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[Patinho Feio] A Última Tentação de Cristo (1988)

de Martin Scorcese

Todos os grandes autores contam na sua filmografia com filmes de menor sucesso, seja de público, reconhecimento crítico, ou ambos. São filmes menos conhecidos e pouco celebrados, mas que por vezes vale a pena (re)descobrir. Pretendo dar aqui a conhecer algumas destas obras.

 

O autor: Martin Scorcese.

Conhecido por: Taxi Driver, O Touro Enraivecido, Tudo Bons Rapazes, The Departed – Entre Inimigos.

Patinho Feio: A Última Tentação de Cristo (The Last Temptation of Christ) de 1988.

 

Olhando para a filmografia de Martin Scorcese este parece ter vivido muitas vidas. Fruto da nova vaga americana dos anos setenta é o realizador de títulos icónicos como Os Cavaleiros do Asfalto, Taxi Driver, O Touro Enraivecido, Tudo Bons Rapazes ou o filme que lhe valeu finalmente o Óscar The Departed – Entre Inimigos. Apesar de recordado em primeira instância pelos filmes sobre gangsters violentos a sua filmografia revela uma inusitada variedade oferecendo, além dos títulos que mencionei, musicais como New York, New York, comédias como O Rei da Comédia ou Nova Iorque Fora de Horas, dramas épicos de reconstituição de época como A Idade da Inocência ou Gangs de Nova Iorque, biografias como O Aviador ou O Lobo de Wall Street, e até filmes comerciais de género como O Cabo do Medo ou Shutter Island. Ao atentar nestes títulos, e Scorcese é responsável por outros tantos de igual interesse que não listei, o fio temático que parece recorrer na sua filmografia com alguma frequência é o da exploração de conceitos católicos como a culpa, a fé ou a redenção. Filho de imigrantes italianos em Nova Iorque Scorcese cresceu num ambiente de devoção católica e além de esta ter reflexos temáticos nos seus filmes, deu origem anteriormente a alguns títulos onde o realizador explora de forma direta a sua relação com a religião. O primeiro desses títulos foi a polémica adaptação em 1988 de A Última Tentação de Cristo.

A Última Tentação de Cristo é um romance de 1955 escrito por Nikos Kazantzakis que retrata a vida de Jesus Cristo e a sua luta com várias formas de tentação, incluindo medo, dúvida, luxúria, relutância e, em última instância, o desejo de ser apenas um homem comum e não o messias com a missão de salvar a humanidade. Ao retratar Jesus como um homem em conflito consigo próprio, que fabricava cruzes para os romanos, que questionava o seu papel de salvador e que, perante o sofrimento na cruz, é tentado a viver uma vida comum, casando e tendo filhos, o livro, e mais tarde o filme, viram-se envolvidos em polémica, nomeadamente provocada por cristãos ofendidos com os desvios da história aos Evangelhos. Em 1972 Barbara Hershey ofereceu uma cópia do livro a Scorcese no set de filmagens de Uma Mulher de Rua. O realizador, que queria filmar uma versão da história da vida de Jesus desde a infância, garantiu os direitos para a adaptação do livro no final da década de setenta, oferecendo-o a Paul Schrader para o adaptar. Schrader tinha escrito o argumento de Taxi Driver e O Touro Enraivecido para Scorcese e a produção estava planeada avançar com chancela da Paramount em 1983, no que seria o filme do realizador após O Rei da Comédia. Mas a produtora recuou perante o aumento do orçamento e dos protestos que recebeu de grupos religiosos.

