Share, , Google Plus, Pinterest,

Print

Posted in:

[Retrospectiva IndieLisboa 2016] The Witch

de Robert Eggers

muito bom

IndieLisboa 2016 – 22 Abril e 23 Abril, Filme de Destaque – Maratona Boca do Inferno

Depois de assombrar os Estados Unidos da América e mais recentemente as Terras da Rainha, o conto folclórico de terror de Robert Eggers, que iniciou a sua caminhada na edição do Festival de Sundance em 2015 (onde venceu o prémio de Melhor Realizador), revela-se como a metamorfose kafkaesque deste ano no cinema independente americano. Agora em Portugal pela primeira vez, e apresentado no seio da Maratona Boca do Inferno na edição do IndieLisboa 2016, The Witch confirma os sintomas que a sua presença tem vindo a clamar por espectadores e críticos de igual forma, e por aqueles que após a projecção seguravam nervosamente os seus cigarros enquanto os olhavam imóveis só ali auto-conscientes da experiência à qual tinham sido submetidos.

Um pouco como uma viagem a um país da Europa de Leste, The Witch magnifica-se num género só seu e leva-nos, inconscientemente, ao seu destino pretendido desde o seu primeiro momento sonoro. É implementado com variados subgéneros que se derretem uns nos outros e concedem à sua potência sobrenatural (e suas nuances), aquela que reside bem no seu núcleo, – e deriva do seu fanatismo religioso, repressão puritana e medo incutido no poder da sombra feminina, todos remontados aos meados do séc. XVII – a capacidade de ser removida se assim o espectador o desejar fazer, sem nunca deixar objectar ou reduzir a temperatura do desenvolvimento da sua tese capital. Denominado por muitos como um dos filmes mais assustadores da última década, não demorou tempo a estabelecer um lugar quente ao sol – um pouco como o fenómeno It Follows em 2015 – e a distinguir-se pelas suas qualidades extraterrestres num mundo de clichés e filmes série B de terror que deveriam ter estreado nos meses altos de Verão mas infelizmente ainda cá andam. E colocar o filme no mesmo patamar de todos estes que, à primeira vista, caminham a seu lado, é mais do que uma subestimação, é um desserviço. The Witch é especial. Se eu remontar ao frame inicial de Thomasin e à áspera voz que o acompanha, é claro quão o filme permite que nos moldemos a ele, sem ter de clarificar se estamos a entrar, de facto, em território familiar sob formas desconhecidas ou não. Vejo a sua manipulação agora como uma espécie de possessão, cujo exorcismo só ocorre dias após a sua primeira visualização.

Gradualmente e sub-repticiamente, afirma-se meticuloso e cuidado na sua transcendência do horror da imagem, na inquietação que o seu silêncio procura incitar, fazendo uso do gore apenas para nos falar da escuridão que está bem estabelecida no ser humano, sempre a borbulhar e a remoer o seu compasso moral. Mas não revela a sua cara. Nunca chega a questionar o verdadeiro desejo de Thomasin, por mais que se mostre interessado em interiorizar o sentimento que a acompanha durante e até, a determinada altura, a funcionar como um ubíquo conto cautelar feminista. No final, a opção de Thomasin parece óbvia – quem não quer viver deliciosamente para a eternidade? –, mas inevitavelmente apenas uma reflecção do crescimento de uma rapariga numa mulher que aceita as suas insuficiências e as abraça com orgulho. E talvez seja devido a esta verossimilidade, ou se calhar à forma como não chega a fornecer todos os elementos do seu feminismo, ou do inferno disfarçado que a jovem negoceia, que The Witch consegue reproduzir nas suas transições aquilo que a personificação de uma bruxa de Salém originaria no caso da corroboração da sua existência, medo em prol do medo.

