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Entrevista | Luís Filipe Rocha

Luís Filipe Rocha

A propósito da estreia de ‘Cinzento e Negro’, a Take entrevistou Luís Filipe Rocha, realizador de ‘Adeus, Pai’ e ‘Outra Margem’. O filme conta já com vários prémios em diversos festivais de cinema, incluindo Melhor Longa-Metragem, Melhor Realização, Melhor Argumento, Melhor Atriz Principal, Melhor Ator, Melhor Fotografia e Melhor Banda Sonora Original.

 


‘Cinzento e Negro’ foi apresentado em Montreal, São Paulo e Figueira da Foz, como tem sido a recepção ao filme, e que comentários gostaria de destacar?

A minha principal preocupação com cada filme centra-se na capacidade de comunicação que ele possa conter, ou não, para se relacionar individualmente com cada espectador. É a qualidade da relação com cada espectador, com cada ser humano, o que me preocupa e o que procuro.

Com Cinzento e Negro, as reacções têm sido muito positivas: por um lado, o filme ganhou 8 prémios; por outro lado, os debates com os espectadores, quer em Montreal, quer em Portugal, foram muito vivos e transmitiram-me um genuíno interesse e até entusiasmo pelo filme. Os debates com os espectadores são sempre muito importantes para mim, porque neles se revela, individualmente, a capacidade ou a incapacidade de comunicação do filme com o espectador. Além de Montreal, Figueira da Foz e Coimbra, o filme também foi apresentado nos Açores, no Faial e no Pico. E em todos esses lugares as reacções foram muito boas e muito recompensadoras.

Com referência a Raul Brandão, o título do filme chega-nos como uma descrição da paisagem vulcânica dos Açores. Quer-me parecer que se refere também a algo de “cinzento e negro” (por contraste com o vulgar “preto e branco”) nos personagens.

O título do filme vem literalmente da frase do Raul Brandão que abre o filme, que descreve poeticamente a matéria vulcânica de que é feita a Ilha do Pico. A analogia é directa, porque penso que na alma e no coração das mulheres e dos homens também encontramos essa ígnea e eruptiva matéria, e porque a natureza humana é anterior à moral.

Pode-se interpretar no título uma certa amoralidade que leva cada qual a seguir motivações egoístas sem uma clara linha entre bem e mal?

Não se trata de amoralidade sobre os actos e comportamentos das personagens, mas sim de uma suspensão do juízo moral. Penso mesmo que a suspensão do juízo moral é o terreno próprio da ficção, porque nos permite sondar mais fundo a alma e a existência humanas sem pré-conceitos. Kundera afirma que «Suspender o juízo moral não é a imoralidade do romance, é a sua moral.» E eu estou de acordo: não compete à arte e, em particular, à ficção, definir moralmente o bem e o mal; isso é a tarefa dos moralistas, prosélitos e legisladores. As personagens de um filme ou de um romance não agem por razões morais: agem, sobretudo, por razões humanas. E estas, como sabemos, comportam em doses semelhantes e homeopáticas o bem e o mal. O que move as personagens não é a moral: são as emoções, os sentimentos e as paixões, a fúria e a obsessão. Ao suspender o juízo moral sobre os actos das personagens ofereço a cada espectador a liberdade individual de poder pensar «moralmente» sobre a história que lhe conto e de a julgar por si próprio, se entender dever fazê-lo.

Vê essa «suspensão do juízo moral» como produto do nosso tempo, ou esta história poderia ter sido contada há décadas ou séculos atrás?

Antes de escrever, revisitei as Tragédias Gregas, para mim ainda hoje o instrumento mais eficaz de investigação e decifração da alma e da vida humanas. Aquilo a que chama «amoralidade», e a que eu prefiro chamar «matéria vulcânica», é constitutiva nas Tragédias Gregas. Como é em muitas das estórias do Antigo Testamento, das grandes sagas antigas, etc. A frase com que gosto de resumir o filme — «traição, roubo e fuga; perseguição e vingança» — sintetiza há milénios muitas das narrativas humanas. Esta história conta-se hoje porque é intemporal.

Já em ‘Adeus Pai’, os Açores surgem como um destino, uma tentativa de ligação a algo que se irá perder. Agora os Açores são um sonho de fuga para o isolamento. Sentiu o papel da paisagem açoriana como necessário para definir o distanciamento e isolamento que a história nos transmite?

Em Adeus Pai, os Açores ofereceram-me a ambiência mágica, onírica e paradisíaca que o encontro sonhado entre filho e pai convocava. Em Cinzento e Negro, foi completamente diferente: desde que comecei a escrever o filme que os Açores protagonizaram a quinta Personagem do filme, porque os seus magmas viscosos têm dado origem a erupções muito violentas e porque a Ilha do Pico é um palco único para o desenrolar e desenlaçar de uma tragédia. Se não pudesse filmar onde filmei, teria preferido não fazer o filme.

Há em todos os personagens algo de rude (diria mesmo antipático), e muito de solitário. Vê essas características como que espelhadas pela tal paisagem vulcânica e imensa que nos dá a ver nos lindíssimos planos do Pico?

