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Se as Montanhas se Afastam

de Jia Zhang-ke

muito bom

Quase três anos depois de China – Um Toque de Pecado (2013), Jia Zhang-ke regressa às salas nacionais com um tocante melodrama contado em três partes (digamos, o passado, o presente e o futuro), exemplarmente filmado e absolutamente comovente sem ser manipulador. Uma das jóias cinematográficas do ano.

Se no seu filme anterior o espectador era levado, por reflexo condicional, a temer por antecipação os rasgos de violência que manchavam de sangue cada uma das diferentes histórias lá contadas, em Se as Montanhas se Afastam há uma estranha antecipação por uma espécie de explosão emocional que nunca chega a sentir-se verdadeiramente, permanecendo na sua maior parte interior a cada uma das personagens. Será esse, no fundo, o tema principal de Jia Zhang-ke nesta sua ambiciosa e algo enigmática obra, a repressão de sentimentos que deveriam estar à flor da pele? Talvez seja, mas já sabemos que no seu cinema as personagens estão sempre muito directamente ligadas ao ambiente que as rodeia, e a China, que hoje vive entre os valores tradicionais e o capitalismo crescente, é o palco ideal para essas convulsões interiores. Ao autor interessa-lhe não só reflectir sobre o presente e o futuro dessas personagens como também sobre o seu próprio país.

Quando começa, o filme situa-se em 1999, na entrada de um novo século, e um grupo de três amigos, composto pela bela Tao (Tao Zhao), o humilde mineiro Liangzi (Jing Dong Liang) e o abastado Jinsheng (Yi Zhang), habituado a divertir-se em conjunto, ameaça desfazer-se quando os rapazes competem pelo amor de Tao. Depois de se ver obrigada a escolher entre um deles, o filme retoma as personagens em 2014 e, mais tarde, em 2025, num futuro em que o mundo parece órfão de identidade, abraçando a tecnologia e deixando pouco ou nenhum espaço para a memória e para a tradição, perdidas nos confins da mente. De segmento para segmento, os actores mantêm-se, mas vai-se alterando o formato da imagem, que começa mais quadrada e se vai alargando até ao segmento do futuro, em contraste com a paisagem emocional das personagens, que se fecham gradualmente sobre si próprias (veja-se a diferença de sentimentos provocados pelo plano inicial num “sufocante” formato de 4:3 e o final, em “glorioso” scope – as aspas aqui não são meros adornos de escrita, caro leitor).

De certa forma, Se as Montanhas se Afastam faz lembrar, na sua estrutura tripartida, o filme que o americano Derek Cianfrance realizou em 2012, Como um Trovão (The Place Beyond the Pines), embora Jia Zhang-ke seja bem mais contido em todos os sentidos, não fazendo questão de esconder o jogo entre as suas histórias para além do que cada personagem sabe, ou seja, não reserva informação essencial para efeitos de surpresa bombástica. E é justo dizer que aqui, tal como no filme de Cianfrance, o terceiro acto é o mais arriscado, e aquele que pode acabar por afastar o espectador – ao descolar-se dos seus principais protagonistas e centrando-se em personagens mais jovens que são, no fundo, fruto das escolhas que as mais velhas fizeram no passado, perde-se uma certa ligação emocional anteriormente criada, mas cria-se uma nova. À boa maneira de Jia Zhang-ke, as histórias sucedem-se e as pessoas cruzam-se com grande naturalidade, o que de certa forma parece contrariar o próprio conceito de melodrama, que pressupõe uma vincada exacerbação de sentimentos. Mas, mais ou menos exteriorizados, são sempre os sentimentos que estão em primeiro plano e a narrativa, essa, com as suas pontas soltas em relação àquilo que fica por contar, é assim apresentada sem grande artifícios ou preocupações. O tempo passa, e o que fica para trás lá permanece, porque a vida não pára, e é aí que reside a sua grande beleza e a sua inevitável tragédia.

Resumo da crítica

Summary

Jia Zhang-ke regressa às salas nacionais com um tocante melodrama contado em três partes, exemplarmente filmado e absolutamente comovente sem ser manipulador. Uma das jóias cinematográficas do ano.

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