1630. Um agricultor, William (Ralph Ineson), é expulso de uma plantação onde vivia com a mulher Katherine (Katie Dickie) e os seus cinco filhos e prepara-se para criar uma nova vida num terreno isolado mergulhado por escuridão e bosque. Mas quando o membro mais novo da família, o recém-nascido Samuel, desaparece sem deixar rasto a meros centímetros de distância da sua irmã mais velha, Thomasin (interpretada pela promissora Anya Taylor-Joy), o que poderia ser um filme sobre a redenção de uma família puritana que lutou pelas suas crenças e triunfou, transforma-se num The Shining do séc. XVII intemporal que coze um frame e uma sequência de diálogo de cada vez, enquanto espera para atacar por cima dos seus intervalos de mudez. Tendo em conta que a dimensão horrífica de um filme só catapulta verdadeiramente nos seus pormenores humanísticos, no conhecimento gradual da esmagadora incapacidade de sobrevivência de um grupo de pessoas, o filme de estreia de Robert Eggers, um designer-transformado-realizador com sede em Brooklyn e nascido na tradição da caça às bruxas da Nova Inglaterra, não move emoções baratas ou gritos histéricos. No seu lugar, a histeria existente é puramente conceptual e inigualável e o recheio desta sobrevoa o departamento da psicanálise humana da qual o próprio Segmund Freud teria, suspeito eu, fugido.

Por entre o amarelo vermelhado da noite que as velas confirmam e o cinzento-azul quebradiço do dia, Robert Eggers transpira magnitude e obriga—nos a falar dela. Ele tem uma voz, uma especificidade que o permite distinguir-se no mundo instável do horror, num “era uma vez” antecedente ao episódio das Bruxas de Salém. Eggers quer que falemos do seu filme e nós falamos. Será este pró-feitiçaria? Ou apenas consequência da sua natureza opressiva complacente? Será o símbolo de uma mulher que define a vida e a pode carregar no seu ventre forte o suficiente para definir a morte daqueles que a rodeiam? Será ela o Satanás proclamado no momento em que reclama os seus desejos? Acontece que é verdade que um conto de fadas é sempre um conto de fadas quando dentro de si há uma procura moral, uma magia que extrapola o conhecido. Mesmo que essa procura se iguale ao encontro macabro do Grande Bode com as bruxas anciãs que o alimentam com crianças, no “El Aquelarre” (1798) de Francisco Goya. E ainda que nela haja tudo menos liberdade, é por esta disparidade que o filme sorri, resignando-se pois a existir e a permitir à sua atenta audiência de ver nela aquilo que deseja ver.

Resumo da crítica

Summary

O nome de Robert Eggers não parará de correr tinta pelo mundo. O estreante realizador consegue dar ao seu espectador tudo aquilo que nós não sabíamos querer, mas estávamos ao mesmo tempo à espera. Através dos olhos nem sempre presentes da jovem Thomasin, este dá-nos entrada num mundo que não parece nosso, mas rapidamente se revela mais e mais em sintonia com os signos do séc. XXI.

Classificação

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
4 10 muito bom

Comentários

Share, , Google Plus, Pinterest,

2 Comments

Leave a Reply
  1. Excelente análise para um excelente filme. É interessante a reacção de alguNs espectadores para quem o filme funcionou a um nível de ambiguidade que, pessoalmente, não encontrei. ROBERT Eggers não esconde a mão nem faz nenhum truque da magia. Se o filme resulta a esse nível em certos casos, isso deve-se à qualidade da escrita, assinada pelo próprio, que explora a dinâmica familiar de forma totalmente verosímil para depois a abanar do interior, apesar das influências externas. O DESEQUILÍBRIO da estrutura como resultado de um evento dramático que, ao perturbar a harmonia familiar, permite que os defeitos de cada um venham ao de cima e suprimam tudo o resto. Junte-se a esta circunstância o facto de que William e Katherine, os pais da família, serem cristãos devotos, e a mão do Diabo ou o castigo de Deus são imediatamente considerados como potenciais causas da situação em que se encontram. MEDO DO DESCONHECIDO OU Do POTENCIAL DA EMANCIPAÇÃO FEMININA E DO ABALAR DA ORDEM INSTITUÍDA? UM FILME INSIDIOSO E INTELIGENTE E CUJA INFLUÊNCIA TRANSBORDA LARGAMENTE A SUA DURAÇÃO.

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *