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[Fight Club] Indiana Jones e o Templo Perdido vs. Indiana Jones e a Grande Cruzada [Ronda 1]

António Araújo defende Indiana Jones e o Templo Perdido

Fight Club é uma rúbrica onde comparamos dois filmes, sejam da mesma franchise, do mesmo género ou qualquer outra ligação mais ao menos ténue. Podem ser sequelas, remakes, filmes parecidos, com a mesma temática, actor ou realizador. Cada filme terá o seu defensor, explicando porque um é melhor que o outro. Não se trata de insultar ou denegrir gratuitamente, antes pelo contrário. Trata-se de dar a conhecer diferentes pontos de vista, sejam eles mais ou menos populares, e estimular o exercício analítico na defesa de gostos muito pessoais. Ao fim e ao cabo o gosto é subjetivo e o lixo de um é o tesouro de outro. Concorde-se ou não com as opiniões, existirão com certeza argumentos inspirados e defesas apaixonadas. E no final, independentemente de quem perder o combate, ganhamos todos.

Nesta edição colocamos em confronto Indiana Jones e o Templo Perdido vs. Indiana Jones e a Grande Cruzada. Perante a questão sobre qual a melhor sequela de Os Salteadores da Arca Perdida apenas Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal ficou em branco: António Araújo defende o Templo Perdido na Ronda 1, enquanto que José Carlos Maltez avança com a Grande Cruzada na Ronda 2.

 

Os Salteadores da Arca Perdida é o melhor filme da franchise do Indiana Jones. Penso que esta será uma frase pouco polémica e uma boa premissa para abordar o tema das suas sequelas. Em primeiro lugar porque, apesar do seu contributo para o próprio cunhar da expressão franchise, quando foi produzido, não foi pensado como tal. Sonhado por George Lucas e Steven Spielberg, no mesmo espírito de homenagem aos antigos serials que já tinha inspirado Lucas a criar o seu Star Wars, Indiana Jones era um professor e arqueólogo aventureiro que combatia nazis numa perseguição a um artefacto religioso de suposto poder místico por países exóticos numa era pré 2ª Guerra Mundial que enquadrava perfeitamente o teor algo ingénuo, sem cinismo, das suas aventuras. O milagre produzido é o resultado duma simbiose perfeita do argumento de Lawrence Kasdan, do casting de Harrison Ford no papel do lacónico herói, da inconfundível música de John Williams e da direção inspirada de Steven Spielberg, um realizador fora-de-série no pico da sua forma.

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Não vi Os Salteadores da Arca Perdida no cinema. Tinha apenas quatro anos quando este estreou nas salas portuguesas, em Outubro de 1981. Mas cerca de três anos depois a história já foi outra. Foi no dia 24 de Dezembro de 1984, a singelos quatro dias do meu oitavo aniversário, que vi Indiana Jones e o Templo Perdido no (saudoso) cinema Oxford em Cascais. Aliás, esta terá sido uma das experiências definitivas na definição da minha cinefilia. A ida ao cinema ainda era um ritual. A entrada para o foyer, onde residia uma réplica gigante de um Oscar, era uma experiência literalmente sufocante – afinal, não tinha idade apropriada para assistir ao filme, quanto mais altura para ombrear com os adolescentes e adultos que tentavam sofregamente chegar ao “lanterninha” que validava os bilhetes. As cadeiras do Oxford, de um imaculado branco, adaptavam-se ao nosso corpo e forneciam uma visão imaculada do ecrã. E os gongos avisavam que a realidade iria suspender-se em breve para dar lugar às aventuras exóticas do arqueólogo aventureiro, suspeitamente parecido com o Han Solo. Sei bem o que estão a pensar neste momento: esta defesa de Indiana Jones e o Templo Perdido é um xarope de pura nostalgia. Depois deste parágrafo é legítimo que pensem que sim. Mas estou convencido que conseguirei providenciar argumentos sinceros para justificar a minha predileção deste filme sobre a sequela posterior, até porque também nesta há um elemento nostálgico a descontar visto que quando estreou em Setembro de 1989 em Portugal já tinha lido a novelização (N. do A.: bem sei que a palavra não existe mas não temos boa tradução para português de novelization) da Europa-América lançada umas semanas antes (com a capa entretanto plastificada, para não estragar) e, no Natal desse ano, acabei por receber o vinil de longa-duração da banda sonora original do John Williams, após localização estratégica do mesmo na lista de prendas desejadas.

