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[Patinho Feio] Sorcerer – O Comboio do Medo (1977)

de William Friedkin

Sorcerer - O Comboio do Medo

Todos os grandes autores contam na sua filmografia com filmes de menor sucesso, seja de público, reconhecimento crítico, ou ambos. São filmes menos conhecidos e pouco celebrados mas que, por vezes, vale a pena (re)descobrir. Pretendo dar aqui a conhecer algumas destas obras.

 

O autor: William Friedkin, cineasta na linha da frente da nova vaga americana dos anos 70

Conhecido por: Os Incorruptíveis Contra a Droga, O Exorcista, Viver e Morrer em Los Angeles

Patinho Feio: O Comboio do Medo (Sorcerer) de 1977

 

Na sequência dos sucessos sucessivos de Os Incorruptíveis Contra a Droga e O Exorcista, William Friedkin decidiu lançar-se em 1977 numa adaptação do clássico de Henri-Georges Clouzot de 1953, O Salário do Medo. Com o título original de Sorcerer, O Comboio do Medo conta a história de quatro homens de diferentes nacionalidades que aceitam transportar em camiões uma perigosa carga de nitroglicerina por uma selva sul-americana. Infame pela produção atribulada e pelas filmagens que colocaram os seus actores em perigo, é um feito impressionante com sequências de realismo palpável e real tensão. A sua sequência mais famosa, uma travessia dos camiões por uma ponte de madeira no meio de uma tempestade, viu o rio do local planeado para as filmagens, na República Dominicana, secar pela primeira vez na sua história. Quando a ponte, que tinha custado um milhão de dólares a construir, foi desmantelada e construída de novo pelo mesmo valor, o rio no novo local no México também secou. Para simular a tempestade Friedkin usou então mangueiras, helicópteros e máquinas de vento numa cena que demorou três meses a filmar. Mais tarde reconheceria ter sido a cena mais difícil da sua carreira e admitiu que colocou os seus actores em perigo porque era um jovem realizador imaturo e negligente.

 

A sua personalidade difícil e exigente, retratada no livro de Peter Biskind, Easy Riders, Raging Bulls, sobre a Nova Vaga Americana, conseguiu que a peça central de Os Incorruptíveis Contra a Droga, uma electrizante perseguição de um automóvel a um comboio numa linha elevada, fosse filmada a alta velocidade nas ruas de Nova Iorque, sem permissões para tal e no meio de “civis” insuspeitos. Foi também a mesma personalidade que combateu os executivos da Paramount de forma a conseguir fazer o filme que queria. Apesar de não ter conseguido as suas primeiras escolhas para o elenco – mais tarde arrependeu-se de recusar Steve McQueen, que queria um papel para a mulher Ali McGraw, escolhendo Roy Scheider, que considera um óptimo actor mas para “segundo ou terceiro violino” porque “não é uma estrela” – O Comboio do Medo é um filme destemido, sem amarras nem convenções, e do qual Friedkin diz mais se orgulhar na sua carreira inteira pois é “exactamente o filme que queria fazer”.

Sorcerer - O Comboio do Medo

Produto do seu tempo, no melhor sentido da palavra, tem quatro prólogos, cada um introduzindo a sua personagem do elenco principal, que são praticamente quatro curtas-metragens independentes do resto do filme. Estes prólogos estabelecem o contexto das situações desesperadas que motivam as personagens a aceitar a perigosa missão, num misto de bravura machista, e sentido de inevitabilidade. Este é um cinema visceral, enlameado e sem tréguas para o espectador. Não há despejos de informação nem cenas de exposição redutoras e o espectador tem de trabalhar no sentido de descodificar a linguagem cinematográfica onde os temas são um sub-produto da arte narrativa por meios visuais e sonoros. Friedkin, que começou a carreira realizando documentários, utiliza uma técnica que designa por “documentário induzido” com o qual pretende dar uma sensação de verosimilitude encenando as cenas apenas com os actores sem informar o operador de câmara dos movimentos planeados, tendo este de reagir à acção conforme ocorre na tomada de cena filmada. Esta técnica pouco convencional dá uma forma mais livre e realista ao filme.

 

O problema é que o público não foi ver O Comboio do Medo. Porque a Paramount, em reação aos atritos com o seu realizador, não promoveu o filme mas, mais consideravelmente, porque ao não estrear no prestigiado Grauman’s Chinese Theatre na data prevista de 25 de maio, deu lugar a que se estreasse na sua vez um filme chamado Star Wars. E, de repente, o mundo mudou. O pessimismo realista (ou realismo pessimista?) dos anos 70 deram lugar ao optimismo fantástico de George Lucas e o filme de Friedkin foi um fracasso de bilheteira. O niilismo da missão suicida musicado pela banda sonora assombrada dos Tangerine Dream só foi apreciado com a distância do tempo e, agora que o mundo está recheado de fantasias escapistas, é o negrume de O Comboio do Medo que nos aparece como um bálsamo refrescante.

 

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