A rudeza e a solidão de cada personagem têm a ver, em primeiro lugar, com o ser e a circunstância de cada uma delas: como «são» e o que estão «a viver» quando as conhecemos. Não apenas o Pico, mas também o Faial e Lisboa, por um certo «vazio» criado deliberadamente à volta das quatro personagens, são filmados como «espelho» e como «palco» do tumulto interior que habita cada personagem. Mas o mais importante é obviamente a criação de cada um dos quatro actores. Não podemos falar das personagens, das suas características e das suas vidas imaginadas, do que as rodeia e motiva, sem começar e acabar a falar no trabalho criativo dos actores, que é neste filme obviamente central.

A solidão parece-me quase que um tema recorrente dos seus filmes. Desde ‘Cerromaior’, onde o protagonista é claramente um homem distante de tudo o que tem à volta, até ao mais recente ‘A Outra Margem’, onde estilos de vida e condicionamentos humanos criam solidões forçadas. Pensa que essa solidão, evidente em todos os personagens de ‘Cinzento e Negro’, é característica inerente ao homem? Concorda tratar-se de uma tendência que explora nos seus personagens?

A solidão humana é de facto um dos meus temas recorrentes. Acredito que no fundo, apesar da amizade e do amor, a solidão é o que nos momentos decisivos e marcantes da nossa vida nós mais sentimos e sofremos. Agradeço-lhe a lembrança do Cerromaior, filme em que a solidão como que transpira das personagens, da comunidade e da natureza, mas lembro que a minha primeira longa-metragem, A Fuga, pelo seu próprio tema e «paisagem» central – a prisão – instaura desde o princípio dos meus filmes a temática da solidão.

Em geral, nos seus filmes, a música surge de modo pontual, mas marcante. Pode falar-nos do modo como vê o papel da música na sua obra cinematográfica?

Sempre considerei a música como mais uma «Personagem» dos meus filmes, com voz e vida próprias, paralelas e independentes das vozes e das vidas das outras personagens, compondo com elas todas as vertentes e variantes da narrativa. Até hoje trabalhei muito bem com os autores musicais porque sempre os escolhi com o mesmo cuidado e exigência com que escolho os actores, e sempre lhes ofereci a mesma individualidade criativa que ofereço aos actores na composição das personagens.

No caso do Cinzento e Negro o encontro e o trabalho com o Mário Laginha foram exaltantes para mim e decisivos para o filme. A forma como ele viu, entendeu e sentiu o filme, criando a sua música e integrando-a tão maravilhosamente no fluir da narrativa foi artisticamente uma experiência mágica e inesquecível.

Estamos num momento em que alguns filmes portugueses, ditos mais populares, conseguiram recentemente excelentes resultados comerciais. Ao mesmo tempo, o chamado cinema de autor continua a ter alguns realizadores elogiados no estrangeiro (por exemplo Pedro Costa, Miguel Gomes, João Salaviza). Como vê o cinema português actual entre esses dois pólos? Pode-se falar de um mercado nascente? De maior receptividade do público?

Faço cinema em Portugal há mais de 40 anos. Já vi (e passei por) bons e maus momentos, quer de capacidade produtiva quer de relacionamento com o público. Para lhe dar um exemplo: em 1981, nas 4 salas do Quarteto (creio que o primeiro mutissalas em Portugal) os dois filmes que, lado a lado, esgotavam salas eram portugueses: Kilas, o Mau da Fita e Cerromaior. Houve ao longo das últimas décadas significativos «sucessos» de público, mas nenhum deles, nem eles todos juntos criaram um «mercado» para o cinema português. A dicotomia comércio/arte não tem solução no cinema nacional porque não existe mercado, e sem mercado não existe indústria, e sem indústria não se sai da subsidiodependência e com esta não se sai dos amiguismos e das influências. Não é com pontuais resultados «comerciais» que se cria um mercado para o cinema português. Muito menos um «público».

A seu ver, o que falta ainda para que exista um verdadeiro cinema português, que toque o nosso público e o leve aos cinemas, identificando-se mais com os nossos autores? É apenas uma questão de falta de financiamento por parte do Estado? Há falta de diálogo/empatia entre autores e público? Está o público demasiado formatado a outros tipos de linguagem?

Falta «inscrever» o cinema português como uma «necessidade cultural» do povo português. E isso, em meu entender, não vai ser nunca possível enquanto se pensar apenas em «cultura» ou «comércio», esquecendo a Educação (que só ela pode criar novos públicos) e a Economia (que só ela pode encarar de frente o futuro e a importância da dinamização das indústrias culturais e artísticas).

O que o motiva, neste momento, a procurar contar uma história por imagens? Apenas o prazer de filmar, ou o transmitir de mensagens e ideias que julgue serem necessárias no nosso cinema?

Faço filmes porque o desejo de contar histórias e de com elas comunicar humanamente com outros seres humanos é um desejo profundo, antigo e, em mim, difícil de recusar. A arte é a mais completa, complexa e profunda forma de comunicação entre os seres humanos. Não pretendo transmitir mensagens nem expor ideias com os meus filmes, apenas procuro contar bem boas histórias. Não acredito que o cinema possa mudar o mundo. Pode, no limite, interpelar-me a mim e a alguns espectadores, propondo-nos temas e narrativas, personagens e situações, suficientemente fortes e emocionantes, comoventes e interessantes que nos levem a auto-questionarmos as nossas ideias e certezas, os nossos preconceitos e idiossincrasias.

Leia a crítica ao filme em http://take.com.pt/cinzento-e-negro/

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