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Óscares: para que servem?

É já no próximo domingo que terá lugar a 89ª cerimónia de entrega dos Óscares, os cobiçados galardões da indústria cinematográfica norte-americana entregues pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Mas, para que servem?

 

Começo já por avisar que este vai ser mais um daqueles textos que dedica tempo aos Óscares ao mesmo tempo que os minimiza e desvaloriza. Não nos iludamos: apesar da importância do reconhecimento dos profissionais da indústria pelos seus pares, as premiações refletem, em primeira instância, tendências económicas e preocupações com a sobrevivência comercial do meio. Não só a cerimónia é uma parada auto-congratulatória do sistema, numa tentativa de reafirmação da relevância do mesmo, como é também uma montra de vaidades de personalidades preocupadas com os direitos humanos, e com o estilista que as vestiu este ano em igual medida. Além disto, a maior parte dos títulos que são nomeados conseguem-no pela força de agressivas campanhas de marketing onde se gastam tantos, ou mais, dólares que na própria produção do filme. Neste aspeto é mais um reflexo do sistema de lobbies essenciais ao funcionamento de um país que, pelo mesmo meio, elegeu um ignóbil incompetente e desprovido de valores para os representar e liderar.

Ainda assim recuso o discurso que se refere às escolhas da Academia como se esta se tratasse de uma entidade senciente com capacidade de decisão, ignorando o facto que esta é o resultado de um conjunto heterogéneo de profissionais da arte cinematográfica. Aliás, torna-se ainda mais interessante olhar desta forma para o resultado das votações, no contexto dos incompreensíveis erros e omissões que frequentemente vão sendo cometidos. É verdade que se torna mais fácil olhar para trás e apontar erros graves com o devido distanciamento e contexto histórico, mas ainda assim é sintomático do desfasamento entre as opiniões dos membros da Academia e a relevância e importância do trabalho de Alfred Hitchcock, por exemplo, o facto deste mestre absoluto da 7ª arte nunca ter ganho o Óscar de Melhor Realizador. Hitchcock tem uma carreira recheada de filmes que povoam manuais de cinema, tão populares como apreciados criticamente – alguns apenas reconhecidos uns anos mais tarde, o que talvez comece por explicar o inexplicável.

Mas infelizmente não faltam exemplos destes. O que têm em comum Stanley Kubrick, Cary Grant, Humphrey Bogart ou David Lynch? Exato: zero Óscares. No entanto Alejandro G. Iñárritu ganhou a distinção de Melhor Realizador em dois anos consecutivos (2015 e 2016). E o que dizer de nomes que são recorrentemente nomeados em vagas mais ou menos efémeras de reconhecimento, mas que ainda estão para aparecer em qualquer lista de realizadores influentes? Nomes como Stephen Daldrey, David O. Russell ou Tom Hooper volta e meia têm de desempoeirar o fraque para a cerimónia. Daldrey e Hooper já ganharam estatuetas e Russel foi nomeado em cinco ocasiões, mas aposto que o leitor está neste momento a coçar a cabeça numa tentativa de se lembrar de algum título da responsabilidade destes senhores. Agora pensemos nos seguintes títulos nomeados, mas derrotados, na categoria de Melhor Filme: Citizen Kane – O Mundo a Seus Pés, Vertigo – A Mulher que viveu Duas Vezes, Laranja Mecânica, Taxi Driver, Pulp Fiction. Enfim, a lista é longa e deprimente.

Mas não foi sempre assim. Houve uma altura, no meu despertar inocente da sedução pela 7ª arte, em que o Óscar era rei, um selo de garantia de qualidade que informava o benjamim e inexperiente cinéfilo dos filmes que valiam a pena. E Tudo o Vento Levou, com os seus oito Óscares, era uma referência incontornável do filme clássico de prestígio. E o que dizer de Ben-Hur, com as suas onze estatuetas? Ora, até A Guerra das Estrelas tinha tido seis vitórias, apesar da derrota no capítulo de Melhor Filme para Annie Hall. Claro que o E.T. – O Extra-terrestre é um dos filmes mais marcantes e populares da história do cinema americano, e os seus quatro Óscares parecem curtos, mas ao fim e ao cabo perdeu o prémio de Melhor Filme para a importante biografia de Gandhi, um filme sério e de prestígio, certo? E Os Salteadores da Arca Perdida? Apesar de vencer quatro estatuetas não conseguiu cortar a meta à frente de Momentos de Glória, o (in)esquecível filme de Hugh Hudson, que beneficiou de um importante empurrão da banda sonora de Vangelis. Enfim, é por estas e por outras que se confunde prestígio e academismo com qualidade. Aos poucos e poucos o verniz começou a estalar. Apesar de ter continuado a acompanhar a cerimónia durante anos – primeiro num compacto em diferido, a única opção na altura, depois na integral em diferido, e finalmente na integral em direto – começava a surgir lentamente a realização de que não estava a assistir à celebração de um forjar de um cânone histórico. A gota que fez transbordar o copo deu-se em 1990, num dos últimos grandes espetáculos apresentados por Billy Cristal, quando Miss Daisy arrebatou o Óscar de Melhor Filme deixando para trás títulos como Nascido a 4 de Julho ou O Clube dos Poetas Mortos. Desculpe, pode repetir?

Com o passar dos anos, e com o apurar de gostos, eventualmente vi desaparecer das listas de nomeações os filmes que mais me marcavam. Claro que não desapareceram totalmente, mas de uma forma genérica, o meu investimento emocional não tem tradução nas nomeações. Como é possível elaborar listas dos melhores do ano sem se invocarem títulos como Donnie Darko, O Despertar da Mente, Magnólia, Shaun of the Dead, Seven – 7 Pecados Mortais ou Trainspotting? Sei o que estão a pensar. Filmes como estes nunca são nomeados aos Óscares. Mas, apesar do reconhecimento out-of-the-box à façanha que foi a trilogia de O Senhor dos Anéis com a esmagadora vitória de O Regresso do Rei em 2003, esta mentalidade continua a ser parte do problema. O que nos traz à questão potencialmente mais pertinente: o que significa ser o Melhor? O que serve, além da própria indústria, eleger um filme ou o trabalho de um profissional – ator, realizador, editor, escritor, etc. – em detrimento de outro? Tal como os perenes Tops de fim de ano, os Óscares traduzem uma ânsia de canonização instantânea que, na realidade, não é conseguida desta forma.

O tempo tratará de separar o trigo do joio e de decretar a importância de um filme, ou de votá-lo ao esquecimento. Entretanto todos nós podemos celebrar o nosso gosto sem cerimónias nem sobressaltos. Há uns meses atrás La La Land: Melodia de Amor era apenas um promissor e encantador filme musical que gerava expectativas para a estreia no princípio do ano seguinte. Neste momento vive com o peso e a soberba das catorze nomeações aos Óscares. Moonlight, em qualquer outro ano, seria uma pérola independente discutida exclusivamente nos circuitos cinéfilos. Este ano é um fenómeno falado no Telejornal e em exibição em salas de multiplexes com o chão peganhento das pipocas. De que forma é o nosso gosto influenciado pela mera sugestão de atribuição destas estatuetas douradas? Não há forma de saber. A única certeza é que, tal como acontece todos os anos, este domingo elas vão ser atribuídas e segunda-feira, independentemente dos resultados ou da nossa professa indiferença, lá estaremos todos a opinar sobre as contabilidades e as injustiças das premiações como se de um resultado de um jogo de futebol se tratasse.

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