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Poesia sem Fim

de Alejandro Jodorowsky

muito bom

Depois de La danza de la realidad (2013), Alejandro Jodorowsky volta à sua biografia no seu mais recente Poesia sem Fim (2016), mostrando-nos como paisagens interiores, subjectividade e associação livre de imagens e sentimentos podem ser tornados cinema.

 

Pode parecer pretensioso que um realizador dedique um filme a narrar a sua própria vida, mas é o que o octagenário chileno Alejandro Jodorowsky faz pela segunda vez.

Realizador, romancista, poeta, ensaísta, dramaturgo, escritor de banda desenhada, Jodorowsky teve sempre na sua subjectividade, e modo por vezes místico de se relacionar com o exterior, uma fonte de inspiração. É isso que volta a transparecer no seu recente Poesia sem Fim, filme autobiográfico que o autor – um dos maiores mestres do surrealismo no cinema – junta àquilo a que chama «imaginário, mas não ficcionado».

Focando-se na história de Alejandro (Jeremias Herskovits, como criança, Adan Jodorowsky, – filho do realizador, e também autor da belíssima banda sonora, – como adulto), Poesia sem Fim abarca desde a infância até ao início da idade adulta do protagonista, quando este deixa o Chile natal para se radicar em França, nos anos 1950. O filme fala-nos da sua relação com um pai autoritário (Brontis Jodorowsky, também filho do realizador, presente em quase todos os seus filmes), da sua fuga de casa para cumprir o sonho de ser poeta, dos primeiros amores, descobertas e vida boémia entre os artistas da sua cidade.

Mostrando-nos como, na sua obra, são as paisagens interiores, a subjectividade, a livre associação de ideias e sentimentos e a fantasia que o guiam, Jodorowsky traz-nos uma obra de grande beleza poética, onde as soluções cinemáticas e narrativas são sempre originais e provocadoras. Assim temos cenários em cartão que se erguem diante dos nossos olhos, figuras vestidas de escuro que rastejam pelo chão para trazer e levar props, uma personagem – a mãe de Alejandro (a soprano Pamela Flores) – que fala sempre a cantar ópera, além de comportamentos exagerados e transições inexplicáveis, bem ao jeito do autor, onde não falta a aparição de anjos e esqueletos, uma atmosfera apoteoticamente circense em várias sequências, e o uso da pintura, mímica, marionetas, poesia, dança e música, num completo entrelaçar de artes como raras foi vezes feito em cinema, mesclados com comentário político (a comparação do General Ibanez com o nazismo, a referência literal ao movimento «La linea recta»).

Entregue a um grupo de artistas que incluem um par de «bailarinos simbióticos», um «supratenor», um «ultrapianista» e um «polipintor», Alejandro cresce, tentando e errando por entre aqueles que seriam figuras importantes da cultura do seu país (Enrique Lihn, Nicanor Parra, etc.), num desfile de personagens e situações que lembra o universo de Federico Fellini. Como esperado, muito do que vemos é metafórico e freudiano. Veja-se como a mesma actriz (Stella Diaz) interpreta tanto a mãe como a amante de Alejandro, e como o próprio Alejandro Jodorowsky surge em primeira pessoa, quebrando a quarta parede, para interferir com a sua jovem representação, quer com pequenos comentários, quer mesmo com conselhos, como aquele em que força Alejandro e o pai a terem a despedida carinhosa que eles nunca tiveram.

Podendo chocar os menos habituados à obra de Jodorowsky, Poesia sem Fim é, ainda assim um dos seus filmes mais acessíveis. Trata-se de poesia feita cinema, numa genial construção onde fantasia e realidade coexistem, por entre o universo surreal único do autor, num resultado que é perfeitamente cinemático (na bonita fotografia de Christopher Doyle), e fortemente emocional, que pergunta, mais que responde, quem é Jodorowsky e qual o papel da poesia.

Resumo da crítica

Summary

Podendo chocar os menos habituados à obra de Jodorowsky, Poesia sem Fim é um dos seus filmes mais acessíveis, poesia feita cinema, numa genial construção onde fantasia e realidade coexistem, por entre o universo surreal único do autor, num resultado que é perfeitamente cinemático e fortemente emocional.

Classificação

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
4 10 muito bom

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