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[Patinho Feio] Phenomena (1985)

de Dario Argento

Todos os grandes autores contam na sua filmografia com filmes de menor sucesso, seja de público, reconhecimento crítico, ou ambos. São filmes menos conhecidos e pouco celebrados mas que, por vezes, vale a pena (re)descobrir. Pretendo dar aqui a conhecer algumas destas obras.

 

O autor: o mestre italiano do giallo, Dario Argento.

Conhecido por: O Pássaro Com Plumas de Cristal, Vermelho Profundo, Suspiria.

Patinho Feio: Phenomena, de 1985.

 

Dario Argento é um realizador, produtor e argumentista italiano conhecido pelo seu trabalho no género de terror, nomeadamente no subgénero giallo. Esta palavra italiana, que designa a cor amarela, refere-se também a um género de literatura e cinema italiano do século vinte que contém elementos de mistério, slasher, terror sobrenatural ou crime. Apesar disto o termo giallo acabou por ser utilizado para caracterizar um estilo particular de filmes italianos de mistério e crime que incluíam elementos de terror e erotismo. Este género teve o seu pico de popularidade na década de setenta e serviu de inspiração, juntamente com Halloween – O Regresso do Mal de John Carpenter, aos filmes slasher americanos dos anos oitenta. Como acontece em qualquer categorização as características de um filme giallo são alvo de discórdia e debate, mas é seguro que os nomes apontados como exemplos maiores do género sejam os de Mario Bava, Lucio Fulci e Dario Argento.

Argento terá mesmo sido responsável pela popularização do género com os inusitados níveis de violência estilizada e suspense de O Pássaro Com Plumas de Cristal, a sua estreia na realização em 1970 que definiu os padrões do género, dando origem a uma série de imitadores. Os seus maiores sucessos talvez sejam Vermelho Profundo, de 1975, e Suspiria, de 1977. Inferno, de 1980, uma sequela temática de Suspiria, não teve a distribuição desejada, acabando com uma pobre performance na bilheteira. Tenebre, de 1982, onde voltava ao elemento de crime característico do giallo, afastando-se do terror sobrenatural dos filmes anteriores, foi um sucesso modesto em Itália, tendo sido incluído na infame lista de video nasties no Reino Unido e banido até 1999, sendo que nos EUA só estreou em 1984 numa versão altamente editada.

 

 

O que nos traz a Phenomena, o filme de Dario Argento de 1985. Jennifer, uma jovem rapariga com uma capacidade psíquica invulgar é transferida para um internato exclusivo na Suíça, onde poderá ajudar a resolver o mistério de uma série de assassinatos que têm vitimado jovens raparigas na região. Mas esta simples sinopse não começa por explicar a ambição narrativa de Argento em Phenomena. Um dos seus óbvios motivos de interesse é a presença de uma jovem Jennifer Connelly, um ano depois da sua estreia em Era Uma Vez Na América, do também italiano Sergio Leone, e um ano antes de O Labirinto, a fantasia de Jim Henson em que contracenou com David Bowie. A sua personagem, com quem partilha o nome próprio, tem uma ligação psíquica com insectos, além de sofrer de episódios de sonambulismo, durante os quais testemunha, através de visões, os crimes do assassino em série. Apesar da polícia estar no encalço do assassino, Jennifer tem a iniciativa de investigar o caso, pois acredita ter sido vista pelo criminoso no acto, contanto para tal com o auxílio do entomologista John McGregor, o veterano Donald Pleasence, restringido a uma cadeira de rodas e contracenando quase todas as suas cenas com uma chimpanzé. Narrativamente só faltou o proverbial lava-loiça mas ainda houve espaço para a personagem da directora da escola que que internar Jennifer num manicómio só porque sim. Se a isto juntarmos a revelação surpreendente da identidade do assassino, que surpreende, não por ser chocante, mas por ser aleatória, e assentar numa motivação de vingança incompreensível envolvendo um filho disforme e monstruoso, é difícil ver em Phenomena um título de referência do cinema de terror.

A premissa inicial remete para o clássico Suspiria, com uma jovem americana a chegar a uma escola interna no coração da Europa antiga e cheia de mistérios. Tal como este filme também Phenomena conta com uma banda sonora do colaborador habitual de Argento, Claudio Simonetti, mentor da banda de rock progressivo Goblin, além de incluir algumas músicas de heavy metal de nomes como Iron Maiden e Motorhead. Mas, apesar das semelhanças, Phenomena cede sob a pressão da sua ambição e, mesmo com as violentas cenas contidas na sua versão original, o tom vacila entre o horror e a comédia involuntária. As interpretações parecem sofrer com a natureza multinacional da produção. Mesmo o fiável Donald Pleasence, que interpreta inexplicavelmente um escocês, prejudica a sua interpretação com um sotaque que distrai e é mais uma opção que demonstra a falta de contenção de Argento neste projecto. O restante elenco, italiano na sua maioria, interpreta em inglês, uma segunda-língua, com resultados que variam entre o cabotino e o inexpressivo. Connelly, que mais tarde se revelaria óptima actriz, também é vítima do que parece ser um caso óbvio de fraca direcção de actores, com a louvável excepção da chimpanzé Tanga, no papel da versátil e expressiva Inga, elemento fulcral no desfecho da trama.

Nem tudo é mau, no entanto. Argento oferece algumas cenas de tensão e verdadeiro horror e, apesar do parco desenvlvimento do elemento da ligação psíquica com os insectos, providencia alguns momentos icónicos, como a invocação das moscas na escola, no momento em que Jennifer é achincalhada pelas outras alunas. “Eu amo-vos a todos” profere, num momento de genuína antologia. Outro momento marcante é o fosso de cadáveres onde Jennifer cai na sequência final. É um momento visceral e chocante que revela uma total entrega de Connelly às mãos do realizador italiano.

Phenomena foi um sucesso em Itália. Nos EUA, tal como aconteceu com Tenebre, foi altamente editado e estreou numa versão bastante mais curta com o título Creepers, tendo sido mais tarde lançado em DVD com o título original numa versão quase integral, omitindo ainda assim algumas cenas, supostamente a pedido do realizador. Existem muitos fãs deste filme e, honestamente, é fácil perceber porquê. Apesar dos seus excessos e inconsistências é inevitável admirar a sua ambição e, para os fãs de Argento, este é um filme com a sua marca distinta, e um dos seus filmes favoritos da sua própria filmografia. Pode não ser um giallo puro, pode não ser um filme de referência, pode nem ser um grande filme, mas será certamente uma experiência inesquecível.

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