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Os Olhos da Minha Mãe

de Nicolas Pesce

mediano

Nicolas Pesce estreia-se na realização com um filme de terror independente sob o signo do coletivo Borderline.

 

Josh Mond, Sean Durkin e Antonio Campos são três cineastas que se conheceram na Escola de Artes Tisch, da Universidade de Nova Iorque, e decidiram criar uma companhia produtora para fomentar os seus próprios projetos. Assim nasceu a Borderline Films onde, com um espírito empreendedor e independente, os três autores vão rodando os papéis de escritor, realizador e produtor nos projetos pessoais de cada um.

Assim foram produzidos vários títulos, dos quais os mais sonantes serão Afterschool – Depois das Aulas, a estreia na realização de Campos em 2008, e Martha Marcy May Marlene, também a estreia atrás das câmaras de Durkin em 2011. Entretanto o coletivo estendeu o seu apoio a outros cineastas e em 2016 estrearam no Festival de Cinema de Sundance o primeiro filme produzido pela nova marca, Borderline Presents: Os Olhos da Minha Mãe, a estreia na realização de Nicolas Pesce. 

Os Olhos da Minha Mãe é um filme de cariz e estética independente difícil de resumir numa sinopse. Numa quinta remota uma mãe ensina anatomia à sua filha, Francisca, bem como a conviver com a morte. Uma tarde um evento traumático vai definir a psique de Francisca e isolá-la do mundo e da convivência social, deixando-a responsável por cuidar do apático pai e de um assassino acorrentado no celeiro. Contar mais seria injusto para o descobrir do filme, mas merece a pena adiantar a curiosidade da sua ligação a Portugal. Porque a personagem da mãe é Portuguesa parte do filme é falado em Português. Além disso o fado da Amália “Naufrágio” é peça central de uma cena em que Kika Magalhães, no papel de Francisca, dança para o seu pai.

Pesce, que também é responsável pelo argumento, está mais interessado em ambiente do que na narrativa e filma num preto & branco de exceção que sublinha o sentimento de opressão que vai crescendo em lume brando ao longo dos económicos 73 minutos de filme. Cada cena é meticulosamente encenada e composta através de uma direção de fotografia de encher o olho, e o ritmo é cozinhado num lume brando deliberado que obriga o espetador a trabalhar na procura de motivações e na interpretação daquilo que está a testemunhar.

Se dúvidas houvessem acerca do género de Os Olhos da Minha Mãe, estas rapidamente desaparecem. Além do gore subtil que se vai tornando lentamente mais óbvio com o decorrer da austera narrativa, e a que a fotografia a preto & branco ajuda a dar algumas tréguas, assistimos ao progressivo e seguro despertar da loucura de uma personagem que, na idade da inocência, testemunha o indizível e o impensável. Pesce poupa-nos a psicologias de qualquer tipo para justificarem as ações de Francisca e deixa-nos apenas com os terríveis resultados. Neste aspeto o filme é eficaz pois, se não é assustador de uma forma tradicional, é perturbante de uma maneira que dificilmente se confunde com entretenimento para ajudar a vender pipocas.

Mas nem tudo funciona na perfeição. Na hora de escrever os diálogos, ou os espartanos monólogos – pois Francisca passa grande parte do tempo sozinha – a mão de Pesce não produz os melhores resultados. Além disso as interpretações sofrem um pouco com a questão linguística, nomeadamente com os sotaques dos atores para quem a primeira língua não é, definitivamente, o inglês. Talvez este aspeto não fosse tão problemático se não houvessem momentos em que se falam as duas línguas num mesmo diálogo. A somar a isto o filme não sustenta o seu próprio conceito. A sua minimalista narrativa é, ainda assim, inverosímil a espaços e tem um final tão aberto que se torna algo insatisfatória.

Tendo feito sucesso pelos vários festivais onde foi exibido Os Olhos da Minha Mãe é um ótimo cartão de visita para o seu estreante autor, mas dificilmente terá impacto junto das audiências de terror habituadas a sustos baratos de fazer saltar da cadeira. É um filme com olho artístico que requer paciência do espectador e que, dependendo da sua capacidade para ignorar algumas fraquezas na escrita do argumento, se pode revelar como uma espreitadela perturbante aos recantos mais tenebrosos da psique humana.

Resumo da crítica

Summary

Os Olhos da Minha Mãe é um filme independente com olho artístico que requer paciência do espectador e que, dependendo da sua capacidade para ignorar algumas fraquezas na escrita do argumento, se pode revelar como uma espreitadela perturbante aos recantos mais tenebrosos da psique humana.

Classificação

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
2.5 10 mediano

Comentários

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