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[Retrospectiva IndieLisboa 2016] James White

de Josh Mond

excelente

IndieLisboa 2016 – 29 e 30 Abril, Filme de Destaque – Competição Internacional

“Fecha os olhos. Respira fundo e expira toda a negatividade. Respira bem fundo. Empurra tudo para fora.” – James diz à sua mãe doente. Com a sua pesada cabeça debruçada sobre o peito do filho e o seu corpo apoiado no dele, Gail (Cynthia Nixon) gradualmente ultrapassa o véu do seu cancro terminal e daquela casa de banho para viver uma outra realidade, esta contada por James, sob a esperançosa versão de Ain’t Nobody’s Business If I Do de Billie Holiday que começa a soar em segundo plano. Nova Iorque transforma-se de repente em Paris, James é agora casado com dois filhos e Gail habita a casa ao lado. O cancro foi ultrapassado, os carros passam na rua sem haver motivos para abafar o seu som, o vento toca na cara de James e ele celebra-o. Ele está feliz. Finalmente feliz. É assim que o debut de Josh Mond constata a sua tese, evocando um dos momentos mais marcantes que o cinema independente americano nos ofereceu no passado ano, elevado  a uma dimensão humanista universal sem comparação, e que chegou agora (finalmente!) a Portugal no seio da Competição Internacional na 13º Edição do Festival Internacional de Cinema Independente de Lisboa.

Desde a sua estreia oficial na edição do Festival de Sundance de 2015, James White percorreu o mundo celebrando em igual medida o amor de um filho pela sua mãe solteira e o tratamento complexo de maturidade que um rapaz é obrigado a atravessar, causado em grande parte pelo sentimento de perda iminente da sua família. Estamos diante o mesmo processo demorado e corajoso equiparado ao Shiva com o qual o filme se inicia. James quer escrever, mas ainda dorme no sofá da mãe. Adequadamente chamado de homem-rapaz de vinte-e-qualquer-coisa anos, e agarrado a uma adolescência pausada, ele esconde-se atrás de racionalizações para justificar a sua evidente imaturidade. O mundo não lhe deve nada e ele vive dorido, repartido entre os vários ciclos de dor que a sua família fragmentada provoca e os vários períodos de dormência a que o mesmo se obriga para fugir da indução emocional anteriormente alimentada. “Estou só triste, James. Estar triste não é um problema.” – Gail diz-lhe a meio do Shiva do seu distante pai, agora falecido. James, não sabendo processar nenhum daqueles sentimentos, ferve em pouca água e explode, transformando toda e qualquer situação em mais um acto narcisista gerado por ele. De forma inconfundível, assim entramos no seu processo de exploração, que ocorre durante cinco meses, onde assistimos ao seu crescimento, sempre a um passo do abismo, mas sugerindo salvação pelo caminho.

James White é uma revelação, em todos os sentidos da palavra. A sua tela não vive exclusivamente para os seus actores, e há uma abertura à partilha e à comunicação, ao amor e à loucura, uma mistura capaz de levar qualquer um ao cinema de John Cassavetes, o homem que inconscientemente iluminou os ecrãs nos anos 90, sem nunca impedir a articulação das suas dúvidas e deflexões de serem penetradas com harmonia. O filme vive desta forma dos seus excessos, do calor e do frio que colidem num magnetismo assim ‘Cassavetiano’, reforçado pelas milagrosas performances de ambos Christopher Abbott (Girls) e Cynthia Nixon (Sex and the City), que evoca uma revisão à génesis de Gena Rowlands, onde são os entretantos da acção – um sorriso de soslaio que sugere interação, o olhar suspendido da dor, a projecção de medo num acto violento, a mágoa do passado investido numa co-personagem – que revelam a confiança que um actor tem na personagem que descama aos poucos. Há valor na vergonha de James em não conseguir catalogar o que sente e beleza na escuridão da robustez de Gail. Do outro lado da câmara, Josh Mond, a última perna do tripé nova-iorquino que é a Borderline Films, e Mátyás Erdely, o cinematógrafo húngaro responsável pelo galardoado Filho de Saul, brilham por direito próprio em cada transição abrupta, em cada close-up intrusivo, cada vislumbre de humor na tragédia de James. Mas a estreia de Mond na selva da longa-metragem não é nem palavrosa nem tão pouco arejada. Ele destina-se, ao contrário dos seus parceiros ‘no crime’ – Antonio Campos (Afterschool, Simon Killer) e Sean Durkin (Martha Marcy May Marlene) com os seus dramas psicanalíticos – a um cinema com cunho pessoal que se estende perante uma abordagem handheld e a proximidade da lente de Erdely, lubrificando assim a sua inerente submersão. Em acréscimo, o seu ouvido é afinado para o ritmo do dia-a-dia. As horas transformam-se em dias, dias em semanas. Toda a transição entre cenas se inicia de rompante, perseguida pela catarse do tempo presente que desliza dos dedos do protagonista de forma efémera. Lee entra e sai daquele lugar suspendido no tempo, o apartamento da mãe, e espelha pela cidade a sua incapacidade de se dedicar. Mas mais uma vez, a cidade não o consola, a cidade não está lá para o ouvir. A cidade representa a reflexão de ele mesmo que ele não está pronto a aceitar.

