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[Segunda Dose] Duelo Imortal – Parte II (1991)

de Russell Mulcahy

E se certos filmes nunca tivessem continuação? Algumas sequelas enriquecem o original e transformam um filme isolado no primeiro capítulo de uma saga popular. Outros, não só matam qualquer hipótese de uma franchise de sucesso como, inclusivamente, diminuem os originais. Mas será que merecem a fama que ganham? Proponho a análise a alguns destes casos, desde A Mosca II, passando por O Exorcista II: O Herege, até Speed 2: Perigo a Bordo. Mas comecemos por uma das mais infames sequelas de todos os tempos: o inenarrável Duelo Imortal – Parte II.

 

O original: Duelo Imortal, Highlander no original, realizado em 1986 por Russell Mulcahy, numa transição dos telediscos para as longas-metragens, contou com o veterano Sean Connery num papel secundário celebrizando Christopher Lambert no titular personagem principal, Connor MacLeod, um dos imortais que lutam pela obtenção de um prometido Prémio, ao som da muscular banda sonora dos Queen no auge da sua popularidade. O sucesso deste filme parece improvável, em retrospectiva. Ora vejamos: Christopher Lambert, americano de nascença mas educado na Suíça, com um carregado e indistinto sotaque europeu, interpreta Connor MacLeod, um escocês das terras altas do século XVI que descobre ser imortal, enquanto que Sean Connery, um escocês de gema, interpreta Juan Sanchez Villa-Lobos Ramirez, o metalúrgico chefe do rei de Espanha mas que, segundo o próprio, e apesar do seu nome e visual estereotipado, nasceu no Egipto vai para mais de dois mil anos. Tendo originado várias sequelas e uma série de TV é, contudo, um título algo esquecido, tanto pela memória cinéfila, como pelos actuais serviços de aluguer e venda de filmes em formato digital, que, apesar de algo datado, vale a pena revisitar.

 

Quem voltou: Toda a gente! E esta é uma das suas mais inacreditáveis características: desde o realizador, ao argumentista, passando pelas duas estrelas do elenco, apesar da separação ao nível do pescoço sofrida por uma das personagens, a equipa criativa do original voltou para uma segunda dose.

 

O veredictoDuelo Imortal – Parte II é uma das mais infames sequelas de todos os tempos. Avanço desde já que esta fama é inteiramente merecida. Repetindo em 1991 o elenco de Chistopher Lambert e Sean Connery, a realização de Russel Mulcahy e o argumento de Peter Bellwood, segundo história dos produtores Brain Clemens e William Panzer, Highlander II – The Quickening, no original, é um filme incompetente que oblitera a magra mitologia do filme anterior na tentativa ingrata de continuidade retroactiva de uma história que tinha tido aí o seu ponto final definitivo. Com uma hubris narrativa que se escusa a justificar acontecimentos, apresentar motivações ou definir regras minimamente consistentes para o seu próprio universo, atropela não só os factos de Duelo Imortal como a própria noção de gosto. Nas palavras de Michael Ironside, o actor que interpretou o vilão Katana, “Eu odiava o argumento. Todos nós odiávamos. Eu, o Sean, o Chris… todos nós fizemos o filme pelo dinheiro. Quer dizer, o argumento parecia ter sido escrito por um miúdo de treze anos. Mas nunca tinha interpretado um espadachim bárbaro antes e este foi o meu primeiro grande papel de vilão. Percebi que ía ser um filme estúpido logo, mais valia divertir-me e ser o mais cabotino possível!”

 

A contribuir para o resultado final existe outro facto curioso que nada tem que ver com opções artísticas. Tendo sido filmado na Argentina viu a inflação deste país ficar de tal forma que a seguradora teve de intervir e tomar o controlo criativo para tentar recuperar o investimento. Mulcahy ficou tão desapontado com o resultado final, obra da seguradora, que queria o seu nome retirado dos créditos, tendo sido impedido de o fazer por causa de cláusulas contratuais. Anos mais tarde lançaria em DVD a sua visão para Duelo Imortal – Parte II na edição que ficou conhecida como a Renegade Version. Existe ainda uma versão que melhora os efeitos especiais desta edição mas são, na essência, a mesma. Não vi a versão melhorada mas penei, para este episódio, com as versões original e Renegade num espírito de sacrifício que espero seja por vós apreciado através desta análise.

