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A Bela e o Monstro

de Bill Condon

mediano

Com Emma Watson a vestir-se de princesa Disney, a mais mítica das produtoras de cinema de animação volta a adaptar um dos seus clássicos a actores de carne e osso, no celebrizado musical romântico A Bela e o Monstro.

 

Sempre que um remake surge no cinema, põe-se a questão da necessidade da sua existência. Trata-se de uma nova abordagem, seguindo novos princípios estéticos ou interpretativos? De uma simples necessidade de adaptação a novas roupagens (isto é a actores e linguagens mais de acordo com os tempos)? Ou simplesmente de um golpe de marketing, já que parece mais rentável fazer um filme novo exactamente igual ao clássico que o inspira, que voltar a exibir e promover o original?

O remake é uma das maiores pragas do cinema enquanto arte (na medida em que o prende ao passado, na reciclagem de valores conhecidos), e uma das maiores benesses do cinema enquanto negócio (uma vez que muitos se tornam grandes sucessos de bilheteira). A própria palavra parece ter ganho vida própria, sendo hoje usada quase como se cunhasse uma qualidade inerente, que poucas vezes esses filmes têm. Afinal, se fizermos um pequeno exercício, faria sentido um autor moderno fazer um remake do livro «Guerra e Paz» de Tolstoi, ou do quadro «Mona Lisa» de Da Vinci? Se isso nos parece absurdo, então porque resulta no cinema?

Ficando a resposta para outra oportunidade, interessa-nos enquadrar aqui a nova produção da Disney, A Bela e o Monstro, realizada por Bill Condon (um realizador com uma carreira muito desigual, desde a irreverência de Kinsey e elegância de Deuses e Monstros, até ao exibicionismo gratuito de alguns filmes da série Twilight), e que tem por objectivo transpor para actores de carne e osso, o emblemático filme de animação de 1991, que foi um dos responsáveis pelo renascimento da produtora, que estava há algumas décadas a atravessar uma fase desinspirada.

Não admira que nesta homenagem que a Disney faz a si própria (e é disso que se trata, nunca o esqueçamos), o filme escolhido tenha sido A Bela e o Monstro. Realizado por Gary Trousdale e Kirk Wise, com argumento de Linda Woolverton e música de Alan Menken, o filme de animação seria um modelo a seguir pela própria produtora, na sua combinação de conto de fadas em jeito de elegante musical, onde desponta uma imortal história de amor, com uma «princesa» que ainda hoje fascina as meninas e ajuda a vender merchandise. Para alguns trata-se mesmo do melhor filme de sempre da Disney, e note-se que foi feito numa fase em que a produtora ainda usava animação tradicional. Tudo nele é repleto de grandiosidade, dos movimentos aos planos, passando pelo design de cenários, numa elegância poucas vezes vista.

E sob o peso dessa herança, o que é que a Disney nos propõe agora? Antes de mais, propõe-nos um filme que é quase uma cópia, sequência por sequência, imagem por imagem, do original. Fá-lo usando os mesmos personagens, diálogos e músicas (acrescentando algumas, é certo, também de Menken). Foca-se no rosto de Emma Watson, que tenta vender como o arquétipo do que deve ser uma princesa Disney. E embrulha tudo num festim visual que exagera em exuberância de cor, artificialidade e movimento.

É certo que o resultado está bem empacotado, que Emma Watson surpreende com uma voz bastante agradável (menos na interpretação, onde passa muito por menina birrenta), que o monstro (Dan Stevens) é um prodígio técnico, que o argumento secundário que envolve os personagens de Gaston (Luke Evans) e LeFou (Josh Gad) é sempre bem conseguido, e que a história original continua eficaz, no seu misto de romantismo moralista, como compete a um conto de fadas tradicional. Já o desperdício que é o uso de diversos actores consagrados em papéis menores (Kevin Kline, Emma Thompson, Ian McKellen, Ewan McGregor e Stanley Tucci) dá que pensar.

Por tudo isto, quem admira a elegância do filme de 1991 talvez não encontre motivos para que este remake tenha de ser visto. Restam os saudosistas desse tempo, que acreditam que a Disney tem o exclusivo dos contos de fadas (deve lembrar-se que esta história altera imenso o conto original de Gabrielle-Suzanne Barbot de Villeneuve e mesmo a versão mais popular de Jeanne-Marie Leprince de Beaumont, omitindo diversos elementos e alterando a ênfase para gerar a tensão final). E resta ainda quem acha que passar da animação para o live-action é sempre uma melhoria. Algo que este filme cabalmente demonstra ser uma falácia.

Resumo da crítica

Summary

A provar que nem sempre passar de um filme de animação para um filme de carne e osso é uma melhoria, A Bela e o Monstro, é uma homenagem da Disney a si própria, tentando cristalizar um clássico segundo os seus padrões, mas onde a elegância e subtileza do filme de 1991 se tornam agora um longo desfile de exuberâncias.

Classificação

  • Argumento
  • Interpretação
  • Produção
  • Realização
2.5 10 mediano

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