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Rogue One: Uma História Star Wars

de Gareth Edwards

bom

Rogue One é o primeiro spin-off sob a bandeira Uma História Star Wars que pretende contar histórias isoladas passadas no universo da família Skywalker e que promete ter pontos de contacto com a narrativa do filme original de George Lucas.

Jyn Erso vê-se sozinha em tenra idade quando a sua mãe é morta e o seu pai Galen Erso, talentoso engenheiro em fuga do Império Galáctico para quem trabalhava, é recapturado pelo perigoso Director Krennic para colaborar na construção de uma poderosa arma, a base militar Estrela da Morte. Anos mais tarde Jyn é recrutada pela Rebelião contra o império quando estes são contactados por um piloto desertor do Império que alega ter uma mensagem de Galen. Este pode ser o ponto de viragem para conseguirem roubar os planos da Estrela da Morte e encontrar um ponto fraco nesta arma impenetrável. Rogue One, apesar das muitas novidades inerentes ao facto de ser o primeiro spin-off Uma História Star Wars, volta a apostar, tal como O Despertar da Força, na segurança nostálgica da familiaridade. Não só conta com variadíssimas referências aos filmes que o precederam, umas mais óbvias, outras mais obscuras, como repete inesperadamente alguma da fórmula do filme de J.J. Abrams, centrando-se numa heroína abandonada em criança, que se vem a cruzar com um piloto desertor do Império. É verdade que a narrativa de Rogue One não se foca apenas nestas personagens, abrindo o seu elenco a um conjunto heterogéneo de figuras, nem as dinâmicas das relações reproduzem a dinâmica entre Rey e Finn, mas não deixa de ser curioso para um filme que promete abrir portas para o futuro, ainda se olhar tanto para trás.

Rogue One, novamente à imagem do que acontecia em O Despertar da Força, volta a recuperar elementos estéticos e visuais, não só de A Guerra das Estrelas, dada a proximidade cronológica entre as duas histórias, como da arte conceptual, nomeadamente da autoria de Ralph McQuarrie, produzida para aquele filme e não utilizada. Fãs de longa data, consumidores da panóplia de livros sobre a génese e as produções da saga, reconhecerão também elementos criados por George Lucas nas primeiras versões do argumento e mais tarde abandonados, como os cristais “Kyber” e a “Ancient Order of the Whills”. No que respeita aos veículos espaciais há uma recuperação total do que conhecíamos da trilogia original, com algumas variantes subtis que enriquecem o universo sem o deixar irreconhecível, como a U-Wing, por exemplo, ou uma variante de Tie-Fighter de asas achatadas. Há easter eggs para todos os gostos: alguns obscuros, outros que distraem e alguns que acertam no alvo, como a célebre frase “Tenho um mau pressentimento em relação a isto”, aqui interrompida a meio. Mas a linha referencial nem sempre é seguida com equilíbrio e algum do serviço aos fãs descarrila a espaços o empreendimento, sendo que a maior fatia da culpa vai para a recuperação de uma personagem original através de efeitos de computação gráfica. O problema é que a tecnologia ainda não conseguiu que este tipo de personagem humano fosse reproduzido de forma perfeita e permanece um elemento de estranheza – o designado uncanny valey – que marca as cenas em que participa. Além disso ocorrem alguns momentos de continuidade retroativa que endereça questões que nunca foram um real problema, tal como a justificação para o ponto fraco da Estrela da Morte.