Duelo Imortal - Parte II
Ignorando toda a história estabelecida em Duelo Imortal, Duelo Imortal – Parte II mostra-nos MacLeod e Ramirez como seres dum planeta alienígena, Zeist, em rebelião contra o poder instituído, numa luta encabeçada pelo General Katana. Quando são capturados, MacLeod e Ramirez têm como castigo o exílio na Terra, onde serão imortais e se vêm obrigados a lutar até à morte até haver só um, justificando assim todo o primeiro filme. Vá lá, justificando mais ou menos. Muito mal, vá. Entretanto, no ano de 2024, a Terra vive enclausurada num escudo criado por MacLeod para nos proteger dos raios-ultravioletas, depois da destruição da camada do ozono em 1999. Desta forma, aquilo que era Nova Iorque de 1986 no filme anterior, transformou-se com o tempo, inexplicavelmente, numa réplica barata do futuro-retro de Blade Runner – Perigo Iminiente, com a obrigatória chuva constante e automóveis da década de cinquenta. Quando Katana se apercebe que MacLeod ainda pode escolher voltar a Zeist decide enviar dois capangas espinhosos para lhe tratar da saúde, mas quando o contrário acontece Macleod, além de ressuscitar Ramirez apenas pela acto de gritar muito alto o seu nome, recebe também a força vital dos seus atacantes, ficando novamente imortal, jovem e com uma cabeleira linda, fazendo Louise Marcus, interpretada por Virgina Madsen, ficar imediatamente bamba das pernas entregando-se ali e naquele momento aos seus desejos sexuais reprimidos por anos de velhice. A sua tentativa de compreender o que aconteceu e quem lhe proporcionou tamanho prazer numa rapidinha no meio da rua é hilariante.

 

Louise é líder de um movimento terrorista que, não só nunca mais aparece no filme depois da sua introdução, como alega que a camada do ozono está recuperada. Quando Katana decide vir à Terra fazer o que os seus capangas não conseguiram, nem o filme melhora, nem começa a fazer mais sentido do que fazia até então. O irónico é que, se pensam que a Renegade Version é uma versão de génio mutilada por uma gananciosa seguradora, podem-se desenganar. Nesta versão, os imortais não vêm de outro planeta, mas sim de um passado distante, o que, na melhor das hipóteses, é ainda pior do que virem de outro planeta visto que viajam a bel-prazer entre o passado e o presente. As restantes diferenças dizem respeito à reposição de uma sequência na recta final do filme que foi cortada na sua totalidade na versão que estreou nos cinema, e que envolve uma luta em cima de um camião, bem ao estilo de Indiana Jones em Os Salteadores da Arca Perdida, e a subida de MacLeod e Louise acima do escudo para confirmar as suas suspeitas. Incluem também a reorganização de uma ou outra cena, sendo que a mais significativa é a separação de dois confrontos entre MacLeod e Katana que tinham sido consolidados num só e que, na Renegade Version, aparecem na continuidade prevista inicialmente.

 

O bom senso leva-me a deixar o aviso para que evitem a todo o custo Duelo Imortal – Parte II, mas por outro lado o desastre é de tal dimensão que só visto para ser acreditado. Colecciona cenas que não fazem sentido, não chegando a construir uma narrativa, e as tentativas de humor, como a cena do metro ou todas as cenas que envolvem Ramirez na sua viagem à procura de MacLeod, são constrangedoras e inúteis para a trama. Mesmo o sentido visual de Mulcahy no original, à luz deste filme, parece um acidente de percurso e momentos como a luta entre MacLeod e os enviados de Katana demonstram que o realizador não tem nenhum sentido de espaço nem de tensão na construção de uma cena de acção. “É um tipo de magia” e “só pode haver um” proclamam aleatoriamente as personagens sem grande convicção. Eles sabem que estão a mentir: aqui não há magia nenhuma e, a contar com Duelo Imortal – Parte II, há já pelo menos um a mais do que devia.

 

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