Sei que não é uma tarefa fácil. É um filme impopular e o próprio Spielberg tem-se distanciado dele, atirando as (injustificadas, na minha opinião) culpas para o divórcio de George Lucas, que terá afetado a sua disposição e aguçado a vontade de fazer um filme mais “negro” que o original. Não ajuda que, para o argumento Lucas tenha contado com os amigos pessoais Willard Huyck e Gloria Katz, com quem tinha escrito o sucesso de bilheteiras American Graffiti: Nova Geração. O casal também tinha ajudado no polimento não creditado de alguns dos diálogos do argumento de Star Wars e viria a hipotecar praticamente a carreira, dois anos depois de Templo Perdido, com a infame produção de Lucas, Howard e o Destino do Mundo, um filme inacreditável, por variadíssimas razões – nem todas más – realizado por Huyck e que ficará para sempre na história como a primeira longa metragem que adaptou uma personagem da Marvel. E as primeiras críticas podem ser apontadas por aqui. Não só descartaram o elemento nazi, que a Grande Cruzada voltaria a recuperar na sua tentativa de fotocópia do original – mas falarei mais sobre isto mais à frente – como Templo Perdido é, tecnicamente, uma prequela de Os Salteadores da Arca Perdida, ocorrendo em 1935, um ano antes dos eventos do primeiro filme. O que muitos consideram uma fraqueza é no entanto uma decisão brilhante, na minha opinião, soltando a narrativa de qualquer amarra de continuidade, sendo ao mesmo tempo perfeitamente fiel ao espírito dos serials em que Lucas e Spielberg se haviam inspirado.

Vamos lidar imediatamente com o elefante no meio da sala (graçola perfeitamente intencional, visto ser um animal com forte presença no filme). Kate Capshaw é um downgrade em relação a Karen Allen. Onde antes tínhamos uma mulher cheia de recursos e personalidade, temos agora uma donzela em apuros que grita amiúde e a plenos pulmões. É verdade que o próprio argumento parece ter consciência do facto e endereça-o num diálogo humorístico, mas a grande mais-valia desta opção de casting foi mesmo para o realizador que encontrou em Capshaw a sua cara-metade com quem continua junto ainda hoje em dia. De resto tudo funciona em Templo Perdido. Sim, mesmo a presença de Ke Huy Quan como Minorca. Aos 8 anos representava o sonho de qualquer miúdo, poder ser o sidekick de Indiana Jones, e mesmo depois de adulto continua a ser para mim natural esta parceria. Com a narrativa a levar-nos de Hong-Kong a uma remota vila indiana, através de uma icónica sequência de fuga onde os nossos heróis passam de um avião descontrolado para um bote de borracha em processo de enchimento em pleno ar, estamos em paragens muito diferentes nesta aventura que leva o arqueólogo a infiltrar-se num culto Thuggee procurando libertar crianças feitas escravas e, pelo caminho, quem sabe encontrar as míticas Pedras de Sankara, artefactos baseados no símbolo do Deus Hindu Shiva. Com uma ficção tecida a partir de factos históricos e crenças hindus, talvez menos conhecidos no ocidente, logo menos apreciados em comparação com os vilões da vida real em que os nazis se tornaram com a 2ª Guerra Mundial, Indiana Jones e o Templo Perdido permite-nos explorar elementos originais e refrescantes que, polémicas sobre a justeza do retrato à parte, nos dão a conhecer culturas e costumes que não estamos habituados a ver retratados no cinema.

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Narrativamente assistimos imediatamente na abertura do filme a uma cena de ação, muito ao estilo de James Bond, onde a conclusão de uma aventura prévia nos catapulta para a história central do filme, neste caso reunindo as personagens de Willie (Kate Capshaw), uma cantora de nightclub, e Minorca (Ke Huy Quan), um rapaz de doze anos que, pelo relacionamento que demonstra ter com Indiana Jones, aparenta ser um velho conhecido do arqueólogo. Depois da emocionante cena de abertura, com a “aterragem” forçada na Índia, o tom torna-se efetivamente mais “negro”. Ao final de contas a premissa da missão é o salvamento da totalidade das crianças de uma aldeia às mãos da escravatura às mãos dos Thuggee , e do seu líder, Mola Ram. Pelo caminho, e num movimento muito Bondiano novamente, Indiana e os seus companheiros são recebidos no palácio de Pankot pelos vilões que apresentam uma fachada de civilidade e hospitalidade que resulta numa das cenas polémicas do filme: o jantar. Enquanto Indiana Jones tem uma conversa com o jovem Marajá Zalim Singh, com o primeiro ministro do palácio, Chattar Lal e com o capitão britânico Blumburtt, Willie e Minorca são presenteados com um festim de alimentos exóticos como escaravelhos, serpentes recheadas de enguias vivas, sopas de olhos ou miolos de macaco servidos no seu recipiente original. Se é verdade que o retrato é exagerado para efeitos cómicos, também há que ter em consideração que o universo não pretende retratar nenhuma realidade factual e, em 1984, ano de produção do filme, não se viviam tempos tão politicamente corretos e sensíveis como os que se vivem hoje em dia.

