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A Múmia

de Alex Kurtzman

mau

Seguindo a moda dos «universos partilhados» popularizados no grande ecrã pelas aventuras cinematográficas dos super-heróis da banda-desenhada, A Múmia é a primeira incursão da Universal Pictures no «Universo Negro», uma tentativa de actualizar o seu legado clássico de monstros num contexto moderno de cinema personalizado para o grande público.

 

Entre as décadas vinte e cinquenta do século passado, a Universal Pictures produziu uma série de filmes que popularizou figuras monstruosas, adaptando-as das páginas de seminais obras de literatura e dando a conhecer às suas audiências alguns nomes de autores importantes como Mary Shelley, Bram Stoker, Edgar Allan Poe ou H. G. Wells. Com o passar do tempo, realizadores como Tod Browning ou James Whale foram reconhecidos pelo seu contributo para a definição da estética e da mitologia do que se veio a designar como «Monstros da Universal», mas as verdadeiras estrelas destes filmes eram os seus actores, ainda hoje lembrados pelos seus retratos de personagens tortuosas que instilavam medo e comiseração em iguais doses. Lon Chaney, o pioneiro com transfigurações inesquecíveis em Quasimodo, o corcunda de Notre Dame em Nossa Senhora de Paris (1923) e o fantasma em O Fantasma da Ópera (1925); Bela Lugosi, o refinado conde Dracula em Drácula (1931); Boris Karloff, o icónico monstro de Frankestein em Frankenstein, o Homem Que Criou o Monstro (1931) e em muitas das suas sequelas; Claude Rains, o diáfano cientista em O Homem Invisível (1933); ou Lon Chaney, Jr. como o torturado lobisomem de uma série de filmes iniciada em O Homem Lobo (1941).

Em 1932, Boris Karloff encarnou A Múmia, a partir de uma história original de Nina Wilcox Putnam e Richard Schayer. O filme de Karl Freund adicionou à galeria de monstros a reincarnação mumificada de Im-Ho-Tep, um ancestral príncipe egípcio recuperado numa expedição arqueológica, que persegue Helen (Zita Johann), crendo ser a reincarnação da sua amada princesa Ankh-es-en-amon. Durante a década seguinte produziram-se quatro sequelas (com Lon Chaney, Jr. a encarnar a múmia em três delas), tendo a ameaça egípcia retornado em 1955 com Abbott e Costello e a Múmia, um título de uma série de filmes onde a produtora tentava capitalizar os sustos dos seus monstros com as gargalhadas do seu dueto de comediantes Abbot e Costello, num dos primeiros exemplos de cruzamento de propriedades. Findada esta época de ouro, só muito timidamente tem a Universal voltado ao poço para saciar a sede de emoções fortes com o seu catálogo de criações monstruosas. O mais perto que chegou foi precisamente a versão de A Múmia realizada em 1999 por Stephen Sommers que lançou Brandan Fraser e Rachel Weisz numa aventura de sabor clássico que recuperava a premissa do original. No entanto, as sequelas de qualidade inferior, e o tiro no pé que foi Van Helsing (2004), do mesmo Sommers, seguido dos decepcionantes O Lobisomem (Joe Johnston, 2010) e Drácula: A História Desconhecida (Gary Shore, 2014), arrefeceram o ímpeto de um regresso completo a este universo.

«Universo» é a palavra chave que explica a mais recente estreia de A Múmia. Seguindo o sucesso planetário do «Universo Cinematográfico Marvel», onde todas as personagens partilham o mesmo universo (lá está), e podem partilhar narrativas e aventuras em diferentes títulos, a Universal decidiu apostar em grande e criar o «Universo Negro», aplicando o mesmo conceito para trazer de novo ao grande ecrã os seus monstros clássicos. Ainda antes da estreia de A Múmia, com a megaestrela Tom Cruise no principal papel, secundado por Sofia Boutella e Russel Crowe, e de se conhecerem as reacções da crítica e os resultados de bilheteira, foram anunciados os planos para a produção de A Noiva de Frankenstein (o único título com estreia já planeada — para Fevereiro de 2019), O Homem Invisível e Frankenstein, com Angelina Jolie, Johnny Depp e Javier Bardem nos principais papéis, respectivamente. E assim vai o estado do cinema comercial norte-americano. Filmes planeados cinicamente, com audiências adolescentes em mente, constituídos por narrativas em aberto mais preocupadas em preparar novos títulos do que em contar uma história satisfatória. É a vitória da experiência televisiva serializada sobre a experiência cinematográfica. Da narrativa sobre a estética, da acção sobre a caracterização de personagens, e da velocidade sobre o tom.

