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Silêncio (2016)

de Martin Scorsese

muito bom

Após 25 anos, Martin Scorsese finalizou o seu amado projecto Silêncio (2016), uma espécie de «última tentação de um padre jesuíta» português do século XVII no Japão, onde fé, orgulho e sacrifício são questionados.

 

Sempre que Martin Scorsese estreia um novo filme o mundo cinéfilo pára. Seja para dizer que não é um novo Taxi Driver, que Scorsese se imita, ou que o novo caminho procurado não resultou, o mundo cinéfilo pára. Há como que uma consciência que Martin Scorsese, no panorama do actual cinema de Hollywood, não é apenas mais um, é aquele de quem se espera que carregue aos ombros o destino do cinema, com a mesma dedicação com que ele nos conta o seu passado.

E Martin Scorsese sabe disto. Mais ainda, diverte-se com isto, assumindo a herança, e transportando-a de filme em filme. Tal é a primeira evidência de Silêncio, o projecto que o realizador há tantos anos acalentava, e que, com um fôlego raras vezes visto, levou agora a bom porto, para mostrar ao mundo que continua a ser um mestre em contar histórias através de imagens de grande beleza.

Silêncio, baseado no livro homónimo do conhecido autor japonês Shūsaku Endō (já adaptado ao cinema, em 1971, por Masahiro Shinoda), é a história dos padres jesuítas portugueses do século XVII, Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Francisco Garupe (Adam Driver), que vão para o Japão para descobrir se é verdade que seu antigo mestre Cristóvão Ferreira (Liam Neeson) renunciou à sua fé. O que encontram é um Japão hostil ao Cristianismo, onde este é vivido em segredo, e a tortura e execução são meios usados para dissuadir e punir a prática da religião, num país outrora receptivo, mas onde agora a fé cristã parece perdida e a sua necessidade quase uma fantasia.

Conhecendo-se a relação de Scorsese com a fé, nomeadamente com a iconografia cristã, presente em tantos dos seus filmes (veja-se a culpa em Who’s That Knocking at My Door, de 1967, a crucificação em Uma Mulher da Rua/Boxcar Berta, de 1972, a redenção em Taxi Driver, de 1976, a ressurreição em Por Um Fio/Bringing Out the Dead, de 1999), o tema de Silêncio, não espanta, sobretudo depois de filmes dedicados à religião como A Última Tentação de Cristo (1988), e Kundun (1997), e de sabermos como o realizador gosta de alternar os frenéticos e violentos retratos do mundo onde cresceu, com filmes de época, onde exercita estilos, homenageia influências e testa ideias estéticas (A Idade da Inocência, Gangs de Nova Iorque, A Invenção de Hugo, por exemplo).

É um pouco da história de Scorsese, impregnada da história do cinema, que se vê em Silêncio. Se o tema é uma referência quase directa a Ingmar Bergman (que nos deu vários exemplos de ensaios sobre o que chamou «o silêncio de Deus»), esteticamente, há muito de Andrei Tarkovsky (é impossível ver o nevoeiro das longas panorâmicas e travellings sobre um mundo entre o desespero e a iconografia religiosa, sem pensar em Andrei Rublev, de 1966) e de Carl Theodor Dreyer (é difícil ver o sofrimento espelhado nos rostos, sem pensar em A Paixão de Joana d’Arc, de 1928) num filme onde a composição cénica, a força das expressões faciais e o olhar contemplativo da câmara de Rodrigo Prieto são proeminentes.

Em Silêncio, quase que reforçando o título, Scorsese mostra-nos que o mais importante é o olhar, tanto na composição de enquadramentos (no recorrente uso do Cristo de El Greco, nos planos que parecem estações da Paixão de Cristo, ou na caracterização de uma época para qual usou, por exemplo, inspiração das pinturas jesuítas do nosso Museu de São Roque*), como no expressar dos diálogos surdos que os personagens de Garfield e Neesom travam consigo próprios, na tal afirmação ou negação da fé que nos irá ou não guiar na linha ténue entre sacrifício e soberba. É que, mais que um filme afirmativo, Silêncio, por entre sofrimento e descoberta pessoal, é um filme de questões, de dúvidas e de buscas, não só as factuais, mas principalmente interiores, de alguém que continua a acreditar no poder de perguntar através da força das imagens que tenta manter frescas e originais.

Silêncio não é um filme fácil, como a contemplação nunca o é, quase exigindo múltiplas visualizações. Muitos o condenarão pelo excesso de grandiosidade e duração (que os tem), mas Scorsese parece lembrar-nos que não tem interesse em filmar do modo espartano de Robert Bresson, aproximando-se mais da impetuosidade de Kurosawa, do fôlego quase místico de Mizoguchi e Tarkovsky, da austeridade de Dreyer e da tortura interna de Bergman. Sejam mais ou menos conseguidas essas homenagens, o resultado é uma obra tocante, que desafia, com enorme arrojo, e que confirma que Scorsese continua a ser um caso à parte no cinema de Hollywood, e em cada filme um paladino da história do cinema.

* Obrigado à Sofia Santos por esta informação.

Resumo da crítica

Summary

Exercício de questionamento de fé, sacrifício e orgulho, Silêncio é um monumento onde Scorsese coloca tanto de si próprio como da história do cinema, resultando num filme grandioso, contemplativo, e algo difícil.

Classificação

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
4 10 muito bom

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