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O bom, a lenda e o vilão | À conversa com as estrelas de The Walking Dead

O bom, a lenda e o vilão | À conversa com as estrelas de The Walking Dead© by FOX Networks Group Portugal

The Walking Dead é um fenómeno de popularidade que trouxe para junto do grande público o fenómeno dos zombies celebrizados por George A. Romero, normalizando a ameaça dos mortos-vivos e expondo a verdadeira natureza do Homem. No âmbito da digressão promocional à Europa a Take conversou com Jeffrey Dean Morgan, Norman Reedus e Greg Nicotero no Hotel Ritz. Se não estão a par com a série cuidado com os spoilers.

 

No princípio foi o Apocalipse


Em 2010
The Walking Dead estreou discretamente nas televisões de todo o mundo. Adaptado das páginas da banda desenhada de Robert Kirkman, Tony Moore e Charlie Adlard partia de uma premissa suspeitamente semelhante a 28 Dias Depois, o filme de 2002 de Danny Boyle, para nos oferecer uma dose semanal de tensão, suspense e gore em doses inusitadas para uma série televisiva. O virar do milénio viu um conjunto de filmes juntarem-se ao título de Boyle numa revitalização do género que, de certa forma, lançaram as bases para a existência de The Walking Dead: além de O Renascer dos Mortos – o remake de Zack Snyder para Zombie, a Maldição dos Mortos-Vivos de George A. Romero – e Shaun of the Dead – a brilhante homenagem de Simon Pegg e Edgar Wright ao género – contam-se também títulos como a sequela 28 Semanas Depois, Resident Evil ou Bem-vindo à Zombieland.

Apesar ser um fenómeno mundial de popularidade à passagem pela sétima temporada, The Walking Dead esteve longe de ser um sucesso garantido à partida. Houve mesmo quem lhe anunciasse a morte depois de alguns sobressaltos no começo da segunda temporada, incluindo a saída do produtor, argumentista e realizador responsável pelo desenvolvimento da série Frank Darabont. Apesar desta saída, da entrada de novos argumentistas, e de duas alterações de showrunner no entretanto, uma das peças vitais para a estética da série, e do crescimento continuado do seu sucesso, já estava presente desde o primeiro dia: Greg Nicotero.

 

O bom, a lenda e o vilão | À conversa com as estrelas de The Walking Dead
Um mago dos efeitos especiais ao leme


Tendo crescido a vinte minutos do cemitério de
A Noite dos Mortos-Vivos Greg Nicotero tornou-se um dos nomes norte-americanos mais conceituados dos efeitos especiais de caracterização sobre a tutelagem de Tom Savini e de Mark Shostrom. Nicotero começou a sua carreira em 1985 no terceiro capítulo da saga dos zombies da lenda George A. Romero, O Dia dos Mortos, e viria a ser responsável por uma série interminável de títulos clássicos como A Morte Chega de Madrugada, Misery – O Capítulo Final, O Exército das Trevas, A Bíblia de Satanás, Aberto Até de Madrugada, The Mist – Nevoeiro Misterioso ou Sacanas Sem Lei.

À segunda temporada acrescentou a função de realizador aos seus cargos de produtor executivo e responsável pelos efeitos de caracterização. E pelos vistos está de corpo e alma na série pois acredita que The Walking Dead possa durar “mais cem temporadas”, se bem que logo de seguida faz o reparo que isso “parece muito trabalho”. A sua vasta experiência a elaborar efeitos especiais nos filmes de George A. Romero e Frank Darabont levaram-no a filmar planos de detalhe e close ups de efeitos específicos. Nicotero explica: “Assim, fui realizador de segunda unidade em A Terra dos Mortos, The Mist – Nevoeiro Misterioso, Mistério na Faculdade de Robert Rodriguez, e em muitos outros filmes. Houve um período em que viajava muito. Fiz Sacanas Sem Lei, Predadores, Piranha, por isso andava pelo mundo fora quando tive a chamada do Frank [Darabont] a dizer que tínhamos a luz verde para The Walking Dead, pois tínhamos desenvolvido alguns visuais para zombies para a série cerca de um ano antes, e eu realizei uma curta metragem, um pequeno filme de monstros engraçado e campy. Fomos filmar a primeira temporada e, tem graça porque na Comic Con dei um DVD ao Charlie Collier [Presidente e General Manager da AMC e SundanceTV] e disse-lhe ‘Todos os Outubros vocês fazem o FearFest, gostava que mostrassem o meu filme’. Foi como aquele momento em que tens uma banda e dás um CD ao produtor discográfico! Eles passaram o filme e o Frank e eu demos uma mão cheia de entrevistas onde falámos sobre o filme. Quando chegámos à segunda temporada o Frank perguntou-me se queria realizar um episódio. E isso foi há 20 episódios atrás. É curioso que nunca me dão os episódios fáceis”.