Mas estou-me a adiantar. No antigo Egito, a princesa Ahmanet (Sofia Boutella) é a sucessora do seu pai Menehptre. Quando a segunda esposa do faraó dá à luz um filho, Ahmanet perde o direito ao trono. Determinada a reivindica-lo para si mesma, vende sua alma ao Deus Set. Depois de matar a família, Ahmanet tenta sacrificar o seu amante com uma adaga especial para conferir a Set uma forma física, mas os sacerdotes do seu pai matam-no e mumificam a princesa, condenando-a a ser sepultada viva por toda a eternidade. Um dos primeiros sinais de alerta é que aprendemos tudo isto através de uma analepse no princípio do filme, muleta da praxe das narrativas modernas. Apesar de encontrarmos os veteranos David Koepp e Christopher McQuarrie na assinatura do argumento (em conjunto com Dylan Kussman), o desenvolvimento narrativo de A Múmia sofre dos mesmos males que assolam os filmes mais genéricos e banais, incluindo uma queda para fazer depender a progressão narrativa de espectaculares cenas de acção, o uso em excesso de cenas de exposição, e um défice de caracterização de personagens e de momentos significativos entre elas.

Um dos exemplos é a descoberta do túmulo de Ahmanet por Nick (Tom Cruise) e Chris (Jake Johnson), no meio de um tiroteio encenado frivolamente por Alex Kurtzman (habitualmente argumentista, aqui com a realização do seu primeiro blockbuster) onde os anti-heróis saqueadores gracejam no meio de saraivadas de balas sobre a possibilidade de estarem às portas da morte. Chris existe quase exclusivamente para uma homenagem descarada a Um Lobisomem Americano em Londres (John Landis, 1981), e os talentos de Jake Johnson poderiam ter sido aproveitados, não estivessem ao serviço de um filme completamente desprovido de sentido de humor. Tom Cruise, normalmente um dos melhores elementos dos filmes que interpreta, parece estar aqui em piloto-automático, encarnando um herói acidental que faz ter saudades dos heróis de barba rija e moral bem definida de outros tempos. Apesar do seu carácter ser a base para uma reviravolta final (que não vou aqui estragar), Nick é outro dos elementos que reflectem a abordagem superficial deste arranque do «Universo Negro», com o ponto baixo a ser provavelmente a cena em que, em conversa com Jenny (Annabelle Wallis) é corrigido por ela quando usa designações erradas da sua área de especialidade, apenas para lhe dizer que não está interessado em termos técnicos de arqueologia, servindo como avatar do público que os autores imaginaram em maioria nas salas de cinema. Livrem-nos os deuses egípcios de antigamente de serem desafiados com palavras difíceis! Outro exemplo é a personagem de Russell Crowe, sobre a qual também nada vou adiantar, a não ser para constatar que serve como máquina expositora de informação essencial(?) à compreensão da história, e como dispositivo narrativo que propulsiona o terceiro acto do filme e que promete Crowe como um elemento central nos futuros títulos deste universo.

A Múmia é um filme negro. Literalmente. É pena que as suas muitas cenas mal iluminadas não se traduzam também em termos de tom. Apesar da aposta da Universal e do envolvimento do Tom Cruise (ou por causa deste), parece mais uma variante dos filmes de acção de maior sucesso da sua estrela do que uma tentativa honesta para recuperar o espírito que deu fama à sua produtora. Desta feita, apenas recuperaram o título e produziram um filme de acção genérico (algures, não me lembro onde, chamaram-lhe apropriadamente Mummy: Impossible) que só assombrará os sonhos dos espectadores mais novos ou daqueles para quem o cinema é apenas uma óptima e refrescante companhia para o gigante saco de pipocas que se compra à entrada da sala de espectáculos.

Resumo da crítica

Summary

Um primeiro passo tremido na grande aposta da Universal de recuperar o seu legado «monstruoso». Apesar do envolvimento de Tom Cruise, A Múmia é um genérico filme de acção com todos os defeitos dos actuais blockbusters, incluindo o pecado de poupar o espectador a uma narrativa desafiante e inteligente.

Classificação

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
2 10 mau

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