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[Fight Club] Tudo Bons Rapazes vs. Casino [Ronda 1]

José Carlos Maltez defende Tudo Bons Rapazes

Fight Club é uma rubrica onde comparamos dois filmes, sejam da mesma franchise, do mesmo género ou qualquer outra ligação mais ao menos ténue. Podem ser sequelas, remakes, filmes parecidos, com a mesma temática, actor ou realizador. Cada filme terá o seu defensor, explicando porque um é melhor que o outro. Não se trata de insultar ou denegrir gratuitamente, antes pelo contrário. Trata-se de dar a conhecer diferentes pontos de vista, sejam eles mais ou menos populares, e estimular o exercício analítico na defesa de gostos muito pessoais. Ao fim e ao cabo o gosto é subjetivo e o lixo de um é o tesouro de outro. Concorde-se ou não com as opiniões, existirão com certeza argumentos inspirados e defesas apaixonadas. E no final, independentemente de quem perder o combate, ganhamos todos.

Nesta edição, e na semana em que estreou Silêncio, o mais recente filme de Martin Scorcese, colocamos em confronto duas das suas obras da década de noventa: Tudo Bons Rapazes vs. Casino. Tudo Bons Rapazes é considerado como um dos melhores filmes do seu realizador, enquanto que Casino, produzido cinco anos mais tarde, é muitas vezes apontado como uma cópia menor do primeiro: José Carlos Maltez argumenta a favor de Tudo Bons Rapazes na Ronda 1, enquanto que António Araújo avança com a defesa de Casino na Ronda 2.

 

Decididamente considerado um dos filmes fundamentais de Martin Scorsese, Tudo Bons Rapazes, de 1990, é como que o amadurecimento, e síntese das ideias do realizador, algumas já em germinação nos seus filmes anteriores.

Na base, temos um filme sobre a máfia italo-americana de Nova Iorque. Por outras palavras, temos um olhar para o background do próprio Scorsese, do meio em que cresceu, e que o formou como realizador, se tomarmos como exemplo os filmes Who’s Knocking at My Door (1967) e Os Cavaleiros do Asfalto/Mean Streets (1973). São «olhares da rua» para as famílias de bairro, jovens delinquentes, e testosterona descontrolada, mesclada com uma aculturação ainda em curso. Tudo filmado no estilo cru, sem romantismo, e frenético de Scorsese, que se tornou símbolo de uma geração (a Nova Era de Hollywood) e inspiração para muito que se havia de seguir.

Tudo Bons Rapazes é tudo isto, e muito mais. Já um realizador estabelecido, com vários triunfos junto do público e crítica, Martin Scorsese tinha prometido a si mesmo não voltar a fazer filmes de gangsters, quando leu o livro Wiseguy de Nicholas Pileggi, que o levou a mudar de ideias. Escrito por um repórter criminal, Wiseguy era um retrato fiel ao mundo da Little Italy onde o realizador crescera, o que o levou a ligar a Pileggi, para que os dois desenvolvessem o projecto.

O resultado é um filme que conta a história, narrada na primeira pessoa, de Henry Hill (Ray Liotta), um jovem italo-irlandês dos subúrbios de Nova Iorque, que quer ser um «wiseguy» (espertalhão), nome que o próprio dá aos gangsters de bairro, que vivem, não de um trabalho maçador, mas de pequenos golpes, e comportamento de «duros», que os tornavam temidos pela vizinhança. De pequenos biscates em adolescente, Henry vai ganhando a confiança dos chefes, e vendo o seu dinheiro acumular-se. Já adulto, Henry e os parceiros Jimmy Conway (Robert De Niro) e Tommy De Vito (Joe Pesci) vão participando em golpes mais arriscados. Segue-se o ritmo acelerado de noitadas, crimes e mulheres, passagens pela prisão, problemas conjugais no seu casamento com Karen (Lorraine Bracco), uma tentativa de ascensão através do tráfico de droga, que o coloca em litígio com o chefe Paul Cicero (Paul Sorvino), e a paranóia das guerras entre chefes e consequentes moedas de troca onde ninguém está a salvo de uma traição.

