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[17ª Festa do Cinema Francês] Les Ogres

de Léa Fehner

muito bom

De atmosfera circense, ritmo intenso, e realização imaginativa, Les Ogres (2015), a segunda longa-metragem de Léa Fehner, usa uma exuberante encenação de O Urso e de O Casamento , de Tchekhov, como metáfora para dissecar amores, ódios e contradições humanas.

 

Vem sendo comum que o mundo dos saltimbancos seja terreno fértil para as metáforas usadas por alguns realizadores de cinema. Vemo-lo desde Ingmar Bergman com Noite dos Saltimbancos (1953) ao mais recente Béla Tarr com Werckmeister harmóniák (2000), para não falar da atmosfera circense que comanda parte da obra de autores como Federico Fellini e Emir Kusturica. Foi, em parte, com essas influências que Léa Fehner compôs Les Ogres (2015), a sua segunda longa-metragem.

A partir de um argumento escrito por si, em colaboração com Catherine Paillé e Brigitte Sy, Fehner mergulha de corpo inteiro nessa atmosfera onde sonho e fantasia se misturam com realidade, e onde não há distinções entre o belo e o grotesco. O pretexto são as peças de Tchekhov O Urso e O Casamento, que a companhia itinerante de François (François Fehner) vai levando a várias cidades, num circo de tenda à maneira antiga. A queda acidental de uma trapezista leva François a chamar Lola (Lola Dueñas), sua antiga amante, para desgosto da esposa Marion (Marion Bouvarel), que vai procurar amor noutro lado. A partir daí as dissenções começam a ampliar-se, com Inès (Inès Fehner), filha de François e Marion, a abandonar a troupe por não se sentir valorizada, e M. Déloyal (Marc Barbé) a mostrar não ter a cabeça no lugar, devido ao iminente nascimento do seu filho com Mona (Adèle Haenel).

Mas mais que os eventos factuais, numa narrativa complexamente angular, interessa, em Les Ogres, a dinâmica. E esta é sempre viva, por entre diálogos fulminantes, apresentações da peça (que vamos vendo em excertos) por entre o dia-a-dia, muita música (de Philippe Cataix, que também participa como actor), e um modo de representar que lembra, por exemplo, La Fura dels Baus, tanto nas encenações de Tchekhov, como alastrando a todas as situações do filme.

Dessa forma viva, intensa e peculiar, Léa Fehner mostra-nos um mundo de sonhos, medos, confrontos e buscas, que retirados da metáfora em que parecem enclausurados, e abstraídos das idiossincrasias dos personagens, são uma lição transversal da condição humana, mas também algo de autobiográfico, com os pais da realizadora nos papéis do casal François e Marion, e a sua irmã Inès como filha deles. Alegoria de vida, estes ogres são, mais que grotesco, os egos da história que M. Déloyal explica a dada altura às crianças, e que, como nela guiavam o rei malvado, comandam as nossas vontades e atitudes, quer o compreendamos quer não.

Resumo da crítica

Summary

Com um ritmo intenso, diálogos cortantes, e um misto e alegoria e realismo numa atmosfera circense do mundo dos saltimbancos, Les Ogres é uma imaginativa viagem pelos sonhos, medos, motivações e fraquezas humanas.

Classificação

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
4 10 muito bom

Comentários

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