Em 1986 a Universal Studios interessou-se pelo projeto e avançou para a produção com um orçamento reduzido e um plano de filmagens apertado. Jay Cocks, em parceria com Martin Scorcese, fizeram uma revisão não creditada no argumento de Schrader e em Outubro de 1987 têm início as atribuladas filmagens. Scorcese diria mais tarde que “trabalharam num estado de emergência”, improvisando frequentemente no local, sem qualquer tipo de planeamento. Isto deu origem a uma estética minimalista para o filme. O elenco é de luxo com Barbara Hershey, que tinha oferecido o livro a Scorcese, a interpretar Maria Madalena, Harry Dean Stanton como o apóstolo Paulo, David Bowie num pequeno papel como Pôncio Pilatos, Harvey Keitel num retrato alternativo de Judas e com o destaque maior a ir inevitavelmente para Willem Dafoe, que oferece um retrato honesto e humano de um Jesus Cristo em conflito interno. É impossível falar de A Última Tentação de Cristo sem falar da polémica que o envolveu quando estreou em 1988, desde protestos às portas dos cinemas por pessoas que nem sequer tinham visto o filme, passando por cadeias de cinemas que se recusaram a exibi-lo, o que terá contribuído para os seus magros resultados de bilheteira, até aos desprezíveis atentados em França onde fundamentalistas católicos pegaram fogo a algumas salas de cinema provocando um morto e vários feridos. A verdade é que a religião é um tema sensível e tocar em dogmas religiosos faz vir ao de cima a intolerância do cocktail perigoso que é o fundamentalismo misturado com a fé cega.

Mas mais interessante do que falar das suas polémicas é olhar novamente para os seus méritos enquanto obra cinematográfica. E com a estreia de Silêncio torna-se impossível não contextualizar estes dois filmes num díptico da exploração do seu autor sobre a natureza da Fé, não como instrumento de verdade, mas como forma de levantar questões. Ao retirar de Jesus, tal como interpretado por Willem Dafoe, o peso da santidade que lhe foi atribuída pela igreja a que deu origem, o que encontramos é uma personagem confrontada com a sua própria humanidade, logo com todos os seus defeitos, fraquezas e desejos. Este retrato humanista de Jesus coloca-o num constante estado de dúvida perante o seu suposto papel. Ele não detém todas as respostas nem vê claramente o seu caminho. É através da constante reflexão e questionamento que vai trilhando o seu caminho. É na sua luta interna entra a luz e a escuridão, ao confrontar os seus próprios impulsos, que vai tomando consciência da sua missão. Ainda assim aceita o sacrifício da crucificação, mas todo o sofrimento na cruz parece mais um abandono que um ato divino. Valerá a pena a humanidade ser salva, ou merecerá antes que se lamente por ela? De que forma se honra a vontade de Deus? Amando os outros ou forçando-os pela lei da espada? Ou será constituindo uma família, simplesmente amando a mulher e os filhos? A Última Tentação de Cristo levanta estas dúvidas e, para grande desconforto de muita gente, sugere que Jesus as possa ter colocado também.

Martin Scorcese mais uma vez serve na perfeição o material. Não se encontra aqui o seu habitual estilo visual frenético nem a montagem a mil à hora. Apesar do parco orçamento e do estilo frugal a recriação de época é verosímil e realista. Sente-se a lama e a terra debaixo das unhas e o guarda-roupa é espartano e vivido. No que respeita à banda sonora Scorcese recorreu a Peter Gabriel no pico da sua popularidade. Este reuniu um conjunto de músicos do Médio Oriente, África, Europa e Sul da Ásia que acabaram a contribuir pelo aumentar do interesse global pela world music. Entre as colaborações encontram-se nomes como Nusrat Fateh Ali Khan, com vocalizações qawwali, Youssou N’Dour, com vocalizações senegalesas ou Shenkar com contribuições de violino. A música composta foi então trabalhada e expandida já depois da estreia do filme e reunida no álbum de Peter Gabriel Passion, mais tarde reeditado com o título Passion: Music for The Last Temptation of Christ.

Nove anos mais tarde Scorcese voltaria a lidar diretamente com a religião ao filmar a biografia do Dalai Lama em Kundun. Mas claramente sentia o seu diálogo com a religião católica ainda incompleto e esta semana chegou finalmente às salas de cinema em Portugal Silêncio, o seu mais recente filme onde volta a explorar questões de fé, sacrifício e missão.

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