Estamos perante um Star Wars diferente do que estamos habituados, e isto é um elogio. Rapidamente somos lançados para um universo que se expande perante os nossos olhos num arranque narrativo frenético que nos apresenta as várias personagens e uma série de lugares novos e exóticos, como Jedha, com a sua cidade a refletir uma pálida imagem de glórias passadas, e mais tarde Scariff, um solarengo planeta com praias tropicais. Mas o maior constrangimento de Rogue One é a falta de desenvolvimento das suas personagens. Quando se pedia alguma profundidade na sua caracterização, Gareth Edwards e os seus argumentistas Chris Weitz e Tony Gilroy, desperdiçam a bagagem emocional que plantaram no prólogo, reduzindo o conjunto de excelentes atores a peões no tabuleiro de xadrez das batalhas que têm de travar. Apenas Felicity Jones tem um conjunto de motivações onde sustentar o seu retrato da Jyn Erso. O restante elenco, apesar dos tons de cinzento com que se define Cassian, interpretado por Diego Luna, ou da relação de fé que Chirrut estabelece com a Força, numa interpretação do especialista de artes marciais Donnie Yen, é privado de motivações, complexidades, quereres ou vontades. Isto torna-se evidente quando a personagem com a personalidade mais vincada, elemento de certeiro alívio cómico, é o robot K-2SO, numa interpretação em performance capture do sempre fiável Alan Tudyk.

Há um elemento propulsivo na narrativa de Rogue One que é satisfatório, de um ponto de vista superficial. As batalhas são um prolongamento moderno do confronto em Hoth, no princípio de O Império Contra-Ataca, e a sequência final é um espelho de Endor, do final de O Regresso de Jedi, sem os Ewoks e sem a carga emocional do confronto de sabres de luz que acompanhávamos nesse filme. Funcionam como um best of  do imaginário da saga onde podemos, numa mesma cena, vibrar com confrontos em terra envolvendo AT-ATs, ou no ar, com as X-Wing em foco em perseguições a Tie-Fighters e evitando o fogo da canhões terrestres. Mas o que começa por ser um conjunto de referências à saga original acaba numa ânsia de ligação à narrativa de A Guerra das Estrelas que faz lembrar os erros cometidos por George Lucas nos apressados momentos finais de A Vingança dos Sith. Quando acreditamos presenciar a um ato de coragem ao não se incluir um sabre de luz num filme do Star Wars este finalmente aparece numa cena de tons negros que poderá espantar os mais novos no uso violento de uma popular personagem. Este é, aliás, o filme mais sombrio de toda a saga, tanto pela sua inclinação mais bélica e casualidade perante a morte, como pelo seu desfecho. Michael Giacchino homenageia com a sua composição musical o legado de John Wiliams e, quando entra a triunfante e habitual fanfarra deste na banda sonora no arranque do genérico final, não há como evitar pensar que nunca nenhum filme do Star Wars tinha anteriormente, com as suas virtudes e com os seus muitos defeitos, tratado as suas personagens como meros elementos descartáveis.

Rogue One foi-nos apresentado como uma aventura paralela, com óbvios contactos com a narrativa original, mas contando uma história única e independente. Acontece que a reverência à saga de George Lucas vai além das pontuais referências, estabelecendo mesmo um forte cordão umbilical com aquela que parece o resultado de um compromisso entre esta premissa original e as obrigações comerciais deste novo filão. Nesta altura parecem ter validade os rumores das reais razões para as filmagens adicionais supervisionadas por Tony Gilroy, segundo rezam as crónicas. Há muitos elementos sonoros e visuais nos trailers que antecederam a estreia do filme que não se encontram na sua versão final, o que contribui para a crença que talvez a visão original de Gareth Edwards tenha sido comprometida. A máquina da Disney foi peremptória a negar os rumores mas, apesar de um entretenimento competente, a escassa caracterização das personagens, juntamente com a hesitação em ser algo de realmente novo e diferente, fazem com que Rogue One seja mais um passo ao lado do que um salto em frente.

A Força é apenas assim-assim com este.

Resumo da crítica

Summary

Rogue One é uma estreia competente para Uma História Star Wars mas a escassa caracterização das personagens, juntamente com a hesitação em ser algo de realmente novo e diferente, fazem com que seja mais um passo ao lado do que um salto em frente.

Classificação

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
3 10 bom

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