. No interior desses discursos encontramos também um pouco dos traços da personalidade dos seus entrevistados. Observe-se a facilidade de Casemira em praguejar, ou a crença de Albertina, Ana e Domingos em algo sobrenatural, ou a afabilidade de Maria, com todos a contribuírem um pouco para que Paulo Carneiro obtenha mais peças para completar este “puzzle”.

 Em determinado ponto somos colocados diante de um plano em que o céu aparece dotado de tonalidades que variam entre o cor-de-rosa, o roxo, o branco e o azulado. Uma mistura improvável, de enorme beleza, quase como se tivesse sido efectuada para o momento. E este é um dos méritos do filme, nomeadamente, a capacidade de descobrir algo de especial no interior da aparente simplicidade, seja esta singeleza inerente às rotinas dos habitantes de Bostofrio ou às características desta aldeia. Outra das qualidades desta obra são as entrevistas conduzidas pelo cineasta, muitas das vezes marcadas por alguma intimidade e proximidade entre o entrevistador e os entrevistados, com o documentarista a conseguir que estes se soltem em diversos momentos e falem com enorme à vontade, algo que enriquece a fita. É certo que em algumas ocasiões o documentário envolve-se por terrenos um tanto ou quanto redundantes, mas nem por isso deixa de contar com uma genuína capacidade de nos transportar para o interior desta jornada muito particular. Dividido em doze partes, “Bostofrio, où le ciel rejoint la terre” aparece como um pedaço cinematográfico que tem na história oral uma das suas principais ferramentas e na franqueza um dos seus grandes atributos, enquanto permite a Paulo Carneiro, um colaborador habitual de João Viana, exibir que é um realizador a ter em atenção.

Review overview

Summary

Dividido em doze partes, "Bostofrio, où le ciel rejoint la terre" aparece como um pedaço cinematográfico que tem na história oral uma das suas principais ferramentas e na franqueza um dos seus grandes atributos, enquanto permite a Paulo Carneiro, um colaborador habitual de João Viana, exibir que é um realizador a ter em atenção.

Ratings in depth

  • Argumento
  • Produção
  • Realização
3.5 10 muito bom

Comentários

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