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Julieta

de Pedro Almodóvar

muito bom

Após a comédia ligeira Amantes Passageiros (2013), Pedro Almodóvar volta aos caminhos que o caracterizam actualmente, o melodrama sério com um mistério que envolve buscas no passado. Em Julieta (2016) ele surge cheio de elegância, num piscar de olhos à temática e estilo visual de Alfred Hitchcock.

 

Há uma espécie de amadurecimento na carreira de Pedro Almodóvar. Se exceptuarmos a recente comédia Amantes Passageiros, os seus filmes assinalam um caminho para o melodrama mais sério (sério em vários sentidos, da falta de humor à convencionalidade dos temas), longe do humor corrosivo, do politicamente incorrecto e ideias (muito) provocantes que definiram a primeira parte da sua carreira. A confirmar essa tendência, chega Julieta, apresentado no concurso a melhor filmes em Cannes, um drama que traz alguns dos lugares-comuns recentes (e não só) do realizador, desde o elenco feminino, à problemática das relações entre progenitores e seus filhos.

Tal como vinha acontecendo nesses filmes, por exemplo em Abraços Desfeitos (2011), A Pele que Habito (2009) e Voltar (2006), regressa o confronto entre passado e presente. Desta vez baseando-se em vários contos da escritora canadiana (agraciada com o Prémio Nobel da Literatura em 2013) Alice Munro, Julieta traz-nos a história de uma mulher a contas com o peso do seu passado. Interpretada a dois tempos pela lindíssima Adriana Ugarte (a Julieta jovem) e por Emma Suárez (a Julieta de meia idade), a Julieta dos nossos dias tem uma recaída num desgosto do passado (como uma viciada que cai redonda nas garras de uma droga, como a própria afirma), que a faz desistir de viver o seu presente, para embarcar numa busca, tanto interior como exterior, sobre o que possa ter acontecido nesse tal passado misterioso.

Com um elenco maioritariamente feminino, Almodóvar constrói um verdadeiro drama de câmara que, se filmado com a elegância de um dotado, e um brilho luminoso nos exteriores (que aqui surgem com um realismo e riqueza de texturas admiráveis), é nos interiores, e nos seus impressionantes jogos de contrastes cromáticos que ganha vida. E é aí, nas cores, que surge a grande influência de Julieta, Alfred Hitchcock, em particular o seu Vertigo – A Mulher que Viveu Duas Vezes (1958). Tal como Vertigo, Julieta é um filme de obsessões, de buscas e perdas, de ajustes de contas entre dois tempos, de renascimentos e transformações (note-se como aos nossos olhos a Julieta jovem se torna a Julieta mais velha) e, claro, acima de tudo, um filme de culpas (e onde não falta uma espécie de governanta sinistra, na figura da inimitável Rossy de Palma). Mais ainda, bebendo na profissão da protagonista, especialista em literaturas clássicas, Julieta entrelaça mitos gregos, numa história de viagens (o comboio onde tudo começa, as várias visitas de Julieta), de mar e naufrágios, de esperas penelopianas, desencontros e buscas épicas.

Deliciando-se na forma paulatina de nos revelar a essência do seu mistério, por entre os episódios cândidos e inocentes de que o filme é feito, Almodóvar, numa história cativante, joga com os nossos sentimentos na constante pergunta de como Julieta se tornou Julieta. Pode não ter a irreverência e inovação das suas obras maiores, mas tal como vinha a acontecer nos filmes mais recentes, Julieta aponta um caminho seguro no drama maduro de temas psicológicos e conflitos pessoais de alguém que, decididamente, já representa a meia-idade.

Resumo da crítica

Summary

Assinalando mais uma obra na fase «madura» da sua carreira, Julieta é um drama de câmara no feminino, de riqueza cromática, história intensa e mistério de culpas entre passado e presente, evocativo do melhor Hitchcock.

Classificação

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
3.5 10 muito bom

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