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[Retrospectiva IndieLisboa 2016] Kate Plays Christine

de Robert Greene

muito bom

IndieLisboa 2016 – 28 e 29 Abril, Filme de Destaque – Competição Internacional

Quem não se lembra do monólogo pivotal em Network de Sidney Lumet, onde Howard, o jornalista suicida à beira de uma depressão nervosa que cai na armadilha do sensacionalismo vestido de jornalismo, pede ao mundo para se levantar, para as pessoas se dirigirem às janelas das suas casas e enraivecerem-se perante a situação económica e o crime dos EUA pós-Guerra do Vietname?

“(…) bem, eu não vos vou deixar em paz. Eu quero que se zanguem. Não quero que protestem ou estejam na origem de um motim. Não escrevam ao vosso congressista. Eu não saberia o que vos dizer para escreverem. Eu não sei o que fazer quanto à crise, à inflação, aos Russos e à criminalidade na ruas. Tudo o que eu sei é que primeiro vocês têm de se zangar. Têm de dizer ‘Eu sou um ser humano, por amor de Deus! A minha vida tem valor!’ Por isso, quero que se levantem agora. Eu quero que todos vocês se levantem das vossas cadeiras. Quero que se levantem agora mesmo e vão à janela, abram-na, enfiem a vossa cabeça cá fora e gritem: ‘Estou doido como o diabo. E não vou aguentar mais isto.’ (…)”

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Sim, todo o mortal seja em que geração tenha nascido, recorda-se ou já viu em alguma ocasião este excerto do filme. Com a ajuda do tempo, este manifesto satírico tornou-se vital e é agora tão ou mais crucial, vivendo a famosa citação catártica que o argumentista Paddy Chayefsky demitizou na linguagem dos nossos dias. O que muitos não sabem, no entanto, é que a personagem de Howard Beale é, de facto, baseada na história real de Christine Chubbuck, uma repórter televisiva que trabalhava para uma pequena estação local em Sarasota, Florida nos anos 70, e se suicidou com uma arma de fogo numa emissão em directo. Deste acto horrendo e premeditado, a sua história foi imediatamente afastada da ribalta e a cassete da footage (gravada a pedido da própria Christine), na qual seria possível testemunhar o acto em si, foi como que enclausurada e esquecida pelos demais, tal era o tabu existente em torno do acontecimento cujo vídeo ainda hoje não se encontra disponível.

A segunda pessoa a cometer suicídio ao vivo na televisão (o primeiro deu-se no ano de 1938 quando Marion Perlou saltou para a sua morte do 11º andar do Edifício Time and Life na cidade de Nova Iorque e coincidentemente foi apanhado pelas câmaras quando um operador de câmara da NBC estava a testar equipamento de áudio e som no Rockefeller Center), Christine era uma ambiciosa repórter de 29 anos que cedeu à doença mental e, como que crítica voyeurística dirigida ao seu patrão que tradicionalmente queria sangue e vísceras para iniciar as notícias do dia, pediu que a emissão daquele dia fosse gravada em película, deixou um texto escrito à mão para aqueles que no estúdio se encontravam reportarem a sua morte e, depois de um imprevisto em directo, encontrou a abertura para retirar uma pequena arma de fogo de um saco com fantoches, apontá-la para a parte de trás da sua nuca e puxar o gatilho. Se este acto pretendia funcionar como uma sátira ao espectáculo macabro pelo qual o espectador vivia sedento para vislumbrar, não se sabe. Será que ela, por se opor a tal realidade, reduziu-se ao papel de mais uma daquelas pessoas que o seu trabalho exigia encabeçar e que seriam depois deixadas esquecidas para sempre? Será por isso que ela pediu uma gravação da emissão? Estaria ela a prenunciar o oblívio? Ou desejava ela ser o rosto do conto cautelar da depressão? Do sensacionalismo? De ambos? Estaria ela doente? Ou quereria ela apenas uma família? Estas são apenas algumas das perguntas que organicamente surgiram no curso do primeiro acto.

Mas atenção, Kate Plays Christine, tal como o título claramente indica, é sobre Kate a interpretar Christine e não sobre Christine. Falo aqui de Kate Lyn Sheil (Sun Don’t Shine, House of Cards), uma actriz independente americana cujo amigo, documentarista e editor Robert Greene (Actress), lhe começa por sugerir o projecto de desvendar a intriga existente por detrás da persona de Christine Chubbuck. Na sua aceitação e através dos seus olhos cerúleos, mergulhamos bem fundo na representação de uma imagem dramatizada do mundo ao estilo de um filme pornográfico dos anos 70, situada à margem do culminar da sátira e da exploração do sentimento americano perante o acto do suicídio e suas premeditações. O filme é rápido na sua submersão e nestes termos o vemos desenrolar, misturando a sua livre não-ficção na ficção de Kate a interpretar o seu Eu em frente à câmara, e numa segunda realidade onde ela tenta quebrar a bolha que é Christine. Nessa linha de identidade da intriga, o filme transmite não só o processo de possessão e psicose no qual Kate exerce o que tem ao seu dispôr para se misturar com a personalidade de uma mulher que ela nunca ouviu falar ou de quem nunca teve a oportunidade de ver um vídeo, como também um de derrame onde é a performance, o método que a actriz infringe na sua vida assim que se muda para a Flórida e tenta desenterrar os factos, que em conjunto evidenciam a podridão social da qual nós, ali sentamos naquelas cadeiras a ver tal proposta, fazemos parte.

