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Starman ou quando o mestre do terror descobriu o amor

Starman - O Homem das Estrelas

Há uns quantos filmes que, desde o início de 2016, me têm deixado agarrado à página do IMDB na ânsia de ver uma data de estreia em Portugal. Continuam a ser um mistério os critérios que decidem os filmes a estrear à margem da lógica dos grandes blockbusters.

 
Um mercado saudável é um mercado heterogéneo que sabe cuidar da procura dos seus diversos públicos. Públicos, e não público. Com diferentes gostos e interesses. Há quem goste de cinema mas não esteja ansioso por ver mais um filme de super-heróis. Porque não uma contra-programação estreando filmes que nem sempre têm oportunidade de aparecer nas nossas salas? Filmes como Green Room, com o qual Jeremy Saulnier segue o aclamado filme de micro-orçamento Ruína Azul, e que não tive oportunidade de ver em Setembro passado quando passou pelo MOTELx; High-Rise, adaptação do romance de J.G. Ballard pelo provocador realizador britânico Ben Wheatley; ou Midnight Special, o drama de ficção-científica de um dos mais interessantes actuais realizadores independentes americanos, Jeff Nichols, e que invoca a memória de Encontros Imediatos de Terceiro Grau, de Steven Spielberg, bem como de Starman – O Homem das Estrelas, um clássico algo esquecido da filmografia de John Carpenter.
 
No caso de Midnight Special as referências invocadas não são casuais: o próprio Nichols admitiu as inspirações. Tendo nascido em 1978 é um produto da minha geração. Não admira, então, que tais obras o tenham influenciado. Se Encontros Imediatos é uma referência canónica, não só do cinema de Spielberg, mas de todo o género de ficção-científica, já Starman é um filme menos óbvio. Carpenter está longe de ter o reconhecimento generalizado que merece, especialmente no seu país de origem. Nas palavras do próprio “Em França sou um autor; na Alemanha, um cineasta; no Reino-Unido um realizador de filmes de género; e nos EUA um vadio”. Além disso quando Starman estreou apareceu como um ovni na sua filmografia, solidamente firmada naquela altura no género de terror. Entre 1976 e 1983 assinou seis referências do género: Assalto à 13ª Esquadra, Halloween – O Regresso do Mal, O Nevoeiro, Nova Iorque 1997, The Thing – Veio de Outro Mundo e Christine: O Carro Assassino, não só cimentando a sua reputação neste nicho, mas ajudando a lançar as carreiras de Jamie Lee Curtis e Kurt Russell. O terror foi circunstancial na sua carreira. Sendo um fã incondicional de westerns, e de Howard Hawks em particular, acabou a trabalhar onde lhe arranjavam trabalho: neste caso realizando filmes de terror de baixo orçamento. Assalto à 13ª Esquadra, o seu primeiro filme depois do filme de estudante Estrela Negra, é um remake “disfarçado” de Rio Bravo de Hawks. Muitos dos seus filmes posteriores são variantes deste, tanto na sua premissa, como na caracterização das personagens e Carpenter terá assumido que ao longo da sua filmografia reciclou, na essência, todos os filmes de Howard Hawks.
 
Starman - O Homem das Estrelas
 
Starman – O Homem das Estrelas estreou em Dezembro de 1984, chegando a Portugal em Junho do ano seguinte, e contrariou as expectativas que envolviam um novo filme de John Carpenter. Com Jeff Bridges e Karen Allen nos principais papéis, é um filme de ficção-científica mas também um road-movie com elementos dramáticos e de romance. Vi-o no desaparecido cinema Miramar, em Cascais, na sua exibição original, alheio a qualquer tipo de expectativa, dados os meus tenros 8 anos na altura, mas por certo foi uma das experiências decisivas para a minha descoberta do nome do seu realizador. Talvez porque os seus filmes traziam a sua “assinatura” no título, revelando o conceito de marca autoral. Definitivamente pelo impacto que me causavam, fosse a empatia pelo personagem titular de Starman, o absoluto horror de The Thing – Veio de Outro Mundo, ou a transgressão da distopia de Eles Vivem, filme seminal na minha cinefilia, anos mais tarde, quando entrei pela primeira vez numa sala de cinema sozinho para ver um filme escolhido por mim.
 
