Share, , Google Plus, Pinterest,

Print

Posted in:

Um Reino Unido

de Amma Asante

mau

Num momento em que os contos de fada popularizados nas animações da Disney vão ganhando cada vez mais versões em filmes de carne e osso, Um Reino Unido (2016) parece usar essa inspiração para nos dar a conhecer um conto de reis e princesas pós-moderno.

 

Pode-se argumentar que era inevitável. Um Reino Unido, terceira longa-metragem de Amma Asante, é inspirado numa história verídica (a partir do livro Colour Bar, de Susan Williams), ligada ao início da independência do Botswana, quando, em 1947, o então protectorado inglês de Bechuanalândia viu o seu rei casar com uma mulher branca, enfrentado os poderes internacionais, e procurando seguir o caminho da democracia. Mas com uma autora provinda da onda mais telenovelesca da televisão, não é de estranhar que o resultado seja uma obra virada para o dramatismo estéril de situações de cartilhas já muito conhecidas.

Se a história tem mérito para ser contada, a forma com é feito deixa muito a desejar. Não se encontra qualquer espessura nos personagens nem conflitos interiores de aprendizagem ou crescimento. Todos sabem o que querem do princípio ao fim, e perseguem-no sem hesitações. Por outras palavras, a crer no filme, o abnegado idealista negro, que é o rei Seretse Khama (David Oyelowo), é sempre a mesma pessoa terna, apaixonada, calma e incorruptível, uma espécie de humanista universal, sem qualquer defeito, e a sua esposa, a corajosa branca Ruth Williams (Rosamund Pike), é igualmente uma pessoa perfeita, sem outra vontade que não seja estar com o marido, e numa interpretação que tem apenas dois registos, a sorrir, ou boquiaberta. De resto, todos os outros personagens são caricaturais, só faltando ver os malvados ingleses as esfregar as mãos à maneira de Mr. Burns da série Os Simpsons, tal o maquiavelismo primário que exala de cada um, como são exemplo os personagens de Jack Davenport, Tom Feldon e James Northcote, perdidos em trejeitos do livro da malvadez.

Com a tal narrativa que cheira a Disney, isto é, com um par romântico de classes sociais (e raças) diferentes, que tem de se impor contra tudo e todos, onde um deles até tem sangue real, e os encontros se fazem em bailes, quase esperamos que os objectos inanimados também cantem e dancem. Até o mau da fita é o tio! Mas o pior são mesmo as situações dramáticas, forçadas, e irreais. É de crer que uma assembleia popular decorresse com tal decoro e ordem? Que todos os africanos falassem inglês educadamente? Que uma mulher caia desmaiada na rua, e seja abandonada por toda a gente que se avista em quilómetros, para surgir de perfeita saúde no hospital? Os exemplos são demais para serem enumerados, mas todos eles gritam «previsível».

Restam, pela positiva, alguns (pouquíssimos) apontamentos da fotografia, como o contraluz no nevoeiro londrino ou a sépia da paisagem africana. Muito pouco para uma história que devia ser uma inspiração, mas se perde por recursos que nos fazem crer estarmos a ver apenas mais um episódio de uma qualquer telenovela. E sim, no final todos vivem felizes para sempre.

Resumo da crítica

Summary

Seguindo a receita dos contos de fadas da Disney, Um Reino Unido é a história verídica do início da independência do Botswana, quando o seu rei, negro, desafiou as convenções ao casar com uma inglesa branca. Apesar de uma história que podia ser inspiradora, o caminho seguido foi o dos estéreis episódios telenovelescos.

Classificação

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
2 10 mau

Comentários

Share, , Google Plus, Pinterest,

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *