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[Segunda dose] Hannibal (2001)

de Ridley Scott

E se certos filmes nunca tivessem continuação? Algumas sequelas enriquecem o original e transformam um filme isolado no primeiro capítulo de uma saga popular. Outros, não só matam qualquer hipótese de uma franchise de sucesso como, inclusivamente, diminuem os originais. Mas será que merecem a fama que ganham? Proponho a análise a alguns destes casos, desde A Mosca II, passando por O Exorcista II: O Herege, até Speed 2: Perigo a Bordo. Neste artigo revisitamos Hannibal, a sequela do megassucesso O Silêncio dos Inocentes, realizada por Ridley Scott.

 

O original: O Silêncio dos Inocentes, realizado por Jonathan Demme. O thriller psicológico que venceu inesperadamente cinco óscares nas principais categorias (filme, realização, argumento, actor e actriz) e que fez de Hannibal Lecter um ícone popular, graças à interpretação de Anthony Hopkins.

Quem voltou: Precisamente Anthony Hopkins, como Hannibal Lecter.

O veredictoTecnicamente, Hannibal não é uma segunda dose, mas sim uma terceira. Em 1986, Michael Mann adaptou em Caçada ao Amanhecer o livro de Thomas Harris, Dragão Vermelho, onde aparece pela primeira vez a personagem de Hannibal Lecter. Apesar da interpretação viscosa de Brian Cox no breve papel secundário do psiquiatra canibal, o produtor Dino De Laurentiis não gostou do resultado final, incluindo uma pobre performance do filme nas bilheteiras. Por isso, em 1991, cedeu os direitos da personagem à Orion Pictures para produzir a adaptação do segundo romance de Harris que contava com a presença de Lecter. Realizado por Jonathan Demme, O Silêncio dos Inocentes fez história e foi um estrondoso sucesso de público e crítica.

De Laurentiis percebeu que tinha uma galinha dos ovos-de-ouro na mão e esperou pelo novo romance do autor. Em 1999 é lançado finalmente o livro que se focou em Hannibal Lecter, agora um fenómeno de popularidade, referenciado e parodiado ad infinitum. No entanto, a equipa técnica do filme anterior, que sempre demonstrou interesse em regressar para uma continuação, hesitou perante o tom violento e sangrento do novo romance. Algumas opções narrativas de Harris foram bastante questionadas, incluindo um final controverso que esticava a verosimilhança e a credulidade. Assim, recusaram-se a voltar ao universo o argumentista Ted Tally, o realizador Jonathan Demme e a actriz Jodie Foster. De Laurentiis moveu-se depressa e convenceu Ridley Scott, em rodagem de Gladiador na altura, a aceitar o desafio. Substituiu Foster com Julianne Moore e assegurou o maior trunfo de todos, convencendo Anthony Hopkins a voltar a usar a máscara que o celebrizou.

A tarefa de adaptar Hannibal nunca seria fácil. Thomas Harris construiu uma narrativa ambiciosa (talvez demais), negra, violenta e com um desfecho interior e hipnótico, desafiando todas as expectativas do que deve ser a recta final de um thriller, já para não falar do enlace amoroso forçado com que deixou os leitores de boca à banda. David Mamet produziu uma primeira versão do argumento, que foi polido e terminado por Steven Zaillian. Estes dois nomes de peso da escrita para o cinema mantiveram o guião extremamente fiel aos acontecimentos e tom do livro, limando arestas, retirando gorduras e alterando o final com a bênção de Harris.

Porque li o livro em antecipação do filme, Hannibal foi um daqueles casos onde notei imediatamente o excelente trabalho de adaptação. Apesar das críticas negativas que o filme sofreu ao longo dos tempos, há que também dar o devido mérito a Ridley Scott por ter traduzido para o grande ecrã uma história por vezes lúgubre com uma dignidade e classe invejáveis. Qualquer filme que tivesse que viver na sombra de O Silêncio dos Inocentes arrancaria da linha de partida em desvantagem. Hannibal é menos convencional que o filme que o precede e pisca o olho mais descaradamente ao género de terror que fervilha por baixo da pele das narrativas envolvendo Lecter. Num filme partido em duas metades, Scott desenha uma atmosfera gótica na primeira parte, para na segunda apostar num ambiente onírico que se dirige lentamente para várias situações de pesadelo, retendo o espírito da conclusão do romance de Harris, apesar de alterar a letra do mesmo.

Hannibal não é um filme popular, mas merece a pena ser revisitado. Os seus defeitos estão embutidos na narrativa original e é tanto uma prova dos talentos de Ridley Scott, como um testemunho da enfatuação de Thomas Harris por uma personagem condenada pela sua própria popularidade. E, caso restem dúvidas sobre isto, apresento como provas os filmes que se seguiram a este: uma nova versão de Dragão Vermelho, onde o tarefeiro Brett Ratner desbarata um elenco de sonho numa variação requentada de O Silêncio dos Inocentes; e Hannibal – A Origem do Mal, a inevitável prequela onde o próprio Harris assinou o argumento onde se propôs a traçar as origens traumáticas de Lecter, estilhaçando qualquer aura de mistério que ainda sobrava à personagem.

 

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