Na sequência do convite para uma visita à Terra enviado nas sondas Voyager um ser extra-terrestre tem uma recepção pouco amistosa que o faz despenhar no estado norte-americano do Wisconsin. Ao tomar a forma do marido falecido de Jenny, obriga-a a levá-lo ao Arizona em três dias, para ser salvo. Assustada e confusa Jenny embarca relutantemente nesta viagem com um ser alienígena que lhe desperta emoções fortes provocadas pela aparência que tomou. Entretanto o exército persegue-os para capturar o homem que veio das estrelas. Esta premissa fantástica é elevada por duas interpretações de excepção. Karen Allen, excelente actriz com carreira inexplicavelmente discreta, é convincente em todos os momentos exprimindo subtilmente uma mistura de vulnerabilidade, coragem, inteligência e paixão. Jeff Bridges, no papel de Homem das Estrelas, tem neste filme um dos momentos definidores da sua carreira. Esta é uma interpretação que justifica o facto de Jeff Bridges ser um dos grandes actores da sua geração, tendo sido inclusivamente nomeada para o Oscar. Sem nunca cair no ridículo Bridges tem de interpretar um ser que, apesar da sua aparência humana e adulta, está apenas agora a aprender o que é ser humano, ou mesmo a andar, falar e socializar. Conseguir isto projectando ao mesmo tempo sabedoria,  compreensão, empatia e compaixão é uma tarefa só ao alcance dos maiores.
 
No excelente comentário de Carpenter e Bridges na edição em DVD, estes brincam que o filme é uma comédia e um filme de “rapariga”, dado os elementos de romance. É com afecto que brincam pois ambos revelam o seu orgulho pelo filme. Na verdade há elementos bem dispostos nalgumas interacções de Bridges com os costumes do nosso planeta, sendo célebre a cena do semáforo amarelo, mas o que faz Starman brilhar é a sua viagem emocional, e a sua capacidade para também nos envolver nela. Carpenter, auto proclamado pessimista, revela aqui um lado optimista e positivo. Um dos vários momentos mágicos do filme vê o Homem das Estrelas ressuscitar um veado, naquele que é o ponto de viragem para Jenny, em tentativa de fuga até então. A disponibilidade e a abertura emocional que revelam daqui para a frente tornam o romance entre os dois verosímil e adulto, nunca resvalando para o sentimentalismo fácil ou gratuito. A possibilidade de Jenny vir a dar à luz o fruto de quem, não só encarnou alguém que amava e que tinha perdido, mas também transporta o conhecimento e sabedoria que poderá fazer deste um mundo melhor, é um conceito com forte carga emocional que, ajudado pela tocante música de Jack Nietzsche, substituindo Carpenter que habitualmente compõe a música dos seus filmes, torna difícil superar a última cena sem uma reedição do festival carpideiro da despedida final entre Elliot e o pequeno alienígena castanho em E.T. – O Extra-Terrestre.
 
Apesar do relativo sucesso de Starman e do reconhecimento da qualidade da interpretação de Jeff Bridges, Carpenter foi acusado de se ter vendido ao fazer uma obra romântica. O seu filme seguinte, o injusto flop As Aventuras de Jack Burton Nas Garras do Mandarim, empurraram-no novamente para o nicho do filme de terror de baixo orçamento. Sendo um fã do género não me estou a queixar, mas fico sempre com pena de não termos tido a oportunidade de ver o génio de John Carpenter lidando com outros géneros. Quem sabe que obras-primas ficaram por ver a luz do dia?

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2 Comments

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  1. GOSTO MUITO DO JACK BURTON NAS GARRAS DO MANDARIN, E’ DOS MEUS FAVORITOS DO CARPENTER E TENHO PENA DE NÃO TERem sido feitas SEQUELAS

    • Roberto, então já somos dois. Também vi em miúdo e adorei. Só mais tarde apanhei o humor, a sátira e o facto de Jack Burton ser incompetente e uma piada no seu próprio filme!

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