Um dos episódios difíceis que Greg Nicotero realizou foi o primeiro episódio da sétima temporada, a que estamos a ver agora, onde finalmente conhecemos o vilão Negan e onde duas personagens acarinhadas pelos fãs encontraram o seu trágico destino. “Havia muita pressão. Sabendo que era a introdução de uma personagem como o Negan. Esta é uma personagem que toma o foco em todas as cenas em que participa. Mais ninguém fala quando o Negan está presente. Ele fala por todos. E o Jeffrey foi impecável. Nunca tive um momento de dúvida de que tínhamos o melhor ator para o papel, mas se olharmos para trás vamos ver que foi lindo, requintado, perigoso, encantador e sedutor. Houve tantas nuances que o Jeffrey ofereceu àquele momento que observei fascinado, do ponto de vista da realização. Mas claro que também tenho de pensar nos aspetos técnicos. Como é que vou configurar a morte do Glenn? Como é que vou configurar a morte do Abraham? Como é que vou configurar a cena para que a tensão funcione até ao momento exato? Mas foi duro. Usei cinco câmaras para fazermos poucas tomadas e para que conseguíssemos a maior cobertura possível [mas depois da filmagem na primeira noite], OK temos de repetir tudo outra vez. E assim fizeram, ajoelharam-se e filmámos uma e outra vez ao longo de dois dias. Por isso foi emocional e esgotante também para os atores”.

Aquilo que era chocante há cinquenta anos atrás é agora uma nota de rodapé. Os efeitos especiais de The Walking Dead são matreiramente gráficos e inventivos. Nicotero explica-nos que “todas as caracterizações são efeitos práticos. Muitas vezes os esguichos de sangue são uma combinação de efeitos práticos e digitais. Esta opção decorre da necessidade de cumprir os calendários de filmagens. Não temos o luxo de fazer uma tomada em que se explode uma cabeça para depois ter de limpar o sangue todo para a próxima tomada. Não temos muito tempo para fazer esse tipo de coisas. Por isso temos de fazer muitos desses efeitos digitalmente, porque não temos os quinze minutos extras que seriam precisos para fazer isso”.

Mas porque é que o mainstream agora aceita o terror gráfico anteriormente confinado a nichos? “Penso que tem muito que ver com jogos de vídeo. Em 1977, e depois durante a década de oitenta, filmes como Zombie, a Maldição dos Mortos-Vivos e O Dia dos Mortos tinham um seguimento de culto porque eram filmes chocantes na altura. O Massacre no Texas ou Sexta-Feira, 13 faziam parte de um movimento de cinema chocante. Depois em meados da década de noventa tivemos Resident Evil e House of the Dead. Assim que se transformou o género zombie num jogo de first-person-shooter abriu-se a toda uma nova geração de miúdos. E esses miúdos podiam matar zombies! Assim, aquilo que eu adorava estava a começar a chegar a todas as pessoas. Depois Resident Evil foi adaptado ao cinema, 28 Dias Depois – grande filme! – e depois a coisa disparou. Shaun of the Dead, um dos meus favoritos. O género foi assim revigorado, e depois com The Walking Dead chegou inesperadamente a uma audiência ainda mais alargada.”

 

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Um anti-herói relutante


Tal como acontece em
A Guerra dos Tronos também The Walking Dead parte do material de base para depois se desviar e construir as suas próprias narrativas, escolhendo situações específicas para adaptar, mesmo que num contexto diferente do original. Um dos maiores beneficiários desta falta de fidelidade na adaptação dos textos de Robert Kirkman é a personagem de Daryl Dixon interpretada por Norman Reedus. Daryl não existia originalmente nos livros de Kirkman e foi criada exclusivamente para a série por Frank Darabont em conjunto com os argumentistas Charles H. Eglee e Jack LoGiudice, num papel feito à medida para o seu ator. A ideia de que a personagem poderia ser gay foi contemplada pela equipa criativa, mas com a saída de Darabont morreu ali mesmo.