Existe intimidade aqui, ainda que deslocada da tangente habitual do cinema que tem medo em aproximar-se da desproporção que ocorre aquando da perda do ser humano, aquela que Hollywood produz dia sim/dia sim. Nesta recusa, os tiques nervosos do nicho indie de Brooklyn comandado pelos estreantes Charles Poekel (Christmas, Again) e John Magary (The Mend) misturam-se e fazem o belo pão de ló que dá lugar a uma luta de linhas aparentemente ténues que se agrupam. O narcissismo de James é recorrente e, no entanto, o amor que nutre pela sua mãe nunca vacila. Brilhante caso este em que é o sentimento que dá lugar à acção e não a acção ao sentimento, e Mond não tem medo em mostrar o caminho todo, começando pela vulnerabilidade em não ceder ao colapso que vem com a dor, e passando pela intransigência do mesmo na forma como continua a sugeri-la até atingir o clímax. Mas o conflito interior de James, esse origina-se na paixão extraviada da sua escrita, também ela reprimida. Algures no realismo que bem poderia ter sido emprestado por Michael Haneke com o seu Amour, – um retrato alvo de confrontação da mortalidade onde a vitória existe no escapar do precipício do abstracto e do melodramatismo – , James diz-nos o que ver, mas dá-nos igualmente permissão para supor aquilo que escolhe não mostrar, tal como se nos escrevesse.

Numa cena em particular, na qual Gail olha o filho para além de ele mesmo após o recomeço dos tratamentos, é difícil fazer algo mais do que sobreviver àquela desintegração, confirmada pelo ataque delirante que se segue, mas é possível. Ela vive a inevitabilidade do seu não-futuro nas palavras fugazes do filho, este que evacua tal pensamento e exige o mesmo dela. E é aqui que encontramos a premissa de James White (e Amour), no desejo que James tem em segurar o medo dela e no poder que o mesmo carrega de todas as vezes que encara o cartão da clínica de assistência a cuidados paliativos colado na porta do frigorífico e vira a cara.

Olhando para trás, não há coincidências no filme de Josh Mond. James é a personificação pessoal do remorso de Mond, mas uma que nunca se entrega completamente à biografia do último. Fala abertamente da mortalidade, mas também não esconde a complexidade da imaginação. Durante os seus admiráveis 85 minutos de duração, James e Gail nunca se encontram longe dos cenários psicológicos a eles atribuídos – sejam estes a deslavada aragem do México ou a cidade de Nova Iorque, sempre desfocada e apenas existente entre a farmácia, o hospital, o apartamento de Gail, o estúdio de James e os vários bares que James frequenta – a não ser pela cena descrita no início desta reflexão. É de debater se este é realmente o factor que ajuda a expandir o tecido da estória e através disso atingir a tão publicitada ambiguidade dos dois últimos minutos de filme (onde curiosamente eu não a encontrei!). De qualquer maneira, o filme é, tal como o título indica, sobre James apenas. A namorada adolescente que vive o idealismo de “Wuthering Heights” pela primeira vez, o amigo de infância que reaparece, ou o editor amigo de família que trabalha na New York Magazine, em nada fazem parte da ilha que vive fechada na luta interna de James para com ele mesmo, mais tarde definida pela decadência que ele vê a sua mãe moribunda a suportar, e onde o amor da fantasia do seu verdadeiro potencial vive – “Ver-me feliz. Ver-me como pai. Ver-me como um homem gentil e amoroso. Ver-me sorrir de te ver tão feliz.”

Se agora, três visionamentos mais tarde, me fosse pedido para traçar o caminho do filme, diria que da dormência é sugerido o conflito de James, e do derradeiro culminar do sofrimento a verdadeira amostra de si mesmo, ele que agora se sente sujo de mais para respirar através da dor. Aliás, do momento em que ele sai do apartamento de Gail até se dar a convidar à escuridão de Nova Iorque sozinho, ele já não quer respirar. Ele pára para inalar o fumo do cigarro que segura, e finalmente sente a dor a assumir controlo do seu corpo. Tudo o que existe naquele momento é a noite e a sua perda, e pela primeira vez ele não procura fugir dela. Ele sente-a a latejar e escuta. Não há mais nada a não ser ele, ali, naquele momento. Os carros passam e passam, e subitamente, como accionar um interruptor, ele faz parte do mundo. O abismo, esse sempre tão alerto, continua a ser o termómetro da maturidade, dos mecanismos que levam ao triunfo do rapaz na absorção do homem. E James White reúne-se, por fim, na contemplação da língua universal desse labirinto pronto a ser vivido.

Resumo da crítica

Summary

James White alia-se a um magnetismo e uma introspecção do amor humano que nos une como seres e prolonga o sofrimento da existência do ser e do haver, elaborando o ritmo da maturidade. Com duas das melhores performances deste ano – de Cynthia Nixon e Christopher Abbott – o filme vive muito para além do seu tempo de duração e ocupa de agora em diante os alicerces de um jovem contemporâneo realizador, um novo Cassavetes numa Nova Iorque de sempre.

Classificação

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
4.5 10 excelente

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