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[MOTELx 2016] Under The Shadow

de Babak Anvari

muito bom

Under The Shadow, primeira longa-metragem de Babak Anvari, surge do Irão, para relembrar a receita de O Senhor Babadook (2014), com mãe e filha a viver sob várias ameaças, da condição feminina à guerra e conflitos internos, trazendo a presença de espíritos que as tentam separar.

 

Começa a perceber-se aos poucos a influência do filme O Senhor Babadook (The Babadook, 2014) de Jennifer Kent, no terror actual, nos filmes que vão agora surgindo inspirados num clima de suspense e horror centrados numa relação tão próxima quanto conflituosa entre uma mãe e um filho ou filha criança. É o caso de Under The Shadow, primeira longa-metragem do iraniano Babak Anvari, que se dedica a recriar o clima de medo e paranóia no Irão do início dos anos 80, logo após a revolução islâmica liderada por Ayatollah Khomeini.

Filmado em Teerão, numa produção internacional envolvendo dinheiro dos Estados Unidos e Reino Unido, Under The Shadow lança um olhar sobre o período pós-revolucionário para comentar a nova situação da mulher, aqui encarnada pela protagonista Shideh (Narges Rashidi), uma ex-estudante de medicina, agora impedida de finalizar o curso por ter, no passado, tomado posições políticas. Por isso, Shideh é «condenada» a permanecer em casa e dedicar-se totalmente à filha, Dorsa (Avin Manshadi), numa altura em que o marido (Bobby Naderi) é chamado à frente de batalha, e Teerão está sob ameaça de ataques químicos que leva a população a debandar.

Neste contexto, Shideh vive em conflito (a recusa da Universidade, a desconfiança dos vizinhos a falta de empatia do marido) o que ajuda a um clima de instabilidade e nervosismo em casa, que se propaga à sua pequena filha. É aqui que o filme de Babak Anvari lembra o citado O Senhor Babadook, e o mais recente The Noonday Witch (Polednice, 2016), de Jiří Sádek, que estreou em Portugal no MOTELx 2016. Em todos eles temos uma relação próxima mãe-filho/a, a qual tende a isolá-los do mundo que os rodeia, e vai implodindo devido a pressões internas, para gerar um clima de paranóia e conflito, que ganha espelho nas ameaças (reais ou imaginárias) de espectros que assombram o duo. Em todos, é sempre o factor psicológico e estado familiar que geram o verdadeiro problema, de que os fantasmas são apenas um eco, como metáfora de um empurrar de culpas para o exterior.

Em Under The Shadow, temos o recurso à mitologia persa, com os jinn (os ocidentalizados génios, que surgem em As Mil e Uma Noites, e que foram islamizados no Corão como espíritos de natureza ambígua, capazes de interagir com o mundo físico). São estes jinn que começam a manifestar presença em casa de Shideh e Dorsa, tentando separá-las, marcando-as como vítimas, primeiro a filha, depois a mãe, também ela a sofrer por não corresponder às expectativas da sua própria mãe, recentemente falecida.

Under The Shadow, vale pela atmosfera psicológica criada, e força das suas personagens que, mesmo que descritas de forma quase minimalista, logo ganham a nossa empatia, mostrando como há valores universais que a localização geográfica ou cultura não tornam mais distantes. Babak Anvari filma mãe e filha no espaço conciso de um apartamento, e escadas do prédio, conseguindo sempre uma enorme dose de tensão, a qual, mais que de efeitos especiais ou bandas sonoras intrusivas, provém essencialmente das interpretações de Narges Rashidi e Avin Manshadi, e das emoções com que elas nos contagiam.

Segue-se todo um carrossel de aparições, ameaças, sustos, tentativas de rapto, numa espiral tão descendente (repare-se como o mal vem de cima, do tecto, de um buraco no prédio, de um míssil) como a das escadas que conduzem ao abrigo anti-aéreo, e simbolizadas no desvio de pequenos objectos (uma boneca, um livro) receptáculos emocionais das protagonistas. Embora com alguma previsibilidade na história e um final em aberto ao modo norte-americano de quem pede por sequela, Under The Shadow é eficaz naquilo que mais deseja, incomodar emocionalmente, assustando, usando ritmo, efeitos e simbologia em doses moderadas e sempre equilibradas.

Resumo da crítica

Summary

Evocativo da história do recente O Senhor Babadook (2014), o filme de estreia de Babak Anvari é um eficaz thriller emocional, onde o horror ganha força pelas interpretações de Narges Rashidi e Avin Manshadi, capazes de nos transportar para o clima de medo em que passam a viver.

Classificação

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
3.5 10 muito bom

Comentários

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