Antes da sua participação na série Reedus era conhecido pelo díptico do ex-futuro-prodígio Troy Duffy, O Próximo a Abater, e pela sua colaboração com Guillermo Del Toro na subvalorizada obra-prima das adaptações de banda desenhada para o cinema Blade II, onde dava nas vistas no papel do traiçoeiro Scud. Em The Walking Dead, apesar do passado duvidoso de Daryl, a sua a popularidade transformou-o numa personagem do elenco central e, apesar de ninguém estar a salvo no universo da série, até hoje tem sobrevivido à carnificina. Questionado se Daryl seria uma boa pessoa no caso de o apocalipse zombie não ter acontecido Reedus é perentório: “Acredito absolutamente que não, ter-se-ia tornado igual ao seu irmão. Ele dava-se com pessoas horríveis que faziam coisas horríveis. É interessante pois na primeira temporada escreveu-se um argumento onde o Daryl tomava drogas, o que eu compreendo, mas lutei para não incluir esse elemento. O Daryl andava como o irmão Merle mas acredito que ele não se sentia confortável na própria pele. Ambicionava mais. Havia um raio de esperança para ele, mas não lhe era dada a oportunidade de brilhar. Mas como este desastre apocalíptico aconteceu e viu-se forçado a dar-se com estas pessoas, com quem nunca se daria de outra forma, isso deu-lhe a oportunidade de crescer e tornar-se um homem. E agora olha-te nos olhos e diz o que pensa. Mas se isto não tem acontecido acho que seria um homem mau. Relutantemente, mas mau na mesma”.

Aparentemente Daryl partilha a sua frontalidade com o ator que o encarna. Perante uma pergunta dissoluta que procurava arrancar de Jeffrey Dean Morgan uma descrição da sensação de poder que sente ao brandir o seu bastão mortífero, afirmando que Negan “não é só um lançador, mas também um atirador” Reedus exclama “o que queres dizer com ‘só um lançador’? Qual é o teu problema?”. Talvez por causa do sofrimento de Daryl durante a temporada corrente Reedus esteja mais sensível à relação complicada entre o frisson da violência e o valor da vida e da dignidade. “Depois daquele brutal primeiro episódio [da sétima temporada], quando Daryl foi feito prisioneiro, ele sentia que merecia estar ali. Não ripostou, deixou que tudo acontecesse e sentia uma culpa enorme. Foi quando colocaram a foto do Glenn na parede que o Daryl pensou que ele não quereria que o Daryl acabasse nesta situação e então começa a lutar pela sua memória e pela honra de todos os que ama. É por causa daquelas pessoas que o Daryl se transformou numa pessoa admirável e foi através daquelas pessoas que encontrou o seu valor. Nunca antes tinha tido pessoas a depender dele”.  

Daryl cresceu e tornou-se uma parte indispensável do grupo liderado por Rick. Mas será Daryl indispensável à série? Reedus afirma que “nenhum de nós se sente indispensável. Todos nós recebemos os argumentos e vamos logo para o final… whoo! Até o Rick. Penso que até o Rick pode morrer. Pode ir em qualquer direção, mas penso que é esse o objetivo. É como a vida real. Pensamos sempre que temos mais tempo com alguém. Além disso, se começássemos a pensar dessa forma, conhecendo o Kirkman como conheço, ele havia logo de mandar matar a personagem. Penso que nenhum de nós acredita que ficará ali para sempre, indestrutível”.

 

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O vilão para acabar com todos os vilões


A popularidade de
The Walking Dead não impede que a série seja alvo de inúmeras críticas, incluindo dos próprios fãs. Quem não gosta aponta o dedo à violência e à redundância narrativa, e mesmo quem gosta volta e meia partilha destas mesmas queixas. Para o melhor e para o pior a equipa criativa responsável pela série tira proveito do formato episódico para desenvolver tranquilamente as suas narrativas, bem como as suas personagens. E ao fim de sete anos o que assistimos é a uma nova ordem mundial onde os zombies são cada vez mais figurantes, e o menor dos problemas da realidade com que as personagens têm de lidar. O real perigo são os humanos encurralados pela experiência da sobrevivência a qualquer custo.

Mas como elevar a parada? Como superar os vilões anteriores da série? Depois de inúmeros rivais menores, e do marcante Governador, nada como apresentar no princípio da sétima temporada Negan, interpretado com gosto por Jeffrey Dean Morgan. Desta vez fiel à caracterização da personagem na banda desenhada, e aos eventos cozinhados por Kirkman, Negan aparece finalmente em cena numa das mais sangrentas, violentas e emocionalmente devastadoras horas de ficção alguma vez produzidas para televisão. Negan é uma personagem icónica que capturou imediatamente a imaginação dos fãs.