Celebrado no Festival de Sundance no passado mês de Janeiro, juntamente com Christine de Antonio Campos, – duas abordagens do mesmo núcleo temático onde ironicamente só o segundo, que se encaixou na Competição Narrativa Americana em Park City este ano, procura justificações a perguntas sem resposta – o filme foi causa de furor e a imprensa não descansou até conseguir colocar sob registo um familiar da jornalista cujo nome é finalmente lembrado. O irmão de Christine, Greg, começou por descrever o filme de Antonio Campos como “desprezível e deplorável” numa entrevista ao MailOnline, tendo concluído mais tarde à Revista People que não planeia ver nem um filme nem outro – “Ninguém quer saber quem era a Christine Chubbuck. Eles querem sensacionalizar o que aconteceu na recta final da sua vida. Um suicídio público não é a fonte de alegria para uma família.”

E talvez seja esse o caso com Christine, mas certamente não o é com Kate Plays Christine. Pela colorida cinematografia do requisitado (prestes a atingir o estatuto de Deus-indie a esta altura) Sean Price Williams, Greene garante que uma tempestade de realidades se derretem nos seus intrínsecos artifícios, enquanto presenciamos a ansiedade de Kate em perder a sua pele, e deixar a sua identidade ser turvada para o bem da história e do seu crescimento enquanto actriz. Há um poder que arranca o espectador da sua pretensão e expectativa a partir do momento em que, no centro de um projecto (de uma maneira ou outra, experimental) que procura elaborar as dimensões inatingíveis do ser humano, o seu sucesso evidencia-se na impossibilidade de dar respostas à inexplicável qualidade do desconhecido, neste caso daquele ‘que’ não questionável que o suicídio transporta consigo. E é nessa não-resposta às perguntas que eu faço dois parágrafos acima que se encontra o Cálice Sagrado do mistério de Christine que Greene e, principalmente, Kate, traspassam. Quando e se reflectido, o empenho de Kate vai para lá da aquisição de lentes de contacto castanhas, sessões infinitas de fake tan, e prova de perucas. Também ela tem de se colocar no papel de Howard Beale em Network (interpretado pelo brilhante Peter Finch), e questionar a loucura que deveria de facto ser gritava do topo dos nossos pulmões para o mundo exterior, esse mundo cheio de segundas personagens que o filme questiona e inclui. Numa sequência em especial onde o fogo de artifício, que Kate assiste na cidade onde a sua personagem viveu, se funde no som do disparar de uma arma, é de notar como ela contempla as várias contradições da vida, violentas o suficiente para colocarem um fim à existência de um ser humano, e se pergunta se estará então a falhar enquanto precursora da imitação.

Em síntese, e remontando ao Q&A dado por Robert Greene na adorável sala do Cinema Ideal, onde este falou desse horror que é o fascínio que o humano naturalmente tem pelo sangrento, pela tragédia, é fácil de concluir que entre Kate Plays Christine e Christine, a primeira assinada pelo editor de sucessos irreverentes dentro do mundo independente nova-iorquino, – Queen of Earth, Listen Up Philip ou Christmas, Again – traz ao de cima a história de interesse humano que a própria Christine provavelmente (aquando da pergunta, o realizador não conseguiu dar uma resposta) apoiaria. O tipo de filme que Network nunca seria. Com Kate no leme, como o veículo manipulado que entrega o produto final numas quase duas horas de duração (duas horas que por vezes se vêem a arrastar o seu objectivo), nunca em momento algum Kate Plays Christine se perde do seu destino nesta reflexão meta para a qual somos convidados a testar o veneno que todos nós (incluindo o realizador e a sua equipa) instilamos na sociedade da qual fazemos parte.


Kate Plays Christine venceu o Prémio Especial do Júri Canais TV & Séries nesta 13º Edição do Festival Internacional de Cinema Independente de Lisboa e terá distribuição em Portugal.

Resumo da crítica

Summary

A desformatação do documentário de Robert Greene na não-ficção livre encontra a sua justificação na turvez da identidade de uma actriz na personagem que procura interpretar. Controverso e humano, Greene traz-nos dois lados de uma história inegavelmente dimensional, onde tenta fazer aquilo que Chubbuck pareceu querer transmitir em 1974, providenciar o testemunho de um lugar no tempo onde nós acabamos a provar o nosso próprio veneno.

Classificação

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
4 10 muito bom

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