A verdade é que a violência da cena central do filme, um ritual macabro em que Mola Ram tira o coração com as próprias mãos a um sacrifício humano, cena que me deu muitos pesadelos, veio ela própria redefinir o panorama das classificações etárias nos EUA, contribuindo para uma alteração cultural significativa. Em conjunto com a intensidade de Gremlins – O Pequeno Monstro, também produzido no mesmo ano por Steven Spielberg, Indiana Jones e o Templo Perdido obrigou a MPAA a criar uma nova classificação etária PG-13, garantindo que crianças com menos de treze anos não pudessem entrar na sala de cinema – bendito relaxamento nacional na educação das suas crianças! Não menos importante o facto que Indiana Jones é enfeitiçado por Mola Ram e se torna num vilão. Se para um adulto é fácil digerir esse facto, para uma criança ver o herói da história virar-se para o lado “negro” é positivamente assustador. E é aqui que volta a ser relevante a presença de Minorca. Um herói não é ninguém sem aliados e amigos e é Minorca que o salva do seu estado, no virar para o terceiro acto de tirar o fôlego com duas – repito, duas – cenas icónicas só na sequência final: a nunca ultrapassada perseguição no sistema de carris da mina subterrânea, com trocas de carros, pessoas penduradas sobre lava e saltos entre linhas inacabadas, e a cena da ponte de corda onde Indiana Jones, beneficiando do facto que partilha uma língua exclusivamente com Minorca, lhe transmite a pretensão de sair da situação encurralada em que se encontra, cortando a ponte com a catana que empunha.

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Indiana Jones e a Grande Cruzada aparenta ser melhor que Indiana Jones e o Templo Perdido mas o que parece um suposto regresso à forma do original é uma falácia que encobre o facto de que é, na realidade, uma cópia da fórmula do mesmo. Não quero ser mal entendido, a Grande Cruzada é, por qualquer padrão, um excelente filme. Mas onde Templo Perdido é original, aquele é familiar. Onde Templo perdido é audacioso, aquele é conservador. Estamos de volta ao imaginário nazi e aos artefactos religiosos cristãos, reproduzindo a fórmula original. A mais valia de a Grande Cruzada é a introdução de Sean Connery como pai do herói. A sua relação enquadra de forma inesperada a imagem que temos de Indiana Jones. Mas há, com a cena inicial, e com o seu investimento pessoal na demanda, uma vontade desnecessária de canonização da personagem. Que se queira fazer isso às custas da integridade de personagens como Sallah (John Rhys-Davies) ou Marcus Brody (Denholm Elliott), tornados em sidekicks cómicos desrespeitando as suas personalidades originais, é que nunca consegui entender. Em Templo Perdido o humor era um contraponto bem medido ao negrume, mas em a Grande Cruzada parece o cumprir de um caderno de encargos inorgânico às personagens e à narrativa. Mesmo as melhores cenas de a Grande Cruzada não conseguem ombrear com as icónicas cenas de Templo Perdido, incluindo a cena de assinatura envolvendo animais em massa. O que é mais evocativo, caro leitor, os ratos nos canais subterrâneos de Veneza, ou a sala com os espigões onde Indiana Jones se vê aprisionado na companhia de Minorca, enquanto Willie coloca relutantemente a mão no buraco da alavanca coberta de insetos?

Sei que é uma pergunta arriscada. Possivelmente a maior parte de vós não dará a resposta certa, mas pessoalmente, e suprimindo o mais possível o fator nostálgico, continuo a gostar mais do rumo para onde Indiana Jones e o Templo Perdido apontava. Talvez se em 1989 Lucas e Spielberg tivessem tido a coragem de se afastar do imaginário do primeiro filme e tivessem arriscado numa história original, como o fizeram mais tarde no consensualmente menor Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, tivéssemos tido a oportunidade de ter mais um Indiana Jones de exceção. Assim tivemos apenas mais um excelente filme que não conseguiu, no entanto, destronar Indiana Jones e o Templo Perdido como a melhor sequela de Os Salteadores da Arca Perdida.

 

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