Líder pelo medo impõe-se e nega a personalidade e a individualidade de toda a gente que o rodeia. Morgan explica que é “uma forma de controlo que Negan exerce sobre os outros. Há uma razão para a sua sobrevivência e para o tipo de líder em que se tornou. Aprendeu várias técnicas, e uma delas é o despir as pessoas das suas identidades para funcionarem como uma unidade, e ainda mais importante, uma extensão de si próprio. Ele estava a tentar ajudar as pessoas a sobreviver, e como morreram porque não o escutaram definiu um conjunto de regras. Refinou-as e tornou-se nesta pessoa. Se fazes parte dos Salvadores és Negan. E se não fores levas com o ferro na cara, ou pior. Mas é por causa destas regras que muita gente sobreviveu durante este tempo todo. Há táticas brutais, mas se olharmos para todos os grupos sobreviventes, incluindo os heróis, a sua moralidade sofreu alterações e todas as pessoas fizeram coisas horríveis. Não creio que seja correto dizer que um é pior que o outro. Negan apenas tem um certo sentido de humor e carisma que é ocasionalmente cortante.”

Questionado como se preparou para estar à altura das expectativas dos fãs da personagem Morgan responde: “Aconteceu tudo muito depressa. Eu estava a meio das filmagens de The Good Wife quando Greg e Scott Gimple telefonaram-me e perguntaram-me se estaria interessado em fazer isto. Respondi imediatamente que sim, quero fazê-lo! E logo de seguida estava na Geórgia a sair daquela caravana. Aconteceu assim, mesmo depressa. E estou contente por não me ter preocupado com as expectativas de mais ninguém, a não ser as minhas próprias em não querer desapontar as pessoas que trabalham arduamente na série. Só comecei a pensar em todas as outras pessoas depois de ter filmado. Só quando cheguei à Georgia para o primeiro dia de filmagens é que me disseram que ia ser o Negan, e foi então que percebi que isto era muito maior do que tinha antecipado. Mas no período entre a gravação e a exibição do primeiro episódio é que comecei a sentir a pressão”.

Sobre esse infame primeiro episódio acrescenta “Confiei no Greg e vi o trabalho dos outros atores, ali de joelhos a chorarem, a darem tudo por tudo nas suas interpretações. Porque chegar e ter como introdução um monólogo de 12 páginas foi bastante difícil”.

Mas quais as origens de Negan? Morgan avança: “Kirkman lançou uma espécie de prequela [Morgan refere-se à mini-série Here’s Negan] sobre quem era o Negan. Ele era um homem casado. A sua mulher chamava-se Lucille. Tinha um caso amoroso. E a sua mulher foi diagnosticada com um cancro. Ele revelou o caso à mulher e acabou com ele, mas ela ficou furiosa. E ele estava no hospital quando se deu o apocalipse. Era um professor de educação física especializado em ping-pong, acredite-se ou não. Provavelmente era um pouco bully, e tinha queda para usar linguagem colorida, mas de muitas maneiras era um homem normal.”

Esse homem normal há muito que desapareceu e agora faz-se acompanhar por um taco de baseball decorado com arame farpado a que colocou o nome da mulher. “O taco de baseball ajuda-me imenso como ator. No instante em que o tenho nas mãos encarno o personagem. O casaco de cabedal e o taco ajudam-me imenso a transformar-me do brincalhão Jeff com que estão a falar agora para a força intimidatória que é o Negan.”

 

O futuro


Questionado sobre o rumo da temporada atual Nicotero explica que “
tradicionalmente passamos a primeira parte da temporada a construir as fundações para onde a história se dirige. Sott Gimple, o showrunner, faz questão que as personagens tenham um princípio, meio e fim para as suas histórias. É por isso que temos oportunidade de acompanhar a Tara, a Maggie e a Sasha – temos um grande elenco de personagens. Assim a nossa propulsão para o fim da temporada está a ganhar embalo e gosto que o Rick esteja a construir o seu exército. Cada pessoa que ele encontra é um soldado”. Insatisfeito com a resposta o fã que há dentro do inquiridor insiste em saber o que o futuro da série nos reserva. “No comments. Não vos queremos estragar as surpresas”.

Parece que vamos ter de esperar para saber quem morre e quando. Uma coisa é certa. No deve e no haver das mortes que se sucedem no infindável ciclo de vingança, tanto os heróis como os vilões de The Walking Dead percorrem um caminho sem retorno em direção ao abismo. E enquanto a popularidade da série perdurar seremos confrontados todas as semanas com a confirmação deprimente que a Humanidade se vai equilibrando de forma instável num ténue e decadente manto de civilidade.

O bom, a lenda e o vilão | À conversa com as estrelas de The Walking Dead

Créditos fotográficos: FOX Networks Group Portugal

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