Mesmo com problemas de produção (foi o filme mais caro de Scorsese até então, tendo a sua extrema violência criticada, e por vezes censurada, bem como uma linguagem grosseira, onde a «f-word», e suas conjugações, é usada mais de 300 vezes – metade das quais pelo personagem de Joe Pesci), Tudo Bons Rapazes era um elevar da fasquia, a ser batida (ou quando muito imitada) em produções futuras de dramas criminais. Sendo um regresso às fórmulas da Nouvelle Vague que já haviam marcado a primeira fase da carreira de Scorsese, temos a voz off de dois personagens (Liotta e Bracco), uma história por episódios não necessariamente apresentados por ordem cronológica, uma montagem rapidíssima, planos que vão dos mais clássicos aos mais arrojados, nos quais a câmara se move dinamicamente entre os personagens, longos planos-sequência (onde o mais célebre é o travelling que leva Liotta e Bracco a entrar num clube pela cozinha), imagens paradas, cortes abruptos, e claro, um extenso uso da steadycam (câmara que é transportada pelo operador, mas de modo bastante estável). Ou seja, um definir de um léxico visual que quase cunha o adjectivo «scorsesiano».

Com um olhar agridoce sobre o modo de vida marginal da comunidade italo-americana de Nova Iorque, Scorsese retira o drama criminal do romantizado mundo da saga O Padrinho de Francis Ford Coppola, descrevendo uma realidade mais crua e suja, mas ainda assim envolta em nostalgia que é, afinal, a do realizador, tratada com respeito e distância emocional. Não temos julgamentos de valores, que não sejam os que o público quiser fazer, qualquer tentativa de endeusar, desculpar ou recriminar os personagens. Tudo Bons Rapazes, apresenta factos narrados friamente, mesmo quando o resultado é uma quase ridicularização do protagonista, e onde os personagens nos são descritos, não apenas pelas suas acções ou diálogos, mas também pelo modo vertiginoso com que desfilam à nossa frente. O ritmo pode, por isso, ser calmo, quase clássico, para logo de seguida ser frenético, e passar mesmo ao neurótico, como acontece no último dia de Henry Miller, no qual ele conduz sob o efeito de drogas, dando-nos a ver a paranóia que acontece vertiginosamente na sua cabeça.

Por fim, não podemos esquecer as interpretações (com um surpreendente Ray Liotta a ganhar a competição a Tom Cruise, entre outros) e os diálogos. Grande parte do filme foi improvisado, em particular as cenas envolvendo o personagem de Joe Pesci (que tem uma interpretação fabulosa como o psicopata fala-barato, nervoso, e sempre de dedo no gatilho). A história «You think I’m funny?» é uma improvisação baseada num episódio real de Joe Pesci, tal como o jantar em casa da sua mãe (Catherine Scorsese), o episódio em que Spider é alvejado, e a bofetada de Paulie a Henry quando este sai da prisão. Ao lado deles, Robert De Niro (um habitual parceiro de Scorsese) era a âncora, e a cola que fazia tudo funcionar na interacção entre os actores, Paul Sorvino estava seguro, na figura do patriarca de poucas palavras, mas com olhar mortífero, e Lorraine Bracco perfeita, de rapariga viva a esposa pactuante, de mulher fiel a abusada, a uma personagem forte e exemplo do que seria a mulher de armas e mãe de família numa sociedade tão presa à tradição.

E claro, numa outra tradição de Scorsese, a criar um padrão para tantos outros repetirem, destaque ainda para a banda sonora, feita integramente de música pop e rock contemporânea da história, a qual ajuda a definir os tempos que vão de 1955 a 1980, marcados por temas famosos de gente como The Rolling Stones, Harry Nilsson, The Who, Muddy Waters, George Harrison, Bobby Vinton, Cream, Tony Bennett, Aretha Franklin, Derek and the Dominos, Dean Martin, The Ronettes e Sid Vicious, entre outros.

Tudo Bons Rapazes estreou no Festival de Veneza, onde Scorsese arrecadou o Leão de Prata (prémio de Melhor Realizador). Foi ainda nomeado para seis Oscars, vencendo o de Melhor Actor Secundário (Joe Pesci), cinco Globos de Ouro, sete BAFTA (onde receberia os prémios de Melhor Filme, Realizador, Argumento, Montagem e Design de Produção), e inúmeras outras nomeações que premiaram principalmente Scorsese. Desde então o estatuto do filme não parou de crescer, sendo considerado um marco do cinema americano, e um modelo nos filmes de gangsters. Inclusivamente para Scorsese, com grande parte da sua carreira, da atmosfera de Casino (1995) à teia criminal de The Departed – Entre Inimigos (2006) até à vertigem de O Lobo de Wall Street (2013), a assentarem em muito do terreno que Tudo Bons Rapazes veio desbravar.

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